Xica da Silva conquista o poder justamente porque entende melhor do que ninguém como o poder funciona. Sem dinheiro, sem posição social e sem qualquer direito garantido por uma sociedade escravocrata, ela transforma em armas aquilo que lhe resta: a inteligência, o carisma e a sensualidade. É assim que a personagem vivida por Zezé Motta manipula homens que jamais admitiriam estar sendo conduzidos por uma mulher negra e ex-escravizada. Enquanto a tratam como alguém inconsequente ou “aluada”, eles próprios se tornam peças do jogo que ela controla.
Lançado originalmente em 1976 e agora relançado em versão restaurada em 4K, quando completa 50 anos, “Xica da Silva” permanece como um dos filmes mais emblemáticos da carreira de Cacá Diegues (“Bye Bye Brasil”, “Um Trem para as Estrelas”, “Deus é Brasileiro”) e um marco da representação negra no cinema brasileiro. Mas a importância histórica da obra não está apenas em colocar uma mulher negra no centro absoluto da narrativa. Está, sobretudo, em fazer dela uma personagem que desafia leituras fáceis.

Talvez o aspecto mais provocador e desafiador do filme esteja justamente na forma como Xica exerce o poder depois de conquistá-lo. Sua ascensão social representa uma ruptura numa sociedade rigidamente hierarquizada, mas não significa uma transformação da estrutura que a oprime. Depois de alforriada e enriquecida ao lado do contratador de diamantes João Fernandes (Walmor Chagas, de “São Paulo Sociedade Anônima”), ela mantém outros negros como seus servos. Há fartura, festas e conforto em sua casa, mas a mudança de posição de Xica não implica, necessariamente, uma mudança nas relações de poder.
Essa ambiguidade é um aspecto para debate que ressoa ainda hoje e impede que Xica seja reduzida à condição de heroína. Mais que uma personagem complexa, ela é uma sobrevivente que aprende a usar o sistema em benefício próprio, sem necessariamente almejar destruí-lo. Diegues parece menos interessado em contar uma história de emancipação do que em refletir sobre como as estruturas de poder sobrevivem mesmo quando seus ocupantes mudam. A recusa em idealizar sua protagonista mantém o frescor do filme passado meio século.
Aliás, uma das imagens mais memoráveis do filme ainda sustenta sua síntese muito bem: o mar construído para Xica em pleno interior de Minas Gerais. O gesto extravagante de João Fernandes realiza um desejo impossível, mas também revela uma fantasia compartilhada pelos dois personagens. Cercados de luxo, eles se imaginam soberanos daquele universo, ignorando que toda aquela riqueza continua subordinada à vontade da Coroa Portuguesa. Enquanto brincam de realeza, permanecem presos a uma estrutura política muito maior do que eles. Não por acaso, quando o poder metropolitano decide agir, João Fernandes perde praticamente tudo. Xica, por sua vez, conserva aquilo que sempre foi sua verdadeira força: a capacidade de se reinventar.

Realizado durante a ditadura militar, “Xica da Silva” também dialoga com outro fenômeno marcante daquele período: o sucesso das pornochanchadas. Diegues absorve parte desse imaginário popular, mas o faz de maneira bastante particular. O humor sexual nasce muito mais da sugestão do que da exposição. A recorrente piada sobre a misteriosa “coisinha” que Xica faz durante as relações sexuais nunca é mostrada. O diretor aposta no extra-campo e permite que a imaginação do espectador complete aquilo que permanece invisível.
Por outro lado, o filme não evita mostrar a brutalidade da escravidão. Torturas, castigos e humilhações aparecem de maneira frontal. Se essas imagens durante muito tempo foram tratadas como representações quase obrigatórias do período colonial no audiovisual brasileiro, hoje elas produzem outro tipo de desconforto, porque a nossa maneira de olhar para essas encenações mudou.
E não há como desviar os olhos também do excelente trabalho de direção de arte. Os figurinos exuberantes, os cenários luxuosos e a ostentação crescente não funcionam apenas como demonstração de riqueza. Eles transformam o poder em espetáculo. O excesso é uma forma de afirmação social, mas também evidencia o caráter artificial daquela posição conquistada por Xica. Quanto maior o luxo, mais evidente parece sua condição de fantasia.

Cinco décadas depois, “Xica da Silva” não oferece respostas confortáveis. Tal qual sua música-tema, na voz de Jorge Ben Jor, resiste com facilidade ao teste do tempo como um clássico da MPB, o filme ainda fala de prontidão sobre poder, raça, desejo, liberdade e as contradições da formação do Brasil. E, claro, continua sendo uma obra fundamental para entender a importância de Zezé Motta no cinema brasileiro. A ela, a nossa eterna reverência.
Onde ver "Xica da Silva" no streaming:

Editor-chefe do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro nas edições de 2024 a 2026.

