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Tom Cruise com nariz de palhaço

Trailer: "O Palhaço", novo filme de Selton Mello

Divulgado, hoje, o primeiro trailer de “O Palhaço”, segundo filme de Selton Mello na direção após a bem-sucedida estreia com “Feliz Natal“. Estas são as primeiras imagens em movimento oficialmente divulgadas pela produção do filme e, por elas, podemos esperar um estilo visual bem diferente do visto no primeiro longa dirigido pelo ator, onde a fonte de inspiração foi o cinema de John Cassavetes. Outra novidade é que, desta vez, Mello também atua. E pelo menos o que o trailer indica é que sua participação é bastante grande. Paulo José parece ser o coadjuvante. A estreia está prevista para 26 de agosto, possivelmente após uma premiere no Festival de Paulínia, que ocorre em julho. Distribuição da Imagem Filmes.

Como degustar “Sideways”


– Primeiro, erga o copo e examine o vinho contra a luz.

 

“Sideways” funciona em duas esferas: a primeira é a do estudo de personagens, na qual é prazeroso deixar de ler as legendas em alguns momentos só para observar as expressões e gestos de Paul Giamatti e seus colegas de elenco. A outra é a da comédia, onde quem mais brilha é Thomas Haden Church, que rouba a cena diversas vezes.

 

– Agora, incline. O que você está fazendo é checar a densidade da cor, à medida que o vinho afina na direção da borda. Isso mostra a idade.

 

Não há nada de mais injusto no Oscar deste ano do que a não indicação de Giamatti como Melhor Ator. Assistam a “Sideways” e depois venham dizer se não tenho razão. Aqui, ele faz seu melhor trabalho, uma interpretação sutil, que pode lembrar o Harvey Pekar de “Anti-Herói Americano”, mas sem os maneirismos daquele personagem, ficando apenas o lado pessimista e ranzinza. Acrescente a isso uma dose de pura sensibilidade, algo que o ator emprega ao aspirante a escritor Miles de uma forma que o torna um cara real, com sentimentos que eu ou você podemos compartilhar com ele.

 

– Enfie o nariz. Não seja tímido, enfie o nariz pra valer.

 

“Sideways” pode não agradar tanto quanto os outros indicados ao Oscar, o que é compreensível tendo em vista que ele é direcionado a um público peculiar: homens adultos que já passaram por experiências amorosas frustrantes. Não que as mulheres não possam curtir também (além de ser uma ótima oportunidade para elas observarem o comportamento do sexo oposto).

 

– Ponha a taça no balcão e deixe entrar o ar. Oxigenar abre o vinho, solta os aromas, os sabores, isso é muito importante.

 

Confesso que me identifiquei bastante com Miles e, por isso, o que mais gostei foi a análise da depressão pela qual ele passa. Miles diz a Jack que a semana que eles irão passar juntos é para o amigo se divertir, não ele. De fato, é isso que acontece, mas é Miles que vive o momento de maior descoberta interna, enfrentando os próprios demônios que o atormentam desde o fim de seu casamento. A incapacidade de se sentir estimulado a se relacionar novamente, o fracasso profissional que parece cada vez mais provável, tudo derivado do stress emocional que ele vive. Alexander Payne consegue transmitir com a câmera essa constante sensação de desconforto do personagem. Observe, por exemplo, como é filmada a cena em que Miles se senta com os amigos em um restaurante, mas ele só consegue pensar na ex-esposa.

 

– Cheire de novo.

 

Se o filme é tão, digamos, introspectivo, por que, então, foi tão elogiado e premiado em tudo quanto é associação de críticos nos EUA? A resposta está exatamente nesta observação tão próxima, que chega a ser pessoal. Assim como Miles nos ensina, “Sideways” deve ser degustado aos poucos. É preciso estudá-lo, pegar os detalhes, as nuanças dos personagens, os diálogos bem colocados, o timing dos atores, os enquadramentos, as aproximações da câmera. Não é um filme para se ver num gole só.

 

– E quando a gente bebe?
– Agora.

 

Concordo que o filme possa estar passando por uma superestimação momentânea, ainda mais quando temos um Scorsese e um Eastwood em cartaz ao mesmo tempo, mas não dá para negar que o trabalho de Payne é realmente muito bom. Vale não só a primeira dose, mas a garrafa inteira.

 

Texto publicado originalmente em 16 de fevereiro de 2005.

Batman – O Cavaleiro das Trevas

Minha teoria está provada. Demonstrei que não há diferença entre mim e outro qualquer. Só é preciso um dia ruim para reduzir o mais são dos homens a um lunático. Essa é a distância entre o mundo e eu… Apenas um dia ruim.

– da HQ “Batman – A Piada Mortal”, de Alan Moore.

 

Nesses dias em que violência e sobrevivência são palavras que não apenas rimam, mas praticamente se pertencem nas capas dos jornais e em noticiários na TV, é mais do que apropriado que um personagem como o promotor público Harvey Dent seja quase um protagonista em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”. Utilizando uma moeda como pretexto para decidir dilemas no “cara ou coroa”, ele tem como lema a máxima: “Cada um faz a sua própria sorte.” Mas que sorte é essa quando a barbárie da criminalidade envolve até mesmo aqueles que deveriam zelar pelo cumprimento da lei e a segurança da população?

 

Não, eu não vou iniciar aqui uma discussão sobre a escalada da violência e a corrupção policial. Esses são temas já estabelecidos, dos dois lados da tela, quando o filme tem início. A figura do Homem-Morcego já está instituída e Gotham vê nele exatamente aquilo que Bruce Wayne projetou em “Batman Begins”: um símbolo que, através de um exemplo dramático, levou as pessoas a respeitá-lo e os criminosos a temê-lo. Não só isso: levou outros como ele, ansiosos por fazer justiça com as próprias mãos, a imitá-lo. O que está em debate agora é justamente o que pode ser feito, por cidadãos, políticos, policiais e, claro, o super-herói, para conter a violência e salvar Gotham, representação do mal conjurado do mundo. E onde esta continuação hiperproduzida e rotulada como um sucesso predestinado se torna tão distinta entre tantos outros filmes sobre justiceiros mascarados, alados, mutantes, é em sua antítese: o que este Batman nos diz é que o mundo não precisa de heróis.

 

O entrave disputado por Bruce Wayne com o próprio Batman é um tema que se sobressai, uma vez que ele vê sua idealização de justiça se reverter e colocar em risco as pessoas mais próximas e também a segurança de Gotham como um todo. O herói que decide abandonar o fardo não é assunto inédito: também nos segundos filmes do Superman e do Homem-Aranha, vimos esses personagens se tornarem indivíduos comuns, só que por motivos pessoais. Batman também tem motivos pessoais, mas sua razão é essencialmente política.

 

Uma vez que a população passa a depositar nos ombros do herói a solução para acabar com a violência, ele se torna a imagem da segurança. Mas o que o diretor-roteirista Christopher Nolan (juntamente com seu irmão Jonathan Nolan, com quem assina o roteiro, além de David S. Goyer, co-autor do argumento) tenta mostrar é que não é de um vigilante mascarado que este mundo realmente precisa, mas, sim, de pessoas que possam restabelecer a justiça e a ética por meios corretos e que não precisem se esconder. Não é gratuita a insistência quase obsessiva de Nolan em aproximar o universo onde o Coringa existe daquele habitado pelo assassino do Zodíaco. Sua abordagem realista, que adota a estética de um filme policial e se recusa a retratar Gotham como uma cidade de arquitetura estilizada, agora até mais do que no primeiro filme, faz pleno sentido, uma vez que seu objetivo é dialogar e não apenas impressionar.

 

O que faz de “O Cavaleiro das Trevas” mais do que um “filme de super-herói”, ou mesmo mais do que um thriller policial, é que Nolan cria uma peça conceitual que coloca a dimensão legitimada de “Batman Begins” a serviço de questionamentos relevantes sobre o mundo em que vivemos. Ele articula o clássico duelo do herói contra seu arquiinimigo de forma a refletir sobre a dinâmica atualíssima entre aqueles que detêm o poder de governar e os cidadãos que eles acabam por manipular. Por isso, Dent se torna o pivô na estratégia do Coringa, que é provar que, no fundo, todo mundo pode cair diante do desespero, até mesmo o mocinho.

 

O Coringa (interpretado por Heath Ledger, um ator que se foi muito cedo e cuja atuação minimalista, que se desdobra em função da sociopatia do personagem, só nos faz lamentar ainda mais sua partida) é alguém que foi capaz de enxergar de fora o jogo político entre a polícia, a justiça e os criminosos. O problema é que ele usa sua genialidade para anarquizar Gotham, levá-la ao caos, ao invés de tentar reinventá-la. É isso que o torna um terrorista e o diferencia de um revolucionário. Numa relação ainda dentro dos quadrinhos, podemos dizer que o Coringa é o oposto do protagonista de “V de Vingança”. Ambos agem de formas semelhantes: usam a mídia, planejam atentados, tentam fazer as pessoas enxergarem toda a merda em volta delas. Mas V quer salvá-las, ele acredita nelas, ao passo que o Coringa é um niilista, totalmente descrente em qualquer possibilidade de salvação. E é usando o mesmo conceito da manipulação do medo visto em “Batman Begins”, só que em outro contexto, que o vilão consegue articular todas as peças do tabuleiro em seu favor. A citação no início desse texto se refere ao Coringa, mas também poderia ser direcionada a Dent ou mesmo ao Batman: eles formam um trio de aberrações, representações extremas de pessoas que se rebelam contra um suposto acaso que transforma suas vidas.

 

O que é interessante é que o próprio filme parece se comportar como a sorte lançada pelo “cara ou coroa” de Harvey Dent. A partir de determinado momento, quando o promotor dá indícios de que está prestes a se corromper, o filme muda de tom e de ritmo. Repare até mesmo na forma como Aaron Eckhart aparece enquadrado, com metade do rosto na sombra, antes de sua derradeira transformação. É como se ali a moeda fosse jogada para cima e caísse virada para o outro lado. Enquanto a primeira parte do filme constrói toda uma possibilidade de esperança, a segunda é a demolição de um sonho, uma descida ao inferno guiada por um demônio com maquiagem de palhaço.

 

Nesta segunda parte, a montagem de Lee Smith é exemplar na maneira como trabalha a narrativa multi-plot, que nunca se concentra em um só enredo. Desde o início, o filme se comporta como se fosse uma crônica de tudo o que acontece em Gotham naquele momento: ao mesmo tempo em que Bruce Wayne projeta seu novo uniforme com Lucius Fox, Harvey Dent e Rachel Dawes traçam uma estratégia para prender os líderes das principais organizações criminosas da cidade, enquanto o Coringa arquiteta seu plano e Jim Gordon tenta localizá-lo. Mas na hora final do filme, essas tramas simultâneas, que estão sempre ligadas umas com as outras, passam a correr quase em tempo real. A sensação de urgência é alimentada ainda pela incessante trilha sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard, que assume tons de ópera e parece estar naturalmente intrínseca à construção de cada cena e ao desenvolvimento da trama. Nolan, claro, também muda de postura, já que se vê obrigado a abandonar planos corriqueiros de diálogo para se comportar como um maestro que precisa manter a harmonia no apogeu da sinfonia. Nolan é um cineasta que se posiciona atrás da história, não quer aparecer mais do que ela. Sua preocupação parece ser principalmente dirigir o todo, sem dar atenção especial a um ou outro aspecto. Assim, o estilo passa a ser coletivo.

 

O que está no coração do filme é que o mundo não precisa de super-heróis, mas de humanidade. Nesse sentido, e numa comparação não tão estapafúrdia, Harvey Dent pode ser visto como a representação de uma figura política como Robert F. Kennedy: alguém que inspira confiança, mas que acaba saindo de cena devido a adversidades que fogem ao seu controle. Nolan trabalha o tempo todo com a noção de que não só vale a pena, como é necessário acreditar no lado bom de cada um, acreditar que não somos apenas animais. Há uma cena que define bem esse ponto de vista, quando a música sobe a um tom angustiante e uma decisão sensata poupa milhares de vidas. Existem várias seqüências de ação, com socos, quedas, tiros e barulho no filme, todas elas ótimas. Mas é este clímax, sem nenhuma explosão, que é realmente genial.

nota: 10/10 — veja no cinema e compre o DVD
Batman – O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008, EUA)
direção: Christopher Nolan; com: Christian Bale, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Michael Caine, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Morgan Freeman, Monique Curnen, Cillian Murphy, Chin Han, Nestor Carbonell, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, Michael Jai White, William Fichtner; roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan (argumento de Christopher Nolan e David S. Goyer); produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas; fotografia: Wally Pfister; montagem: Lee Smith; música: Hans Zimmer, James Newton Howard; estúdio: Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures; distribuição: Warner Bros. Pictures. 152 min

Bastardos Inglórios

Armas são comuns nos filmes de Quentin Tarantino. Agora, que o cineasta fez seu primeiro filme de guerra, então, elas não poderiam faltar. Mas o que mais chama a atenção em “Bastardos Inglórios” é que o próprio filme é usado como arma por seu diretor.

Se fosse possível acabar com a Segunda Guerra Mundial através do cinema, “Bastardos Inglórios” certamente seria uma estratégia ideal (e das mais originais) para colocar um fim ao nazismo. O explosivo novo trabalho de Tarantino toma a liberdade para reescrever os livros de História e reimagina o cinema como arma – ideia adotada pelos soviéticos e pelos próprios nazistas através da propaganda e por diretores europeus e brasileiros que empunharam seus ideais políticos durante a Nouvelle Vague e o Cinema Novo. No caso de Tarantino, no entanto, o jogo é aberto, nada sutil, e está mais preocupado em mostrar a força da expressão artística de seu autor – que esbanja na tela o humor mórbido já conhecido desde “Cães de Aluguel”.

Marcas dos filmes de Tarantino estão espalhadas por todos os lugares em “Bastardos Inglórios”. A primeira, e mais óbvia, é a vingança, novamente personificada numa figura feminina – no caso a jovem francesa e judia Shosanna Dreyfus, interpretada por Mélanie Laurent que, num dos atos de transgressão do filme, rouba de Brad Pitt – chamariz absoluto do público recorde da carreira de Tarantino – o posto de protagonista. O ator, que nos trailers dava a impressão de liderar uma narrativa que na verdade corre apenas paralela à trama de Shosanna (não se preocupe em contar os escalpos nazistas colecionados pelo bando do tenente Aldo Raine), coloca à prova, mais uma vez, seu lado comediante e, mais uma vez, se sai muito bem. Só não tem mais espaço porque Tarantino parece ter gostado mais de brincar com o vilão, o coronel nazista Hans Landa, que parece ter crescido ainda mais em frente à câmera na atuação marcante de Christoph Waltz (premiado em Cannes por esse trabalho).

Também está na tela a famosa cena do mexican stand-off – que é aquele momento em que duas ou várias pessoas sacam suas armas e apontam uma para a outra ao mesmo tempo. Aqui, o mexican stand-off toma uma proporção numerosa na cena da taberna, uma das sequências mais tensas do longa, e também uma das mais surpreendentes pela facilidade com que Tarantino constrói e desconstrói o filme através do poder narrativo. Ele praticamente conclui ali uma célula dramática que tem vida própria, sem deixar de ser orgânica para a história como um todo. Só é uma pena que ele se despoje nessa sequência de um dos personagens mais interessantes, que acaba não tendo tempo de tela suficiente apesar de ser anunciado com alarde.

Violência, podolatria, falas memoráveis, citação a outros filmes em diálogos e na mise-en-scène, trilha sonora também repleta de referências e homenagens (especialmente a Ennio Morricone), divisão da história em capítulos, participações especiais de amigos (Julie Dreyfuss, Samuel L. Jackson, Harvey Keitel – esses dois últimos apenas com a voz), resgate de atores em decadência (desta vez é Mike Myers, mas seu papel não tem qualquer relevância, podendo ter sido feito por qualquer outro ator), pausas para flashbacks. Está tudo lá, como em todo filme do diretor. Mesmo assim, temos aqui um Tarantino mais contido no estilo, menos palhaço, ainda que o humor esteja presente em vários lugares. O mais importante ele mantém: a excelência no manuseio da câmera e no ritmo dos cortes (com o auxílio imprescindível de sua montadora de longa data, Sally Menke). É um serviço de carpintaria que ele parece refinar a cada filme, seja qual for o gênero em que trabalhe.

“Bastardos Inglórios” não é um filme exploitation como “Kill Bill” ou “À Prova de Morte”, mas também não é um filme de guerra sério, como os que são tradicionalmente feitos. Tarantino busca uma narrativa mais centrada na construção dos diálogos e menos na ação, talvez numa opção de se aproximar do cinema europeu. A primazia na arquitetura dos discursos de seus personagens impressiona (e é uma ótima ironia ver um senhor da palavra fazer questão de grafar o título do filme da forma errada, enfiando uma vogal a mais em “inglorious” e trocando outra em “bastards”). Porém, as cenas faladas algumas vezes dão a impressão de durarem tempo demais, e não oferecem punch-lines ou referências à cultura pop como nos acostumamos a encontrar na obra do cineasta. É, de toda forma, um sinal de que ele procurou não fazer mais do mesmo, ainda que esse mesmo não seja drenado por completo, felizmente.

Se esta é ou não é a obra-prima de Tarantino é uma questão subjetiva, mas é inegável que “Bastardos Inglórios” é uma visão bastante peculiar da terra sem lei em que se transforma qualquer guerra.

nota: 9/10 — veja no cinema e compre o DVD

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009, EUA/Alemanha)
direção: Quentin Tarantino; roteiro: Quentin Tarantino; fotografia: Robert Richardson; montagem: Sally Menke; produção: Lawrence Bender; com: Brad Pitt, Mélanie Laurent, Christoph Waltz, Eli Roth, Michael Fassbender, Diane Kruger, Daniel Brühl, Til Schweiger, Gedeon Burkhard, Jacky Ido, B.J. Novak, Omar Doom, August Diehl, Denis Menochet, Sylvester Groth, Martin Wuttke, Mike Myers, Julie Dreyfus; estúdio: Universal Pictures, The Weinstein Company, A Band Apart, Zehnte Babelsberg, Visiona Romantica; distribuição: Universal Pictures. 153 min

Uma Manhã Gloriosa

A comédia tende ao exagero. É natural, portanto, que o programa de televisão matutino no qual a personagem de Rachel McAdams trabalha em “Uma Manhã Gloriosa” pareça mais um “Pânico na TV” do que um programa jornalístico. Mas quando vemos coisas como Ana Maria Braga tentando demonstrar a força de um tsunami simplesmente dando um soco no fundo de uma bacia com água, percebemos que os exageros do filme não estão tão distantes da realidade.

Por baixo de todos os seus óbvios problemas de realização, o filme dirigido por Roger Michell lança um olhar crítico sobre esse tipo de programa que nos é empurrado por emissoras de TV cada vez mais dependentes da publicidade para existirem. Em época em que vale tudo por pontos na audiência, em que qualquer coisa é pauta para “matérias”, a culpada pela zorra em que o programa do filme se transforma é a ansiedade e a inexperiência da protagonista.

Como se a pressão não bastasse, as boas intenções da hiperativa garota no novo emprego logo são esmagadas pela má vontade do âncora rabugento vivido por Harrison Ford: um jornalista veterano que foi o primeiro a estar no Marco Zero após os ataques às Torres Gêmeas, que cobriu guerras, denunciou escândalos, almoçou com o vice-presidente dos EUA, ganhou 16 Emmy e um Pulitzer e, claro, pilotou a Millenium Falcon e caçou a Arca Perdida.

Isso porque, além de falar de crise no Jornalismo, “Uma Manhã Gloriosa” se vira para a própria Hollywood, num comentário de bastidor que Michell já havia explorado em “Um Lugar Chamado Notting Hill”. Ford hoje se encontra numa posição semelhante a de atores de sua geração, como Robert De Niro e Al Pacino. Quando faltam oportunidades para eles fazerem filmes como aqueles que os consagraram, sobram trabalhos que acabam por ridicularizá-los. E como o personagem de Ford no filme, eles acabam aceitando só pelo dinheiro. Ford ainda é mais comedido que seus colegas, incluindo a própria Diane Keaton, que, também como sua personagem aqui, já não tem mais pudor algum em aceitar fazer qualquer coisa diante de uma câmera.

O que “Uma Manhã Gloriosa” quer dizer é que a mistura de Jornalismo com entretenimento pode não ser ideal, mas se ela se faz necessária, que ao menos seja feita com profissionalismo e bom gosto. Se é para fazer um circo, que ao menos as risadas do palhaço sejam sinceras, que os truques do mágico sejam intrigantes e que a trapezista esteja elegante. Do contrário, zapearemos sempre por um show de aberrações.

Uma Manhã Gloriosa (Morning Glory, 2010, EUA)
direção: Roger Michell; roteiro: Aline Brosh McKenna; fotografia: Alwin H. Kuchler; montagem: Daniel Farrell, Nick Moore, Steven Weisberg; música: David Arnold; produção: J.J. Abrams, Bryan Burk; com: Rachel McAdams, Harrison Ford, Diane Keaton, Patrick Wilson, Jeff Goldblum, John Pankow, Linda Powell; estúdio: Bad Robot, Goldcrest Pictures; distribuição: Paramount Pictures. 107 min

The Spirit – O Filme

Frank Miller: gênio ou palhaço?

Esta é a pergunta que se faz após “The Spirit – O Filme”, primeiro longa que o célebre quadrinhista dirige sozinho após sua estréia como cineasta ao lado de Robert Rodriguez em “Sin City – A Cidade do Pecado”. A resposta pode ser uma ou outra, ou mesmo as duas coisas. Só não há como ficar indiferente ao incrível filme que ele fez – e talvez mais inacreditável ainda seja o fato de ele ter conseguido colocá-lo em cartaz.

“The Spirit” é uma aberração dentro do conjunto em que está inserido: adaptações de quadrinhos e histórias de super-heróis. Baseado no clássico detetive de terno, chapéu e gravata (e máscara, claro) criado por Will Eisner nos anos 40, o filme se revela um comentário satírico sobre esses personagens com superpoderes que precisam combater grandes vilões e seus planos malignos. E o lançamento acontece bem próximo de outro trabalho revisionista do gênero, “Watchmen” – tendência, aliás, que se fundamentou em “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e teve também em “Hancock” o questionamento sobre o papel do herói na sociedade. Quando Lois Lane escreveu “Por que o mundo não precisa do Superman”, em “Superman – O Retorno”, a repórter do Planeta Diário mal imaginava que havia derrubado apenas a primeira peça do dominó…

Esse efeito revisionista é uma evolução natural e repete, no cinema, o que também aconteceu nos quadrinhos. Mas diferente da análise mais calcada na realidade que “Cavaleiro das Trevas” e “Watchmen” fazem, “The Spirit” pega uma veia muito mais cômica – quiçá mais apropriada, uma vez que se aproxima mais do espírito original com que as comics foram criadas décadas atrás. Algumas coisas no filme realmente parecerem despropositadas e gratuitas a princípio (como uma referência à animação japonesa que surge subitamente, ou o uso de um dinossauro de brinquedo numa cena que se passa em uma praia). Mas a impressão geral que se tem é que Miller está parodiando clichês de histórias de super-heróis, a todo momento fazendo menções a outros personagens clássicos, como Superman (“Você vai acreditar que um homem não pode voar.”), Batman, Wolverine, Thor e até mesmo os habitantes de Basin City criados pelo próprio Miller. E para fazer isso ele se distancia totalmente da fidelidade ao material original – para o bem.

O tom é de escárnio, um humor pateta e estridente. É uma histeria que beira o ridículo, mas num nível consciente. Tudo acontece bem longe do realismo que desde o primeiro “X-Men”, em 2000, tem pautado as adaptações de HQs. O “Spirit” de Miller nos faz lembrar que todos esses filmes, no fundo, têm origem nas mais absurdas fantasias de quadrinhistas que batizaram toda uma geração de geeks (e não me excluo, não).

Miller também brinca com as noções do noir que ele mesmo já explorou em “Sin City”. Em parceria com o diretor de fotografia Bill Pope (escolha muito adequada, já que trabalhou na trilogia “Matrix” e nos dois últimos “Homem-Aranha”), ele volta a utilizar o mesmo estilo gráfico expressionista, com muitas sombras, traços poligonais e cores contrastantes. E as imagens que ele cria… Deus! Há uma sequência de sonho do protagonista com suas mulheres que é absolutamente hipnotizante. Não se vê um trabalho de recortes e montagens de imagens como esse em um filme todo dia, nem no circuito alternativo, quanto menos no comercial. Miller, como mestre que é do traço, parece trabalhar na tela como se desenhasse. É um dos usos mais criativos e inteligentes de tela verde já vistos.

Por falar em tela verde, não é a toa que o elenco parece estar atuando numa peça de teatro, já que foi assim que eles foram dirigidos no set, que não contou com cenários ou locações. Por incrível que pareça, fui remetido a “Dogville” em certos momentos, já que existe um tom artificial evidente, e certamente proposital, nas interpretações. Tudo isso colabora para o efeito cômico que gera cenas engraçadíssimas, principalmente as protagonizadas por Samuel L. Jackson, que entra para valer na brincadeira. Que outro ator gritaria uma frase tão tacanha como: “I don’t like eggs on my face!”, tão bem? E a relação dele com seu exército de clones imbecis (todos vividos por Louis Lombardi) é impagável.

O delirante “The Spirit” não agrada a todos, e creio que nem seja esse seu objetivo (afinal, o próprio Will Eisner vivia mudando o tom de seus quadrinhos para evitar se acomodar junto aos leitores). Bizarrice que é, o filme se torna atraente demais para ser ignorado nas águas de um mar cuja maré parece estar ficando cada vez mais mansa.

nota: 7/10 — vale o ingresso

The Spirit – O Filme (The Spirit, 2008, EUA)
direção: Frank Miller; roteiro: Frank Miller (baseado nos quadrinhos criados por Will Eisner); fotografia: Bill Pope; montagem: Gregory Nussbaum; música: David Newman; produção: Deborah Del Prete, Gigi Pritzker, Michael E. Uslan; com: Gabriel Macht, Samuel L. Jackson, Eva Mendes, Scarlett Johansson, Sarah Paulson, Jaime King, Paz Vega, Louis Lombardi; estúdio: Lionsgate, Odd Lot Entertainment; distribuição: Sony Pictures. 108 min

Promessas de ano novo – Os filmes mais aguardados de 2011

A seguir, uma compilação de cineastas que tem novos trabalhos previstos para serem exibidos em 2011.

A lista compreende desde diretores de renome mundial a jovens cineastas que causaram boa impressão em seus primeiros filmes.

Duas observações: a relação não leva em conta filmes já exibidos em festivais ou lançados fora do país – são apenas filmes inéditos, que ninguém viu (são promessas afinal); incluí o maior número de cineatas brasileiros que consegui pesquisar, mas há inevitáveis ausências que certamente marcarão presença ou aparecerão de surpresa nos festivais ao longo do ano.

Alexander Payne, “The DescendantsPrimeiro longa de Payne desde “Sideways”, de 2004, e, claro, já tido como candidato ao Oscar 2012.

Alexander Sokurov, “FaustoSokurov afirma que esta adaptação da lenda alemã fará companhia a “O Sol”, “Moloch” e “Taurus”. Iniciamente, seria lançado ano passado.

André Téchiné, “ImpardonnablesO último filme de Téchiné, “La fille du RER”, de 2009, não chegou ao Brasil e teve recepção morna lá fora. Melhor sorte para o novo trabalho deste grande realizador francês.

Andrew Niccol, “NowUm thriller futurista sobre envelhecimento. Já vimos algo parecido em “Os Substitutos”, mas Niccol não é cineasta para ser subestimado.

Béla Tarr, “The Turin HorseSegundo o cineasta, será o último filme de sua carreira.

Beto Brant, “Eu Receberia As Piores Notícias Dos Seus Lindos LábiosNovamente com co-direção de Renato Ciasca (“Cão Sem Dono”) e novamente trabalhando com texto de Marçal Aquino, Brant dirige Camila Pitanga e Gustavo Machado em um romance que “investiga a natureza subversiva do amor”.

Breno Silveira, “Beira do CaminhoDepois do muito bom “2 Filhos de Francisco” e do mediano “Era Uma Vez…”, Breno Silveira conta a história de um caminhoneiro em um road movie embalado por músicas de Roberto Carlos. Com João Miguel e Dira Paes.

Bruno Dumont, “L’empireNovo trabalho do cultuado e premiado diretor de “O Pecado de Hadewijch” e “Flandres”.

Cameron Crowe, “We Bought a ZooO retorno de Cameron Crowe após um hiato de seis anos sem rodar um filme. Só podemos torcer para que ele tenha se recuperado de “Elizabethtown”.

Cao Hamburger, “XinguNovo filme de Hamburger após o elogiado “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, com João Miguel, Felipe Camargo e Caio Blat.

Carlos Reygadas, “Post Tenebras LuxPrimeiro longa de Reygadas desde “Luz Silenciosa”, de 2007.

Cláudio Assis, “Febre do RatoSempre polêmico, agora desde as filmagens, Assis (“Amarelo Manga”, “Baixio das Bestas”) provavelmente surgirá com seu terceiro longa em algum festival este ano.

David Cronenberg, “A Dangerous Method” e “Cosmopolis“. No primeiro, Viggo Mortensen e Michael Fassbender interpretam Sigmund Freud e Carl Jung, numa análise íntima do nascimento da psquiatria moderna. Material que pode levar Cronenberg ao Oscar, hein? Keira Knightley também está no elenco. No segundo filme, que talvez fique para o ano que vem, Robert Pattinson será perseguido por Paul Giamatti, entre outros, num suspense que deve seguir mais de perto a tradição da carreira de Cronenberg.

David Fincher, “Os Homens que Não Amavam as MulheresFincher de volta ao gênero policial, e mais badalado que nunca após “A Rede Social”.

David Gordon Green, “Your Highness” e “The SitterGreen gostou mesmo de fazer comédias após “Segurando as Pontas”. “Your Highness” está na lata já há algum tempo e é uma comédia “medieval”, com Danny McBride, James Franco, Natalie Portman e Zooey Deschanel. “The Sitter” ainda está sendo rodado.

Francis Ford Coppola, “Twixt Now and SunriseTerceiro filme da nova fase da carreira de Coppola, iniciada pelo esquisito “Youth Without Youth” (ainda inédito no Brasil) e seguida com “Tetro”, este um trabalho mais bem recebido e mais palatável. O novo filme é descrito como um conto de horror à la Edgar Allan Poe. Val Kilmer, Elle Fanning e Bruce Dern no elenco. Será bom ver o velho Coppola voltar a “tocar o terror” depois de tanto tempo.

George Clooney, “The Ides of MarchDrama sobre os bastidores da política americana. Clooney na direção e no elenco, acompanhado por Ryan Gosling, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood.

Gus Van Sant, “RestlessMais um filme “tradicional” de Van Sant ou outra viagem autoral? Mia Wasikowska é a protagonista, com Henry Hopper (filho do Dennis Hooper) co-estrelando.

Hirokazu Koreeda, “MiracleDo diretor de “Ninguém Pode Saber”.

J.J. Abrams, “Super 8Abrams diz que é uma homenagem aos filmes de Steven Spielberg dos anos 80. Muito mistério ainda cerca o projeto, mas, mesmo que seja um filme bem menor que “Star Trek” ou “Missão: Impossível 3”, possivelmente tomará proporções de blockbuster quando chegar às telas.

Jason Reitman, “Young AdultO queridinho da Academia novamente conta uma história de jovens adultos em crise. Com Charlize Theron e Patrick Wilson.

Jean-Pierre e Luc Dardenne, “Set Me FreePrimeiro filme dos irmãos Dardenne desde “O Silêncio de Lorna”, de 2008. Com Cécile de France e Jérémie Renier.

Jim Sheridan, “Dream HouseSheridan deve um filme bom desde “Terra de Sonhos”. Torcida para que ele reencontre um melhor caminho, embora o temor de um novo fracasso seja maior.

Jodie Foster, “Um Novo DespertarRetorno de Jodie Foster à direção após 16 anos. Com ela, Mel Gibson e Jennifer Lawrence no elenco.

Jon Favreau, “Cowboys & AliensSe em “Homem de Ferro 2” Favreau sofreu com intereferência de produtores, mas ainda assim fez um ótimo filme, o que será que aprontou com este nova adaptação de HQ? Com Daniel Craig, Harrison Ford, Sam Rockwell, Paul Dano e Olivia Wilde.

José Eduardo Belmonte, “Billi PigQuinto longa de Belmonte, um dos melhores cineastas brasileiros contemporâneos. Promete ser uma mudança em tanto na carreira, já que será uma comédia de ação estrelada por Selton Mello e Grazi Massafera. Previsto para janeiro de 2012, mas já vamos jogar aqui pois pode entrar em algum festival antes.

José Henrique Fonseca, “HelenoSegundo longa do diretor de “O Homem do Ano”, de 2003. Desde então, Fonseca realizou a série de TV “Mandrake”. Com Rodrigo Santoro, ele contará a história do jogador de futebol Heleno de Freitas, ídolo no Botafogo.

Juan Antonio Bayona, “The ImpossibleUm “filme-desastre” do diretor de “O Orfanato”. Com Ewan McGregor e Naomi Watts. O filme gira em torno da tsunami que devastou a Tailândia em 2004. Clint Eastwood estabeleceu um novo padrão com a abertura de “Além da Vida”, mas o retrospecto de Bayona conta a seu favor.

Karim Aïnouz, “Olhos nos OlhosDepois de “O Céu de Suely”, Aïnouz acompanha 24 horas da vida de uma mulher que descobre que será abandonada pelo marido. Baseado na música de Chico Buarque. Com Alessandra Negrini.

Kleber Mendonça Filho, “O Som ao RedorPrimeiro longa-metragem de ficção do crítico de cinema e premiado curta-metragista KMF.

Lars von Trier, “MelancholiaUm filme-desastre por Lars von Trier. Com Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland, Charlotte Rampling, John Hurt, Stellan Skarsgård e Udo Kier.

Luiz Bolognesi, “LutasEstreia de Bolognesi (roteirista de “As Melhores Coisas do Mundo” e “Chega de Saudade”, “Bicho de 7 Cabeças”, entre outros) na direção solo de longa. E com uma animação.

Manoel de Oliveira, “A Igreja do DiaboUm novo filme do incansável Manoel de Oliveira é sempre bem-vindo.

Marcelo Gomes, “Era Uma Vez VerônicaO diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus” define este novo trabalho como um “filme existencialista tropical”, uma mistura de “Mônica e o Desejo” com “Albergue Espanhol”. Com Hermila Guedes.

Marcos Bernstein, “Meu Pé de Laranja LimaSegundo longa de Bernstein na direção (a estreia foi com “O Outro Lado da Rua”). O filme é uma nova adaptação do clássico infanto-juvenil de José Mauro de Vasconcelos.

Marcos Prado, “Paraísos ArtificiaisPrimeiro longa de ficção do diretor de “Estamira” e produtor de “Tropa de Elite”. Filme é situado no universo da “geração ecstasy”.

Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud, “Chicken with PlumsDos diretores de “Persépolis”, com Isabella Rossellini, Mathieu Amalric e Maria de Medeiros. Não é animação.

Martin Scorsese, “Hugo Cabret” e “Living in the Material World: George HarrisonO mestre apresentará sua primeira incursão no cinema infantil e na tecnologia 3D. Em terreno mais seguro, ele tem o aguardadíssimo documentário sobre o beatle George Harrison.

Matthew Vaughn, “X-Men: First ClassPoderá Vaughn realmente injetar sangue novo na franquia?

Michael Haneke, “AmourPrimeiro filme de Haneke após a Palma de Ouro por “A Fita Branca”. O elenco reúne Isabelle Huppert, Emmanuelle Riva e Jean-Louis Trintignant.

Nanni Moretti, “We Have a PopeO Papa no divã no novo filme de Moretti, novamente com ele no elenco.

Pedro Almodóvar, “La Piel que HabitoTido como primeiro “filme de terror” de Almdóvar. Com Antonio Banderas, Elena Anaya e Marisa Paredes.

Philippe Claudel, “All The SunsSegundo longa do diretor de “Há Tanto Tempo Que Te Amo”, com a eterna musa francesa Anouk Aimée.

Philippe Garrel, “Un Été BrûlantO novo filme de Garrel estava previsto para 2010, mas ficou para este ano. Mais uma vez, com Louis Garrel no elenco.

Richard Linklater, “BerniePossível retorno de Linklater ao mainstream com esta comédia de humor negro. Jack Black e Matthew McConaughey no elenco.

Sarah Polley, “Take This WaltzSegundo longa-metragem de Sarah Polley, após a bem-sucedida estreia na direção com “Longe Dela”.

Selton Mello, “O PalhaçoSegundo longa de Selton Mello na direção. Promessa de ser um road movie. Além de Mello, Paulo José no elenco principal. Os dois fazem uma dupla de palhaços.

Steven Soderbergh, “Contagion” e “HaywireO cineasta que costumava não sair de cena, já há algum tempo não dá as caras. Ele anda falando em aposentadoria, mas já tem dois filmes praticamente prontos. E são dois thrillers de ação.

Steven Spielberg, “As Aventuras de Tintin: O Segredo do Licorne” e “War HorseAssim como em 2005, quando tivemos “Guerra dos Mundos” e “Munique”, e em anos anteriores (2002 com “Minority Report” e “Prenda-me Se For Capaz”, 1997 com “Amistad” e “O Mundo Perdido” e 1989 com “Indiana Jones e a Última Cruzada” e “Além da Eternidade”), 2011 promete nos trazer mais uma double feature de Spielberg.

Takeshi Kitano, “Outrage 2Continuação do policial que fez sucesso no circuito de festivais ano passado.

Terrence Malick, “A Árvore da VidaInfinitamente adiado desde fins de 2009, deve passar em Cannes e chegar ao circuito no final de maio, nos EUA.

Tom McCarthy, “Win WinTerceiro longa de um ator que virou diretor e não decepcionou até agora, depois de “O Agente da Estação” e “O Visitante”. Com Paul Giamatti.

Tom Hanks, “Larry CrowneAssim como Jodie Foster, Hanks volta à direção de um filme após 15 anos. Curioso para ver.

Tomas Alfredson, “Tinker, Tailor, Soldier, SpyO diretor de “Deixe Ela Entrar” comanda um thriller de espionagem com grande elenco: Gary Oldman, Tom Hardy, Colin Firth, Mark Strong, Ciaran Hinds, entre outros. Baseado no livro de John le Carré. Melhor guardar as expectativas para não estragar.

Ulrich Kohler, “The Sleeping UnitNovo trabalho do diretor de “Bangalô” (escrevi sobre este filme aqui), integrante da chamada Nova Escola Alemã.

Vicente Amorim, “Corações SujosTerceiro longa de Amorim após os ótimos “Caminho das Nuvens” e “Um Homem Bom”. Tal como este último, é um drama histórico a cerca da Segunda Guerra, só que agora situado no Brasil e sobre imigrantes japoneses.

Vicente Ferraz, “A MontanhaEstreia na ficção do diretor do fascinante documentário “Soy Cuba, o Mamute Siberiano”. Contará a história de quatro soldados brasileiros que se separam do grupo na Itália, durante a Segunda Guerra Mundial. Com Daniel Oliveira e Júlio Andrade.

Walter Carvalho, “Raul – O Início, o Fim e o MeioNa verdade, este projeto reúne duas coisas que temos todo ano no cinema brasileiro: biografia de um músico e documentário de Evaldo Mocarzel. Mas como o Walter Carvalho está junto e, afinal, é sobre o Raul Seixas, tem que estar na lista.

Walter Salles, “Pé na EstradaSalles tentará se redimir de sua última passagem pelo cinema estrangeiro, o terrível “Água Negra”. É bem provável que ele consiga.

William Friedkin, “Killer JoeComédia de humor negro dirigida por um dos cineastas mais viscerais do cinema americano (quando ele quer ser, é verdade). Elenco com Emile Hirsch, Matthew McConaughey e Thomas Haden Church. Considere-me oficialmente intrigado.

Wong Kar Wai, “The GrandmastersKar Wai conta a história do mestre de artes marciais de Bruce Lee. Com Tony Leung e Ziyi Zhang.

Woody Allen, “Midnight in ParisNão é um ano completo sem um filme de Woody Allen. Será esta mais uma obra-prima ou mais um trabalho mediano do cineasta?

Para mais sugestões de filmes para acompanhar durante 2011, não deixe de ler o preview do blog The Playlist, que me ajudou bastante na elaboração desta lista. Para filmes brasileiros, sempre bom consultar o Filme B.

UPDATE: O amigo Hélio Flores me lembrou de mais dois grandes cineastas que têm filmes este ano.

Roman Polanski, “God of CarnageInicialmente previsto para 2012. Mas como as filmagens começaram no fim de janeiro, pode ser que fique pronto ainda este ano. Elenco maravilhoso, com Jodie Foster, Kate Winslet, Christoph Waltz, Matt Dillon e John C. Reilly.

Wes Craven, “Pânico 4“Nova década, novas regras.” A tagline diz tudo.

Batman versão Michael Bay

Alguns (ou muitos) de vocês já devem ter visto a esta altura as páginas de um roteiro de “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, supostamente escrito por Michael Bay e que teria sido rejeitado pelo estúdio. O link com a versão original está aqui (agradecimentos ao amigo Rodrigo Campanella!).

 

A brincadeira ficou bem divertida e, aproveitando a véspera da estréia mundial do filme, resolvemos publicar o script aqui, em português, para todos terem uma idéia bem provável do que seria uma versão “bayniana” de uma história do Morcegão. Cortesia do nosso tradutor de plantão, o inigualável Tooms. Boa diversão!

 

Michael Bay Apresenta,
em Associação com Michael Bay Produções,
e o diretor Michael Bay:Michael Bay’s O Cavaleiro das Trevas
por Michael BayIncluindo Diálogo Escrito por Michael Bay

 

NOTA DO ESTÚDIO: “Michael,
Obrigado pela oferta, mas estamos pensando em levar o filme para um caminho diferente.”

 

– pág. 1 –

 

EXT. WASHINGTON, D.C. – DIA

 

Nós começamos com uma visão do Pentágono: centro nervoso de todo mundo livre. Uma bandeira americana (CGI) flutua orgulhosamente no centro do pátio.

 

CORTA PARA:

 

INT. PENTÁGONO – ESCRITÓRIO DO GENERAL

 

Um GENERAL durão está sentado na ponta de uma mesa de reuniões, cercado de outros militares.

 

GENERAL
Bem, com o que nós estamos lidando, rapazes?

 

OFICIAL
Você não vai gostar

 

CORTA PARA:

 

EXT. WASHINGTON, D.C. – DIA

 

Vemos o PENTÁGONO

 

CORTA PARA:

 

INT. PENTÁGONO – ESCRITÓRIO DO GENERAL

 

OFICIAL
Senhor, temos a impressão que os terroristas estão
sendo comandados por um tipo de criminoso maluco.
Eles o chamam de O CORINGA.

 

GENERAL
O CORINGA?

 

OFICIAL
Sim, O CORINGA. Ele usa maquiagem de palhaço.

 

GENERAL
Jesus, eles estão ficando cada vez mais malucos.
É como se fosse algo vindo de uma história em
quadrinhos.

 

– pág. 2 –

 

CORTA PARA:

 

EXT. WASHINGTON, D.C. – DIA

 

Vemos o PENTÁGONO

 

CORTA PARA:

 

INT. PENTÁGONO – ESCRITÓRIO DO GENERAL

 

O GENERAL está visivelmente perturbado. Uma voz provocante pode ser ouvida fora da visão do espectador.

 

MULHER (O.S.)
Senhor, eu tenho uma idéia.

 

A câmera se movimenta e para em uma linda mulher: loira platinada com seios enormes. Ela é a mulher mais gostosa do mundo, porém ela usa óculos porque ela também é a mulher mais inteligente do mundo.

 

GENERAL
Ah é mesmo? Quem diabos é você?

 

MULHER
Meu nome é RACHEL DAWES. Eu sou uma promotora assistente
de Gotham City e estou aqui em um programa de intercâmbio
militar. Eu acho que sei de alguém que pode nos ajudar a derrotar
o CORINGA.

 

GENERAL
Sou todo ouvidos.

 

RACHEL
Bem, ele normalmente prefere trabalhar sozinho, então
precisaremos persuadi-lo. Mas, honestamente, ele é o melhor
que existe.

 

GENERAL
Ele é um militar?

 

RACHEL
Não… ele é algo diferente…

 

EXT. WASHINGTON, D.C. – DIA

 

Vemos o PENTÁGONO

 

CORTA PARA:

 

INT. BATCAVERNA – MESMO DIA

 

– pág. 3 –

 

BRUCE WAYNE está em pé em frente a um espelho, sem camisa, flexionando seu torso musculoso.

 

BRUCE
Vamos lá.

 

Ouvimos “Back In Black” do AC/DC. Uma série de cortes rápidos nos mostra que BRUCE está se preparando: calçando as botas, colocando as luvas, um relance dos belos peitorais. Finalmente, BRUCE WAYNE não está mais lá, mas BATMAN é que nós estamos vendo.

 

BATMAN
De volta ao preto.

 

Fogos de artifício voam à distância. Solo de guitarra.

 

– pág. 28 –

 

INT. BATCAVERNA

 

BRUCE está consertando o motor do Batmóvel, enquanto RACHEL observa. Faíscas do maçarico voam por todos os lados, iluminando as gotas de suor no abdômen dela.

 

RACHEL
BRUCE, você sabe que você podia ser útil a eles.
Esse homem – o CORINGA. Ele é um animal.

 

BRUCE se levanta, mas silenciosamente. Ele tenta empurrar uma peça de motor para o lugar certo, mas acaba machucando a mão.

 

RACHEL
Deixa eu tentar. Meu pai costumava consertar motores experimentais
militares no seu tempo livre. Me ensinou algumas coisinhas.

 

RACHEL se coloca por cima do capô aberto. A câmera dá um zoom no seu torso nú. Deleita-se no na sua barriga malhada. Ela sobe e desce. Lentamente… lentamente… Agora em sentido anti-horário.

 

RACHEL
Ok. Vamos ver o que eu consigo fazer.

 

Ela se debruça sobre o motor, expondo seus seios, cobertos de suor. A câmera dá zooms e volta, enfaticamente, várias vezes.

 

RACHEL
Acho que isso vai funcionar. O que você me diz Bruce?
Você pode ajudar o Exército?

 

BRUCE
(pausa)
Vamos salvar o mundo.

 

INT. BATCAVERNA

 

BRUCE, ALFRED e o GENERAL estão observando uma enorme tela de computador. Ela mostra imagens de mapas militares.

 

GENERAL
Aqui, aproximadamente 10 clicks sul-sudoeste da DMZ,
nossos DC10s descobriram um BDK com
alguns CMVs.

 

ALFRED
Então, você está querendo dizer que o CORINGA está
se escondendo aqui, no Oriente Médio?

 

GENERAL
Exatamente. Então ele recolocou os AAs em um
ângulo aberto para cobrir todo o seu redor até o PPD.

 

ALFRED
E então ele preparou um sistema online
de defesa computadorizado?

 

GENERAL
Bingo.

 

ALFRED
Então, o que podemos fazer?

 

Um forte silencio permanece enquanto eles procuram pela solução. Finalmente, o rosto de BRUCE se ilumina com partes iguais de brilhantismo e insanidade.

 

BRUCE
Nós vamos hackear a internet.

 

ALFRED
Hackear a internet?

 

BRUCE
Sim, hackear a internet.

 

GENERAL
Ninguém nunca hackeou a internet.

 

BRUCE
Bem, sempre tem a primeira vez.

 

GENERAL
Ok, eu gostei da idéia. Mas qual das internets
nós vamos hackear?

 

BRUCE
Todas elas.

 

– pág. 112 –

 

EXT. UMA RODOVIA – DIA

 

O batmóvel está correndo pela rodovia a mais de 320 quilômetros por hora, desviando do tráfego. Toda vez que o BATMAN está para colidir com um civil, a câmera entra em câmera lenta e nós o vemos desviar por um milímetro, quadro por quadro. Isso acontece dezessete vezes.

 

Quando BATMAN passa pelos carros, ele chama a atenção de um jovem passageiro em um veículo próximo.

 

MENININHO
(apontando)
Mamãe, mamãe, olha! Olha!

 

MÃE
Pare de gritar, estou tentando dirigir.

 

MENININHO
(olhando o Batmóvel)
Whoa.

 

O Batmóvel desaparece no horizonte. Finalmente, BATMAN alcança o dirigível do CORINGA.

 

CORINGA
Olá, BATMAN. Tem tempo para uma pequena…travessura?

 

CORINGA lança uma porrada de mísseis, os maiores mísseis que você jamais vai ver. BATMAN atira seus próprios mísseis e todos eles se colidem no meio da rodovia liberando uma violenta explosão e depois uma explosão dentro da explosão. Depois de tudo isso: uma última explosão, desta vez em câmera lenta, com tanques voando de dentro dela.

 

BATMAN e o CORINGA ejetam-se dos seus veículos para dentro de helicópteros. Então eles lançam mísseis ainda maiores, que passam pelos helicópteros, destruindo a rodovia abaixo. A ação ainda não terminou porque à distância ainda existem mais cinco rodovias e uma ponte.

 

Homem de Ferro

Diferente do Homem-Aranha, dos X-Men ou mesmo do Hulk, o Homem de Ferro não é um personagem que conta com tanta popularidade no universo Marvel. Sem dúvida, ele é um super-herói que as pessoas reconhecem, mesmo se não forem fãs de quadrinhos. Mas pergunte nas ruas qual é a identidade secreta por trás da armadura ou quem é seu arqui-inimigo e, provavelmente, poucos saberão responder de imediato.

 

É justamente por se tratar de um personagem com o qual o público não se importa a ponto de torcer o nariz se o tom amarelado da armadura está mais escuro ou mais claro do que na HQ, que esta primeira incursão de Tony Stark no cinema já chega às telas com uma vantagem: a de ter uma platéia não tão exigente. O que a maioria vai exigir é o básico: que o filme seja bom. E a isso Jon Favreau corresponde, e com sobra. “Homem de Ferro” é uma das melhores adaptações da Marvel até agora, ficando atrás apenas de “X-Men 2” e “Homem-Aranha 2”.

 

Foram feitas várias mudanças em relação à história original, a começar pela atualização da linha do tempo: ao invés de Stark ser capturado no Vietnã, agora ele é vítima de uma emboscada no Afeganistão. E o motivo da armadilha e quem está por trás dela também diferem bastante do que contam os quadrinhos. Mas o tema da evolução tecnológica usada a favor da fabricação de armas para a defesa nacional continua lá.

 

Felizmente, a Guerra do Iraque não vai além de uma alusão dentro do filme. Na verdade, o governo americano não chega a ser citado. O que há de crítica aqui em relação à política armamentista diz respeito a quem lucra construindo armas – no caso, a empresa do próprio Stark (cuja marca é estampada em tantos equipamentos que mais parece a Acme dos Looney Tunes). O protagonista, aliás, é um personagem conflituoso, já que, apesar de abandonar a indústria bélica, constrói sua própria arma e decide fazer justiça com as próprias mãos (ou incentiva outros a fazê-lo, como vemos em uma determinada cena).

 

Mas não espere que esse tema seja desenvolvido. É um filme blockbuster de super-herói, afinal de contas, e ele funciona muito mais por seu lado pop do que político. Isso fica ainda mais fácil quando o ator principal é um artista versátil como Robert Downey Jr., que consegue transformar a arrogância e o egocentrismo de seu personagem em puro carisma. Seu Tony Stark é quase um Bruce Wayne, só que mais cool (é notável, aliás, como Homem de Ferro e Batman compartilham várias características, inclusive na promoção, ainda que não premeditada, da escalada da violência).

 

Graças à empatia gerada por Stark, as mais de duas horas do filme passam quase despercebidas. É verdade que o plot twist acaba apressando um pouco as coisas para que o filme chegue ao confronto final (não seria um filme de super-herói sem uma grande luta no clímax, diz a fórmula). Mesmo assim, o roteiro foi bem amarrado para que o longa exista sozinho, sem a obrigação de uma continuação, ainda que saibamos que, mais cedo ou mais tarde, ela vai surgir. E já que falei na fidelidade aos quadrinhos mais acima, os fãs deverão adorar duas referências diretas (uma delas imperdível após o fim dos créditos) que indicam o rumo que a história vai seguir.

 

Aliás, quando o Homem de Ferro voltar, que seja novamente pelas mãos de Jon Favreau. Em seu quarto filme como diretor (e vigésimo como ator, já que faz uma participação como o chofer de Stark), Favreau se mostra bem mais ambicioso e talentoso do que no divertido “Um Duende em Nova York” e no irregular “Zathura” (seu longa de estréia, “Crime Desorganizado”, ainda não foi visto por este crítico). Ele se sai bem tanto em cenas grandiosas de ação quanto naquelas que são baseadas em diálogos ou humor físico (neste aspecto, muito em função da interação de Downey Jr. com um robô que funciona como alívio cômico). Favreau não chega a ser perfeccionista nos enquadramentos como um Bryan Singer, mas está anos-luz à frente de alguém como Tim Story. Ele é um diretor competente e também um apaixonado pelo material – o que resulta em uma entrega ao trabalho que normalmente gera bons resultados.

 

Esta é uma entrada muito bem-vinda no rol de filmes da Marvel (que agora é um estúdio independente, vale lembrar, com total controle criativo sobre seus projetos). Se os super-heróis se estabeleceram de vez no cinema, como os anos vêm provando, “Homem de Ferro” mostra que a fonte de boas idéias da casa ainda não está esgotada.

 

nota: 8/10 — vale o ingresso

 

Homem de Ferro (Iron Man, 2008, EUA)
direção: Jon Favreau; com: Robert Downey Jr., Terrence Howard, Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir; roteiro: Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway (baseado nos personagens criados por Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber e Jack Kirby); produção: Avi Arad, Kevin Feige; fotografia: Matthew Libatique; montagem: Dan Lebental; música: Ramin Djawadi; estúdio: Marvel Studios, Dark Blades Films, Road Rebel; distribuição: Paramount Pictures. 126 min

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