Memória e lembrança não são palavras com conceitos iguais, embora muita gente acredite nisso. Memória é o nome que se dá à capacidade biológica e estrutural que o cérebro tem de reter e guardar informações. Já a lembrança trata-se do ato psicológico de resgatar e reconstruir esse conteúdo armazenado no presente. De modo geral, gosto de pensar que o primeiro substantivo é algo técnico e o segundo está mais relacionado a emoções. Mas, mesmo que sejam palavras distintas, ambas estão sendo apresentadas de uma forma fascinante no novo filme da DreamWorks.
“A Ilha Esquecida” acompanha Jo (H.E.R.) e Raissa (Liza Soberano), duas melhores amigas de infância que prometem permanecer juntas para sempre. Recém-formadas no ensino médio, as duas agora seguirão caminhos distintos, com uma das garotas prestes a se mudar do país. Enquanto celebram sua última noite juntas, elas acabam encontrando um portal misterioso que as transporta para a fantástica Ilha de Nakali, lugar místico que aprenderam a amar desde quando eram crianças, por meio das histórias contadas pela avó de Jo, Lola (Dolly de Leon).
Já faz um bom tempo que a DreamWorks vem fazendo um ótimo trabalho visual em seus filmes. Recentemente, longas como “Robô Selvagem” (2024) e “Os Caras Malvados 2” (2025) comprovam esse traço marcante do estúdio, e “A Ilha Esquecida” não fica para trás. O visual da animação é lindo e atrativo, com cores vibrantes e traços marcantes. Porém, ao mesmo tempo que a fotografia do longa é um ponto favorável, o apelo visual exagerado se torna um problema, ainda que pequeno.
Como acontece em diversos filmes atualmente, aqui o estímulo visual é muito forte. A todo momento acontece alguma coisa: seja uma explosão, um barulho muito alto ou o aparecimento de um personagem colorido ao extremo, com gráficos chamativos. Entendo que, para segurar a atenção do público, especialmente o infantojuvenil, às vezes seja necessário recorrer a essas estratégias; mas, nesse caso, já na metade do filme o excesso começa a incomodar, e o que antes deveria prender o espectador causa um certo estranhamento.
Mas isso não é, nem de longe, um grande problema a ponto de tornar o longa ruim — mesmo porque “A Ilha Esquecida” tem muito mais elementos positivos do que apenas um bom acabamento gráfico.
A obra traz de volta a dupla Januel Mercado e Joel Crawford (indicados ao Oscar de Melhor Animação em 2023 por “Gato de Botas 2: O Último Pedido”), que, além de dirigir o filme, também assina o roteiro. O texto tem dois grandes destaques: os personagens e a delicadeza da narrativa.
Todos os personagens são descolados e carismáticos — desde a avó de Jo, que tem pouco tempo de tela, até um tritão vaidoso que está sempre se gabando de alguma história. Eles têm um design cativante, cheio de personalidade. A dupla de amigas é fascinante, e as aventuras que enfrentam são tão intensas e empolgantes que dá vontade de participar de todas as acrobacias, corridas e perigos.
O contraponto também funciona muito bem: as vilãs são encantadoramente assustadoras. Com diálogos profundos e backgrounds potentes, são figuras bem construídas e adicionadas à narrativa de maneira aterrorizante, mas sem causar repulsa. São personagens que enchem a tela e prendem a atenção pela imagem e por todo o contexto que trazem para a história.
E o texto em si é lindo. Há misticismo, emoção, pureza, amizade, conflitos, história familiar, dilemas típicos da adolescência, sensibilidade, confiança, medo… E tudo isso é apresentado de forma homogênea, dando sentido a toda a obra, do início ao fim, sem se perder no meio da narrativa. Januel Mercado e Joel Crawford acertaram novamente, entregando um longa cheio de fantasia, visual envolvente, diversão e, principal de tudo, muito coração e sensibilidade.
“A Ilha Esquecida” é um filme mágico, mas com um fio condutor real, consistente e emocionante: as lembranças, que são o lugar para onde todo mundo sempre volta. ■
Onde ver "A Ilha Esquecida" no streaming:

Jornalista e crítica de cinema, sempre que pode está falando de filmes de heróis, animações, comédias românticas ou blockbusters. O jornalismo esportivo foi sua grande paixão durante a graduação. Há pouco, descobriu que o que gosta mesmo é de falar sobre produções audiovisuais, sejam elas filmes que concorrem ao Oscar ou um bom título do Darren Star. Atualmente também trabalha como produtora de TV na Rede Minas.

