"A Revolução dos Bichos" (Animal Farm, 2025), de Andy Serkis - Divulgação
"A Revolução dos Bichos" (Animal Farm, 2025), de Andy Serkis - Divulgação

“A Revolução dos Bichos”: o contraste entre a promessa de liberdade e a realidade do poder

“Nós, gatos, já nascemos pobres, porém, já nascemos livres”.

Nara Leão e os Saltimbancos, em 1977, apresentaram ao mundo esta música, muito famosa e cantada pelo público infantil até os dias de hoje. O trecho, conhecido por integrar a trilha sonora da aclamada peça de teatro traduzida e adaptada por Chico Buarque, traz um contraste importante, no qual os gatos não têm riqueza ou status social, mas também não aceitam viver submissos. Na letra, a liberdade aparece como uma característica natural e impossível de controlar.

Mas, afinal, o que é liberdade? De acordo com o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, trata-se da faculdade de agir, pensar e fazer escolhas de acordo com a própria vontade e consciência. Há também a definição do Google Tradutor: “liberdade, libertação, independência, imunidade, desobrigação, regalia”.

Segundo esses conceitos e levando em consideração a música da década de 1970, o termo significa algo pelo qual vale a pena lutar para conquistar, sendo um ponto importante para a construção da própria individualidade. Assim também pensavam alguns animais presentes na “Fazenda dos Bichos”, apresentados no filme deste ano, “A Revolução dos Bichos”.

A animação, inspirada no livro homônimo de George Orwell lançado em 1945, tem sua história ambientada em uma fazenda onde um movimento em busca da igualdade é planejado pelos animais que ali habitam. A narrativa mostra um processo de revolução e poder no qual, sob o comando dos porcos, o local perde parte de sua vitalidade. Ao entrarem em uma ditadura implacável, os animais se reúnem para lutar pelos próprios direitos.

Os primeiros minutos do filme mesclam alegria, tensão e euforia. Essa mistura é crucial para que quem está assistindo já se identifique e compre a narrativa daqueles personagens ali apresentados. Logo no início da história, os animais estão felizes por acreditarem que estão tirando férias após um longo período de trabalho árduo; porém, quando entendem que, na verdade, estavam sendo levados para um matadouro, eles se desesperam. E é aí que começa a base da crítica social dessa narrativa. Geralmente, ao notar que há pessoas (neste caso, animais) em desespero, o que surge imediatamente na sociedade? Um líder querendo guiar o povo para um caminho que ele julga ser melhor para todos.

Bola de Neve (com a voz de Laverne Cox) é o nome ideal para se tornar esse salvador: é o animal mais intelectual da fazenda, sabe ler e escrever, e é quem ensina aos bichos à sua volta tudo o que sabe. Ao perceber o alvoroço e o medo ao seu redor, a porca enxerga uma oportunidade de liderar aquele bando. Seu método é conhecido: frases motivadoras, palavras de ordem e discursos sobre liberdade. Em meio ao caos desse cenário, os animais compram a mensagem da fêmea e começam a entoar frases ditas por ela, iniciando uma revolução na fazenda. “Viva À Liberdade” é a principal expressão abordada pelo grupo, que nem sequer sabia o que significava a palavra. Porém, eles acreditaram naquela líder que julgaram experiente e, assim, deram a ela o poder e o controle da situação.

Bola de Neve, como a maioria dos personagens do filme, é uma figura muito interessante. Apesar de parecer que claramente representaria o “lado correto”, que só quer o bem de todos, não é bem isso que acontece. Ao mesmo tempo que a porca quer guiar os bichos para viverem uma vida melhor, ela os subestima, considera-os burros e, por isso, acha que tem o direito de decidir o que é melhor para eles sem sequer ouvi-los. Além disso, ela implanta a ideia de todos viverem livres, mas é a primeira a ditar diversas regras para aquela comunidade, gerando uma grande contradição em seu discurso.

"A Revolução dos Bichos" (Animal Farm, 2025), de Andy Serkis - Divulgação
“A Revolução dos Bichos” (Animal Farm, 2025), de Andy Serkis – Divulgação

Ainda sobre nomes interessantes na trama, a inserção de Sortudo (Gaten Matarazzo) foi um grande acerto. O personagem não existe no livro de George Orwell, mas aqui ele é o protagonista da história. O porquinho foi criado para a animação deste ano com o intuito de adicionar um tom lúdico à narrativa, além de aproximar o público infantil da obra, sendo um bicho esperançoso, ingênuo e fofinho. Sortudo também é o responsável pela parte dramática do filme. Além de sua crença nas promessas de Napoleão (Seth Rogen), guiada por sua carência, a relação dele com Sansão (Woody Harrelson) é extremamente bela e sensível, sendo o ponto mais “humano” da narrativa e emocionando quem assiste.

A dupla de vilões Napoleão e Freida Pilkington (Glenn Close) traz uma relação diferente e única, pois o porco sabe que a humana não é sua parceira nem tem algum respeito por ele; por outro lado, ela subestima o animal constantemente. Mesmo assim, eles escolhem se unir em prol de vantagens individuais. Trata-se de um acordo silencioso no qual ambos são repugnantes e só pensam em si mesmos.

Os personagens são a força do filme porque são os responsáveis por dar voz ao marcante texto da obra, que é o principal elemento da história. A direção de Andy Serkis é linear e apresenta uma narrativa coesa, mas o que dá estrutura para todo o enredo são os diálogos inspirados no livro de 1945. “Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”, “Você é um animal ou um porco?” e “Tudo o que anda sobre duas pernas é inimigo” são algumas das frases que direcionam o longa, que acerta ao ser fiel à ideia política original da história. E é basicamente isso que o filme tem de mais interessante.

O visual, a trilha sonora e os demais elementos gráficos não trazem nada de novo nem despertam grande apreço. É algo simples, que não gera nenhum encantamento. Inclusive, deixando de lado a importância do texto e o contexto político, a animação não tem nada de mais, e o ato final mostra isso: foi uma sequência corrida, que não se preocupou em explicar direito o plano dos animais para tirar Napoleão do poder ou sequer se importou com a quantidade de acontecimentos em tela, deixando tudo muito confuso. A briga principal do protagonista, onde ele teria que mostrar sua potência, foi boba, com um diálogo muito básico que não condiz com o restante do longa. O encerramento de “A Revolução Dos Bichos” é fraco e apressado, especialmente para uma narrativa que vinha construindo bem o seu enredo. A resolução acontece de forma corrida, sem o impacto necessário para concluir a trajetória dos personagens, principalmente do protagonista e do vilão.

Ainda assim, o longa permanece relevante porque seu texto é forte o suficiente para sobreviver às falhas técnicas da produção. Mesmo sem entregar uma animação memorável visualmente, o filme funciona como uma reflexão sobre manipulação, autoritarismo e comportamento coletivo. É quase impossível terminar de assistir ao longa sem associar os acontecimentos da fazenda às estruturas de poder presentes na sociedade atual, o que prova que, mesmo após décadas, a obra de George Orwell continua atual (infelizmente). ■

Nota:

Onde ver "A Revolução dos Bichos" no streaming: