“Akira” (1988), de Katsuhiro Otomo - Foto: Divulgação
“Akira” (1988), de Katsuhiro Otomo - Foto: Divulgação

“Akira”: O futuro é brutal

O ano de 1988 pode ser considerado, sem sombra de dúvidas, um marco no cinema de animação japonês. No dia 16 de abril, os Estúdios Ghibli lançaram “Meu Amigo Totoro”, dirigido por Hayao Miyazaki, e “Túmulo dos Vagalumes”, de Isao Takahata. Exatamente três meses depois, chegava aos cinemas “Akira”, realizado por Katsuhiro Otomo e baseado no mangá homônimo do mesmo autor. Apesar de sua alta qualidade e forte influência nas animações que viriam depois, o filme de Miyazaki se inseriu dentro de uma longa tradição de obras animadas com apelo mais direcionado ao público infantil. Os outros dois longas-metragens lançados no mesmo ano, por outro lado, apontavam para um outro caminho, mais adulto e sombrio, que o próprio Miyazaki já havia trilhado anos antes, com o incrível “Nausicaä do Vale do Vento” (1984).

“Túmulo dos Vagalumes” acompanha dois jovens irmãos que tentam sobreviver no Japão devastado em meio aos meses finais da Segunda Guerra Mundial. A história se desenvolve como um drama tradicional, investindo no naturalismo imagético e no realismo temático. Vemos poucas e pontuais imagens realmente explícitas da violência, e a grande carga emocional do filme fica concentrada no peso das próprias situações de privação material e falta de assistência às quais os protagonistas são submetidos. “Akira”, na direção oposta, inova mais ainda ao se valer da animação para narrar uma trama complexa, ostensivamente uma ficção científica, na qual a violência gráfica e os momentos visualmente perturbadores ganham protagonismo. O filme é, nesse sentido, o auge de uma série de obras que, desde os anos 1960, deixavam claro que a animação podia definitivamente não ser coisa de criança.

O longa se passa no ano de 2019, quando a capital japonesa foi substituída pela cidade de Neo-Tóquio, após uma enorme explosão – provocada pelas próprias autoridades do Estado como forma de conter um experimento mal-sucedido – dar início à Terceira Guerra Mundial. Logo no início, o motoqueiro Tetsuo (Nozomu Sasaki) é sequestrado por forças governamentais e se torna mais uma das cobaias de testes secretos cujo resultado é um grupo de crianças com habilidades telecinéticas. Quando Tetsuo se torna o mais poderoso e perigoso desses experimentos, seu amigo de infância Kaneda (Mitsuo Iwata)  tenta resgatá-lo e ao mesmo tempo impedir que tudo a seu redor seja destruído. A partir dessa descrição do enredo, é possível compreender melhor a dimensão da influência que “Akira” teve e tem tido no cinema, na televisão e na cultura popular de uma forma geral. Toda a trama-base de “Stranger Things” (2016-) e cenas de filmes como “Nós” (2019) – o doppelgänger de Jason em meio ao fogo – e “Não! Não Olhe” (2022) – a moto derrapando –, de Jordan Peele, ou “A Substância” (2023) – o monstro final –, de Coralie Fargeat, seguramente não existiriam da forma que os conhecemos se não fosse pela obra de Katsuhiro Otomo.

Para além do quão referenciado o filme é, impressiona também a ambição bem-sucedida de “Akira”. O tema recorrente da Ciência não sabendo lidar com suas próprias criações é elevado à máxima potência, graças em grande medida à liberdade visual proporcionada pela animação. Enquanto Tetsuo ainda está no laboratório, por exemplo, vemos os pesadelos que acometem o personagem, fruto tanto da tecnologia obscura à qual ele tem sido exposto quanto da indução dos outros paranormais. Em um deles, ele desmorona como se fosse feito de concreto, tal qual a cidade em colapso a seu redor, ressaltando o caráter expressionista da paisagem, que revela o estado interior dos personagens. Em outro, os brinquedos no quarto começam a ganhar vida, dando início a um trecho digno de filme de terror, com diversos elementos do cinema surrealista e uma exploração magnífica da liberdade formal intrínseca à animação. Em ambos os sonhos, temos alguns vislumbres do passado de Tetsuo, uma criança órfã, e de como sua relação com Kaneda sempre foi marcada ora pela necessidade de proteção, ora pelo ímpeto de auto-afirmação.

Algo notável no filme é, aliás, como as informações vão sendo dadas de forma lenta, à medida que a própria ação progride, de modo que os primeiros momentos do longa-metragem ainda parecem um pouco confusos até que o espectador comece a compreender o que de fato está se passando. Por exemplo, só aos 17 minutos de filme, na delegacia, começamos a ter algumas explicações sobre os acontecimentos que estávamos vendo nas ruas da cidade, com as gangues de motoqueiros rivais. A primeira explicação sobre quem ou o que é o nome que intitula o filme só vem após mais de 1 hora: “Akira” seria a energia suprema acumulada durante milhares de anos de evolução. Logo depois, descobrimos que “Akira” representa, para a população de Neo-Tóquio, uma espécie de Messias. Apenas no final veremos “Akira”, e ficará claro que ele foi a primeira vítima dos experimentos governamentais.

Também nesse desfecho, Tetsuo se torna parte homem, parte máquina após perder um dos braços e atrair fios e estruturas metálicas para o lugar do membro perdido – em um dos instantes mais interessantes da animação, tanto pela fluidez do movimento quanto pela força imagética do corpo final híbrido do personagem. Logo depois, porém,uma sequência de mutações transforma o protagonista em uma criatura cada vez mais gigantesca e monstruosa, quando o horror corporal do filme atinge seu ápice. “Akira” tem imagens de violência perturbadoras, representando mortes, ferimentos e lutas da maneira mais explícita possível para uma animação, o que ajuda a tornar o filme mais visceral e distópico.

Katsuhiro Otomo, no fim das contas, nos traz uma visão pessimista do que vem pela frente. As enérgicas inserções do que parece ser um órgão na trilha grave e épica e os rumos cada vez mais sombrios que o enredo toma são apenas algumas das muitas manifestações desse vislumbre nada auspicioso. Embora o filme nos ofereça uma poderosa catarse a partir de cores, formas e movimentos desenhados com precisão à mão, em momento algum “Akira” soa farsesco ou irreal. E esta talvez seja a principal razão para sua atemporalidade: dentro e fora da tela, em maior ou menor grau, para onde quer que olhemos, o futuro continua sendo, como décadas atrás, brutal.

BIBLIOGRAFIA

CARLIN, M. The Future Is Now: “Akira” at Thirty. Notebook – Mubi, Londres, 19 ago. 2018. Disponível em: <https://mubi.com/pt/notebook/posts/the-future-is-now-akira-at-thirty>. Acesso em: 20 jan. 2025.

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