A relação com as imagens diante do clássico “A Malvada” (1950)

“A Malvada” (1950), dirigido por Joseph L. Mankiewicz, é um dos maiores clássicos do cinema hollywoodiano, ganhador de seis Oscars. A história é sobre uma aspirante a atriz, Eve Harrington (Anne Baxter), que se aproxima da grande estrela de teatro Margo Channing (Bette Davis) para ganhar sua confiança e usá-la como escada para a entrada no show business. A narrativa se desenvolve em um longo flashback em que há mais de um ponto de vista apresentados por narrações. Tal proposta, muito inspirada no trabalho do cineasta Orson Welles, foi bastante moderna para a época, embora todo o filme seja construído com base na linguagem clássica e não traga a dimensão de “mau lugar do espectador”, segundo o teórico Jean-Louis Comolli, por não romper com a ideia do ilusionismo e passividade de quem assiste.

O teatro no filme serve como espaço simbólico que abriga o entrelaçamento de ações ou o “fato dramático”, que se constitui pelas relações entre artistas, produtores e empregados, especialmente relações de poder e interesse, quase todas permeadas pela farsa, pelas máscaras.  Em seus bastidores, as verdadeiras faces de cada personagem são reveladas aos poucos, o que desperta ainda mais o interesse pela história. Aliado a isso está a presença constante de portas que se abrem e fecham para revelar ou esconder ações e intenções, o que convoca o espectador e a espectadora como voyeurs.

Da linguagem clássica, especificamente, tal como comenta André Bazin, destaca-se o cálculo meticuloso de “situação e gesto”, em que o “máximo de clareza expressa-se no mínimo de tempo”. A expressividade dos atores é bastante valorizada por closes, que também permitem a sensação de intimidade com os personagens. Já os planos americanos permitem visualizar mais dos gestos corporais que são muito bem marcados, assim como os diálogos de texto afiado. Os ângulos e enquadramentos escolhidos são funcionais, sem experimentações. Funcional também é o uso da trilha sonora instrumental para evocar as emoções que são condizentes com as situações. Há uso da profundidade de campo, de fade-out para marcar as elipses temporais e o processo de montagem é praticamente invisível, servindo à “diferença negada”, noção trazida por Jean-Louis Baudry sobre o processe de se fazer confundir a realidade virtual do filme e a realidade real. Contudo, a realidade virtual tem potência empática, fazendo com que espectadores e espectadoras se relacionem profundamente com a narrativa e, dessa forma, entenda a materialidade do filme na vida em si. Ou seja, se enquadra no processo de continuidade ilusória, sendo que todas essas características reforçam o dispositivo cinematográfico.

Todo o rico e detalhado cenário, os figurinos elegantes criados por Edith Head e a presença de grandes figuras como Bette Davis, George Sanders, Anne Baxter e Marilyn Monroe – esta última ainda em início de carreira) – evocam o glamour e remetem ao cinema espetáculo, aos exageros e ao star system. O que também é comentado na diegese do filme, já que esta é uma das mais importantes obras metalinguísticas de Hollywood, que comenta criticamente os bastidores de tantos sonhos fabricados e vendidos para o mundo.

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