Harry Potter e o Enigma do Príncipe

Logo nos primeiros minutos de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” é possível supor que se trata do filme menos fiel, se não à história em si, pelo menos ao “espírito” do livro de J. K. Rowling. David Yates inicia o longa com cenas que no livro são apenas mencionadas, mas que parecem um sinal do que vem pela frente (o início de uma guerra igual ou pior àquela que deu origem à cicatriz na testa de Harry). Os não bruxos, ou “trouxas”, são afetados pela guerra e pela ação dos comensais da morte.

O problema é que aos poucos começamos a perceber que um dos melhores livros deu origem ao pior filme da série até o momento. A história perde elementos importantes e fica resumida a deixar um clima de mistério no ar e criar expectativas para os próximos longas. É claro que, como penúltimo livro da saga, “O Enigma do Príncipe” tem características de transição – ele representa, ao mesmo tempo, os primórdios do caos e o início de descobertas que podem significar a vitória para Harry e sua turma.



É essa dualidade que Yates não soube transportar do papel para a tela. Além disso, o roteiro de Steve Kloves deixou de lado conflitos importantes para criar esse clima e, ao mesmo tempo, dar autonomia a história para que ela não seja somente um aperitivo para o gran finale. Um exemplo disso é o conflito vivido por Harry. Ele passa a ser apontado por todos como “o escolhido”, aquele que está predestinado a derrotar o Lorde das Trevas. Ao mesmo tempo em que não deseja tanta responsabilidade para si, Potter não consegue deixar de se envolver na guerra e seu desejo de vingança cresce a cada baixa sofrida pelo “exercito do bem”.

A identidade daquele que dá título ao filme, o príncipe mestiço, também não recebe a devida importância. Assim como as pistas e possibilidades cogitadas por Harry e seus amigos que são simplesmente ignoradas, diminuindo drasticamente o efeito da revelação, quando esta finalmente é feita. Dessa forma a emoção que acontecimentos como a morte de um(a) personagem importante ou uma briga entre Harry e Lupin na casa dos Weasley geram durante a leitura não são correspondidas pela adaptação.

A fotografia de Bruno Delbonnel, por outro lado, é muito bonita e as cores parecem escurecer a cada longa, atendendo bem a tensão do momento. Em contrapartida, os raros instantes descontraídos são coloridos com tons quentes (como vermelho e laranja).

Outro destaque positivo é a atuação de Rupert Grint (em seu melhor trabalho na série), que protagoniza os momentos mais divertidos do filme. Já sua irmã, Gina Weasley (Bonnie Wright), ganha mais destaque e se mostra uma bruxa de grande coragem e talento. Mas Wright tem uma interpretação apática e não consegue fazer jus ao papel que tem em mãos.

Algumas partes inéditas do castelo de Hogwarts e do exterior da “Toca” são bem exploradas, atribuindo uma pitada de novidade aos cenários. Entretanto, tudo isso pode passar despercebido graças aos muitos cortes feitos por Yates. Aqueles que não leram o livro podem sentir a ausência de continuidade e de um elemento que interligue a história, além de algumas explicações que foram ignoradas e devem ser “descarregadas” no próximo longa.

nota: 5/10 — veja sem pressa

Harry Potter e o Enigma do Príncipe (Harry Potter and the Half-Blood Prince, 2009, Reino Unido/EUA)
direção: David Yates; roteiro: Steve Kloves (baseado no livro de J.K. Rowling); fotografia: Bruno Delbonnel; montagem: Mark Day; música: Nicholas Hooper; produção: David Barron, David Heyman; com: Daniel Radcliffe, Michael Gambon, Dave Legeno, Jim Broadbent, Geraldine Somerville, Bonnie Wright, Julie Walters, Rupert Grint, Emma Watson, Helena Bonham Carter, Helen McCrory, Timothy Spall, Alan Rickman, Oliver Phelps, James Phelps, Tom Felton, Freddie Stroma, Jessie Cave, Robbie Coltrane, Maggie Smith, David Thewlis, Katie Leung; estúdio: Warner Bros., Heyday Films; distribuição: Warner Bros. 153 min
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