Não sei se é a realidade em outros países, mas a busca pela pessoa amada no Brasil é algo real, e essa procura incessante movimenta mercados informais diariamente. De acordo com uma reportagem com um pai de santo que faz leitura de búzios há mais de uma década, a busca pelo serviço aumenta 15% perto do Dia dos Namorados, sendo que 70% das consultas são sobre assuntos amorosos.
Lorrane Helena, taróloga que mora em Duque de Caxias (RJ), afirma que a procura por orientações ligadas à vida afetiva continua sendo uma das mais frequentes. Segundo ela, “as pessoas tendem a buscar a outra metade utilizando o tarot”. De acordo com Lorrane, há também quem busque no tarot dicas de autoconhecimento como bússola para entender melhor suas questões no campo amoroso.
Diante desse cenário tão rico e conhecido popularmente, a diretora Cláudia Castro (“Ela Disse, Ele Disse”) teve um prato cheio para criar um longa que trouxesse esse comportamento dos brasileiros em relação ao amor para as telas. E ela teve êxito na criação, a começar pelo nome do filme.
“Trago Seu Amor” é uma comédia romântica com toques de fantasia que tem como protagonista Mia (Giovanna Grigio), uma bruxa egocêntrica que possui um poder inusitado: quem a beija se apaixona por ela ou volta a se apaixonar pela última pessoa que amou. Em uma de suas atividades, a jovem se depara com Yuri (João Manoel), que está desiludido após o término com René (Jê Soares). Porém, quando a bruxa o convence a conhecer seus trabalhos, o inusitado acontece: ela se apaixona pela ex-namorada do rapaz.
A protagonista é adorável de uma forma única. Dona de uma personalidade forte e de muito carisma, Mia não é a mocinha frágil geralmente presente nas comédias românticas. A personagem é cheia de certezas (até a página 2) e exala segurança por onde passa. Essa autoconfiança não afasta quem a assiste, mas torna a trama mais interessante e consistente. Além disso, a narrativa se torna ainda mais atrativa quando a jovem se apaixona pela primeira vez, deixando toda a sua estabilidade emocional para trás.
“A paixão combina com nosso ritmo frenético e ensimesmado de vida, porque é também frenética e narcísica. É frio na barriga, é borboleta no estômago, é vida com cores e purpurina.” Essas palavras escolhidas por Ana Suy no livro “A Gente Mira no Amor e Acerta na Solidão” definem de forma assertiva o que vemos em tela quando Mia se envolve com René. A bruxa se desmonta, desacelera e acredita até estar passando mal, pois não conhece as sensações presentes dentro de si.
Essa vulnerabilidade e esse desconhecimento nos aproximam ainda mais da protagonista, mesmo quando ela tenta esconder o sentimento. É agradável ver o desenvolvimento (mesmo que modesto) de Mia em relação ao amor, tema tão presente em sua vida profissional, mas distante de seu dia a dia pessoal.
René parece estar bem mais preparada quando o assunto é relacionamento afetivo do que Mia. No primeiro momento, a impressão que fica é de que ela é mais experiente em tudo o que envolve o tema: sedução, encontros, flertes… pontos que domina mais com o coração do que com a razão, ao contrário da amada. Com o desenrolar do enredo, vemos também a sensibilidade e a fragilidade da moça, característica que enriquece a relação das jovens.

O elenco principal é reduzido, mas os atores escolhidos conseguem dar vida a personagens bem interessantes. Além do casal principal, há Ariel (Diego Martins), melhor amigo de Mia. Famoso por interpretar papéis carismáticos e engraçados na TV, Diego traz para o cinema um jovem que, além de ser o alívio cômico, é também sensível, perspicaz e possui um background enorme a ser explorado (pena que o roteiro opte por não desenvolvê-lo).
A falta de aprofundamento de alguns personagens e tramas pode ser justificada pelo curto tempo de duração do longa: são apenas 77 minutos. Além da baixa densidade em temas apenas pincelados pelo enredo, a narrativa é apressada e toda a história parece acontecer em poucos dias.
Mas é aí que está a melhor parte do roteiro escrito por Letícia Fudissaku: essa intensidade e essa pressa nos acontecimentos se justificam pelo tema central da trama: a paixão. Os sentimentos à flor da pele e os diálogos rápidos e carregados de emoção são a maneira de mostrar em cena o que é a paixão, em vez de apenas falar sobre ela. Uma ótima sacada.
“Trago Seu Amor” é um filme simples. Curta duração, personagens pouco complexos (por escolha do roteiro, pois daria para desenvolvê-los muito mais) e texto sem grande profundidade. Nada disso é um problema, pois a direção conseguiu trabalhar o tema central do filme de forma satisfatória e trouxe para as telas um toque de humor ideal, uma trilha sonora convidativa e uma trama interessante. Falar sobre pessoas reais que têm “superpoderes” e os usam no cotidiano é atrativo o suficiente para prender a atenção de quem assiste.
O longa aposta no carisma de seus personagens, em situações engraçadas e em uma leitura afetuosa sobre as confusões da paixão. O resultado é um filme leve, divertido e sincero, que encontra força justamente na simplicidade. ■
Onde ver "Trago Seu Amor" no streaming:

Jornalista e crítica de cinema, sempre que pode está falando de filmes de heróis, animações, comédias românticas ou blockbusters. O jornalismo esportivo foi sua grande paixão durante a graduação. Há pouco, descobriu que o que gosta mesmo é de falar sobre produções audiovisuais, sejam elas filmes que concorrem ao Oscar ou um bom título do Darren Star. Atualmente também trabalha como produtora de TV na Rede Minas.

