Mostra do Cinema Japonês: Três por três

Três filmes exibidos dentro da Mostra do Cinema Japonês, que acontece até o próximo dia 9 em Belo Horizonte, têm em comum temas e abordagens. “O Ferrão da Morte”, de Kohei Oguri (foto acima), “A Música de Gion”, de Kenji Mizoguchi, e “A Luta Solitária”, de Akira Kurosawa, foram produzidos em décadas diferentes (90, 50 e 40, respectivamente), mas convergem na forma como seus diretores exploram o drama de seus personagens, afirmando um estilo muito próprio do cinema nipônico.

Nos três, uma situação importuna é dividida basicamente por duas pessoas. Em 1953, no pós-Guerra, Mizoguchi narra o dilema de duas gueixas incertas sobre reclamar seus direitos e seguir as regras de conduta da profissão. Uma das mulheres, Miyoharu, é mais experiente, enquanto sua aprendiz, Eiko, com meros 16 anos, reluta em obedecer cegamente às vontades dos executivos que as contratam para servi-los, entretê-los e, em certos casos, algo mais.



Ao colocar em debate o paradigma de uma tradição tão forte, especialmente numa época em que o feminismo ainda não estava difundido com toda sua força (o que só viria a acontecer na década de 60), Mizoguchi concentra a carga dramática na angústia de Eiko e Miyoharu, após um incidente em que Eiko feriu um cliente que tentara abordá-la. Uma delas há de colocar a dignidade em cheque para que ambas não acabem na pobreza. E o diretor mantém a elegância na filmagem o tempo inteiro. Raramente move a câmera e, quando o faz, como na cena do estupro, impressiona pela habilidade com que monta um plano-seqüência em dois ou três tempos.

Aproximando-se de “A Música de Gion” na forma, basicamente construindo planos fixos que privilegiam a composição do quadro (dificilmente irá se ver mais que um travelling), em “O Ferrão da Morte”, Oguri retrata o esforço de um casal em não deixar a família desfalecer após o marido cometer uma traição. O que importa ao cineasta não é a infidelidade em si, mas a assombrosa conseqüência da quebra de confiança entre marido e esposa. Narrado sob uma atmosfera sombria, com muitos planos escuros e trilha sonora pesada, o longa é praticamente a história da sobrevivência daquele casal. Em certo momento, eles surgem tão atormentados pelo desconforto da relação, que parecem querer romper as grades da porta da frente de casa. Só que, ao fundo, estão os dois filhos pequenos, responsabilidade da qual não podem simplesmente fugir.

A correlação entre sexo (estupro, traição) e dignidade também está presente em “A Luta Solitária”, onde um Kurosawa pré-“Rashomon” conta a história de um médico que contrai sífilis de um paciente durante uma cirurgia. Como está na espera há seis anos para se casar com sua prometida e constituir família, sua enfermidade se torna um forte dilema, já que ele não saberia explicar facilmente como adquiriu uma doença sexualmente transmissível sem sexo. Num desabafo, o médico expõe para uma colega de trabalho toda a dor que vinha acumulando, logo quando decide renunciar ao matrimônio para o qual vinha se guardando. Sua moléstia é a manifestação física do embate moral/carnal observado em “A Música de Gion” e “O Ferrão da Morte”.

São essas congruências que fazem de uma mostra uma experiência tão diversa. É o momento em que o público pode assistir a filmes de autores variados, contemporâneos ou não, e traçar um panorama sobre determinada filmografia. No caso, a Mostra do Cinema Japonês não se concentra apenas nos temas aqui observados. Esta é apenas uma coluna entre tantas outras que sustentam um cinema autoralíssimo e tão versátil, que não se prende a um só gênero ou técnica – indo do drama intimista ao animê pós-apocalíptico – para se fazer reconhecer.

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