Os inimigos do Batman têm várias características em comum. Psicopatia, perversão, ódio e busca por vingança são algumas delas, mas a principal semelhança é ter Gotham presente em suas vidas. A cidade se estabelece como uma personagem onipresente, que inicialmente os acolhe como meros moradores, mas, em determinado momento, os envolve em seu terror e sua sombra, dilacerando-os psicologicamente. Foi assim nas produções audiovisuais do Pinguim, do Charada e do Coringa, e continua sendo aqui, em “Cara-de-Barro”.
O longa, que marca a primeira aparição em live-action do vilão, acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um garoto de rua de Gotham que conquista uma ascensão meteórica em Hollywood, mas tem sua trajetória como ator interrompida ao ser gravemente desfigurado por um chefe do crime local. Desesperado para recuperar a aparência, ele recorre a um tratamento experimental que restaura seu rosto, mas desencadeia uma transformação monstruosa, levando-o a perder a própria identidade.
Mais uma vez, a cidade mais famosa do universo dos quadrinhos é apresentada quase como uma protagonista, costurando toda a narrativa do filme. Mas o roteiro assinado por Mike Flanagan e Hossein Amini começa de forma genial ao afastar a história de qualquer elemento que remeta diretamente a Gotham, sem, no entanto, torná-la menos presente. Há luz, beleza, brilho, risadas e jovens elegantes, cheios de vida, exatamente como se espera de Hollywood. Não por acaso, esse cenário acompanha Hagen nos momentos em que ele se encontra emocionalmente estável e realizado — uma escolha narrativa bastante acertada.
Mas todo esse glamour não dura muito. Assim que o belo homem tem seu rosto desfigurado como punição por ter se envolvido com a namorada do criminoso Markos Szabo (David Dencik), toda a atmosfera densa, sombria e medonha de Gotham passa a se fazer presente. É a partir daí que nasce mais um vilão “filho da cidade”, que tem sua vida tomada e destruída por aquele lugar.
Contudo, até o terceiro ato do filme, fica uma pergunta no ar: Matt Hagen realmente é um vilão? A narrativa mostra apenas um personagem tentando se reerguer após ser vítima de um crime brutal, ver seus aliados o traindo, perder toda a sua fortuna e se encontrar em um estado estético deplorável. Essa face de mocinho ganha ainda mais força quando o protagonista passa a dividir a tela com Caitlin Bates (Naomi Ackie), a cientista que o ajuda a recuperar sua aparência.
Criada originalmente para o filme, sem ser baseada em nenhum personagem dos quadrinhos, Caitlin é bela e doce, características que contrastam com a personalidade abalada de Hagen naquele momento de sua vida. A partir daí, acompanhamos o tratamento e torcemos para que o procedimento seja bem-sucedido e tudo possa voltar ao normal.
E o mérito desse convencimento de bom moço não é apenas do texto. Tom Rhys Harries está muito bem na pele do protagonista, usando todo o seu carisma tanto quando interpreta um galã de Hollywood apaixonado pela fama quanto quando atua como um homem melancólico, que perdeu tudo.
Já o antagonista, interpretado por David Dencik, deixa a desejar. A atuação não é ruim, mas parece simples demais para um chefe do crime em Gotham. É verdade que o personagem demonstra ser capaz de cometer atos horripilantes, mas essa maldade não salta de seus olhos. Quando ele comete o crime, compreendemos toda a sua crueldade, mas falta aquela aura sombria que deveria acompanhá-lo e causar arrepios sempre que entra em cena.
Em meio a boas atuações, “Cara-de-Barro” se desenvolve muito bem. O ritmo do longa é linear e, mesmo sem ser extenso, segue sem pressa, com a calma necessária para construir uma atmosfera tensa, digna de um bom filme de terror. A maneira como as mortes acontecem é interessante, fugindo dos clichês, e tudo é visceral. A direção de James Watkins (“Não Fale o Mal”, “A Mulher de Preto”) não tem medo de apostar em cenas repulsivas, com muito sangue, deformações, pele exposta e outros elementos repugnantes.
Apesar de toda essa aparência, o longa não se resume a isso. Há tensão, ansiedade e inquietude. A mistura de horror e suspense não se concentra apenas no impacto visual, mas também flerta com o terror psicológico, colocando o público diante de uma dúvida constante: as ações do protagonista são realmente vilanescas? Afinal, ele é ou não o vilão da trama? Essa ambiguidade se manifesta com força na sequência final, que apresenta a resolução dos conflitos acumulados por Hagen ao longo da narrativa.
“Cara-de-Barro” pode ou não estar conectado a outros títulos do Universo Cinematográfico da DC no futuro, mas o que importa é que funciona muito bem por conta própria. O longa apresenta um personagem intrigante, com ações apavorantes e um background completo, que transmite uma dualidade interessante e convidativa. É um filme que conta com Gotham e permanece ligado a ela até o fim, extraindo da cidade aquilo que ela tem de melhor a oferecer: o medo. ■
Onde ver "Cara-de-Barro" no streaming:

Jornalista e crítica de cinema, sempre que pode está falando de filmes de heróis, animações, comédias românticas ou blockbusters. O jornalismo esportivo foi sua grande paixão durante a graduação. Há pouco, descobriu que o que gosta mesmo é de falar sobre produções audiovisuais, sejam elas filmes que concorrem ao Oscar ou um bom título do Darren Star. Atualmente também trabalha como produtora de TV na Rede Minas.

