"Dia D" (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg - © Universal Pictures
"Dia D" (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg - © Universal Pictures

Em “Dia D”, Spielberg volta a olhar para as estrelas em busca do encantamento diante do extraordinário

Aviso: o texto a seguir pode conter spoilers.

Há um momento em “Dia D” (Disclosure Day) em que alguém afirma que o desconhecido não deve ser temido. A frase poderia soar ingênua em um filme de ficção científica produzido em 2026, época em que a cultura pop parece cada vez mais fascinada por distopias, colapsos e futuros sem esperança. Mas Steven Spielberg nunca foi um cineasta particularmente interessado no cinismo. Desde “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” até “E.T. – O Extraterrestre”, passando por “A.I. – Inteligência Artificial”, sua filmografia frequentemente retorna à mesma pergunta: o que acontece quando algo extraordinário atravessa a nossa realidade cotidiana? Em “Dia D”, ele volta a essa obsessão, mas agora com o olhar de um cineasta octogenário que parece menos interessado na existência de vida extraterrestre e mais naquilo que essa descoberta revelaria sobre a própria humanidade.

O filme acompanha Daniel Keller (Josh O’Connor), ex-hacker que trabalhou para a WARDEX, uma poderosa organização privada responsável por ocultar, há décadas, evidências da existência de vida fora da Terra. Quando descobre experiências cruéis realizadas contra seres extraterrestres capturados, ele se torna uma ameaça para Noah Scanlon (Colin Firth), dirigente da empresa e guardião desses segredos. Paralelamente, a meteorologista Margaret Fairchild (Emily Blunt) entra nessa conspiração que pode culminar na revelação definitiva da verdade para os oito bilhões de habitantes do planeta.

"Dia D" (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg - © Universal Pictures
“Dia D” (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg – © Universal Pictures

O roteiro de David Koepp (com quem Spielberg trabalhou em “Jurassic Park” e “Guerra dos Mundos”, entre outros), desenvolvido a partir de uma história concebida pelo próprio Spielberg, parte de elementos típicos das teorias da conspiração envolvendo OVNIs, governos secretos e tecnologias alienígenas. Mas a questão central nunca é se essas teorias são verdadeiras. O filme pergunta algo mais interessante: e se fossem? E, sobretudo, estaríamos preparados para lidar com isso?

Spielberg constrói essa reflexão sem abandonar o prazer do espetáculo. Há perseguições, dispositivos capazes de provocar telepatia e invisibilidade, agentes implacáveis e uma narrativa movida por segredos. O longa assume plenamente sua natureza de thriller de ficção científica. Ao mesmo tempo, porém, recupera uma característica cada vez mais rara nos blockbusters contemporâneos: o encantamento diante do extraordinário.

Não por acaso, Josh O’Connor surge como uma espécie de descendente espiritual de Elliott, o garoto de “E.T.”. Existe nele aquilo que poderíamos chamar de “olhar spielbergiano”: a capacidade de transmitir fascínio, medo e curiosidade diante do desconhecido. Spielberg sempre foi um cineasta fascinado pelo ato de olhar, e “Dia D” leva essa obsessão para o centro da narrativa. O olhar aparece na capacidade de Margaret de acessar pensamentos alheios, na habilidade de Noah de projetar sua consciência para outras pessoas, nos enormes olhos dos visitantes extraterrestres e, principalmente, na necessidade de reaprender a enxergar o mundo sob outra perspectiva.

"Dia D" (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg - © Universal Pictures
“Dia D” (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg – © Universal Pictures

Essa dimensão visual se manifesta desde a primeira aparição de Margaret. Em uma sequência elegante e econômica, ela apresenta a previsão do tempo na televisão local. Em seguida, descobrimos que está assistindo à própria transmissão enquanto conversa com o namorado sobre a vontade de alcançar algo maior na carreira. Em poucos minutos, Spielberg estabelece as ambições, frustrações e desejos da jovem jornalista. É uma apresentação exemplar, daquelas que lembram como grandes diretores conseguem caracterizar personagens através da encenação e não apenas dos diálogos.

Emily Blunt corresponde plenamente ao desafio. Margaret é a personagem mais interessante do filme. Enquanto Daniel assume o papel tradicional do protagonista perseguido, ela permanece imprevisível. Nem o público nem os demais personagens sabem exatamente do que ela é capaz. Seu arco reserva algumas das melhores surpresas da narrativa e a transforma em uma das personagens femininas mais marcantes da fase recente de Spielberg.

Do outro lado está Colin Firth, excelente como Noah Scanlon. Seu nome evoca inevitavelmente a figura bíblica de Noé, aquele que conduziu seres vivos à salvação durante o dilúvio. Noah também se enxerga como um salvador. A diferença é que sua ideia de salvação passa pelo controle absoluto da informação e pela concentração de poder. Spielberg o utiliza como comentário político bastante evidente sobre líderes tiranos que confundem interesses pessoais com bem comum, governando a partir de convicções particulares enquanto acreditam agir em nome da coletividade.

"Dia D" (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg - © Universal Pictures
“Dia D” (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg – © Universal Pictures

Essa dimensão política atravessa todo o filme. Há uma sequência particularmente reveladora envolvendo uma filmagem secreta do ex-presidente Richard Nixon assistindo a experimentos realizados com extraterrestres. Em outro momento, Daniel e Jane (Eve Hewson) discutem as possíveis consequências religiosas e sociais da revelação de vida inteligente fora da Terra. O debate ganha peso em um mundo marcado por guerras simultâneas e polarizações constantes. Spielberg sugere que talvez a maior ameaça não seja a existência de outras civilizações, mas nossa incapacidade de conviver com aquilo que desafia nossas certezas.

“Dia D” também funciona como uma reafirmação de um método de fazer cinema. Spielberg volta a trabalhar com parceiros históricos como o diretor de fotografia Janusz Kamiński, a montadora Sarah Broshar e, claro, o compositor John Williams. É como se chamasse os amigos para uma festa e se divertisse à beça. Afinal, ele demonstra prazer em encenar. Os movimentos de câmera são fluidos, a construção espacial das cenas é primorosa e a ação possui uma legibilidade cada vez mais rara. Uma sequência de perseguição envolvendo Daniel e Margaret a bordo de um trem é suficiente para lembrar que o mestre continua sabendo exatamente como provocar suspense. O tubarão ainda funciona!

Também chama atenção a moderação no uso dos efeitos visuais. Em vez de transformar cada cena em uma demonstração tecnológica, Spielberg prefere soluções simples, efeitos práticos e escolhas de montagem que valorizam o mistério. Muitas vezes um campo e contracampo produz mais impacto do que uma explosão digital de pixels.

"Dia D" (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg - © Universal Pictures
“Dia D” (Disclosure Day, 2026), de Steven Spielberg – © Universal Pictures

Talvez por isso a mensagem final do filme seja tão desarmante. Os visitantes extraterrestres concluem que a próxima etapa da evolução humana não é tecnológica, mas emocional: a empatia. É uma ideia simples, quase infantil em sua sinceridade. E justamente por isso adquire força. Em uma sociedade moldada pela competição, pelo lucro e pela disputa permanente por poder, Spielberg ousa defender que compreender o outro continua sendo a forma mais avançada de inteligência.

Há, contudo, uma contradição difícil de ignorar, mesmo levando em conta que se trata de um blockbuster hollywoodiano destinado ao grande público. O filme insiste que Daniel e Margaret são os representantes da humanidade capazes de conduzir o planeta ao “dia D” do título. Ambos são estadunidenses, heterossexuais e inseridos em uma visão bastante específica do mundo. Para uma obra que propõe ampliar nossa percepção do universo e aceitar a diversidade da vida em todas as suas formas, essa centralidade soa limitada. É como se o filme reconhecesse a existência de infinitas possibilidades além da Terra, mas permanecesse preso a uma representação bastante conservadora da experiência humana. Afinal, se não estamos sozinhos no universo, tampouco estamos isolados dentro do nosso próprio planeta.

Ainda assim, o saldo é amplamente positivo. “Dia D” não é apenas um retorno de Spielberg à ficção científica. É uma defesa apaixonada da capacidade do cinema de despertar curiosidade, encantamento e esperança. Talvez não estejamos mais no Kansas, para lembrar a referência a “O Mágico de Oz” na escolha da cidade onde parte importante da narrativa se passa. Mas Spielberg continua acreditando que existe algo valioso do outro lado da estrada de tijolos amarelos: a possibilidade de enxergar o mundo — e uns aos outros — de maneira diferente. ■

Nota:

Onde ver "Dia D" no streaming: