Avatar

“Avatar” marca um curioso e estranho encontro. É a vanguarda da tecnologia oposta ao lugar-comum de um modelo narrativo que há décadas e décadas é ruminado por filmes de ficção-científica e fantasia. Se você espera por uma história empolgante e surpreendente, esqueça. Tudo parece não passar de um pretexto para nos apresentar a uma nova forma de fazer e ver cinema. É quase como estarmos diante do experimento vencedor de uma feira de ciências.

Cameron tem um coração bom, disso não há dúvida. Ele faz um filme com uma mensagem ecológica, com os pés fincados em questões ambientais que são discutidas hoje. Este não é o problema de “Avatar”, mas, sim, o tempo que Cameron gasta se arrastando sobre clichês que enxergamos de longe. Você sabe exatamente o que virá em seguida, seja na história de amor embutida na trama de guerra, seja no resultado desse combate entre homens e aliens no exótico planeta Pandora – que nós, claro, estamos colonizando. É uma história pronta, encomendada, para não dizer preguiçosa. Perceba que Cameron nem perde muito tempo explicando porque o homem foi até aquele planeta ou o que aconteceu com o nosso. Além de isso ser óbvio, não interessa a Cameron. E isso talvez seja um ato nobre por parte do cineasta.



Tal como Robert Zemeckis em “O Expresso Polar”, “A Lenda de Beowulf” e “Os Fantasmas de Scrooge“, Cameron deixa o texto na forma mais simples possível e se concentra no desenvolvimento da tecnologia 3-D digital, da qual ele é um dos precursores. E se você pretende assistir a “Avatar” não pense duas vezes e compre o ingresso para a sala 3-D. É esta versão do filme que deve ser vista pela importância que carrega na evolução da linguagem.

O trabalho de Cameron difere de tudo que já foi feito no formato até agora. A forma como ele pensou o uso do efeito tridimensional em todo o filme, na composição de cada cena, nos fornece uma nova perspectiva. Ele quer que você veja o filme de modo a quase senti-lo. Não é só um rosto que ele enquadra: é o tamanho do nariz do ator, o relevo de suas bochechas, a altura dos pêlos de sua barba. Ele quer dar ao público informações físicas que até então não eram percebidas num filme convencional. O mesmo serve para a relação espacial entre uma pessoa e os elementos que a cercam: aqui, você tem uma percepção diferente do tamanho de uma mesa, por exemplo, e até da altura de um ator em relação a outro. Cameron não mais está interessado apenas no espaço entre primeiro e segundo plano, mas também na distância entre pupila, íris e córnea. Cameron renova o olhar do espectador para noções de profundidade de campo e de proporção. Seu 3-D é a revolução da ilusão de ótica. Muda nossa percepção até do próprio aspecto da imagem, que não tem granulação e parece correr numa velocidade ligeiramente superior aos habituais 24 quadros por segundo. É como ver algo pela primeira vez e sentir toda aquela estranheza.

“Avatar” pode não convencer pela história sci-fi natureba, mas é uma inestimável contribuição tecnológica para a indústria e que traz novos e promissores contornos para a arte. Citei Zemeckis anteriormente e Cameron pode estar seguindo a mesma trajetória de fazer filmes não tão empolgantes do ponto de vista narrativo, mas essenciais para que o cinema dê o passo adiante. No entanto, Cameron já começa na frente de Zemeckis em termos técnicos e de qualidade de direção mesmo. Ainda assim, “Avatar” é um começo e vamos ter que ser pacientes até vir o primeiro filme 3-D nessa forma realmente bom.

Mas e se você não puder assistir a “Avatar” em uma sala 3-D? Não se preocupe: mesmo o filme não sendo perfeito, há vários aspectos a se aproveitar. A direção de arte e a fotografia são fabulosas, de encher os olhos de verdade. A animação digital, produzida em conjunto pelas gigantes do setor, Weta e Industrial Light & Magic, é de um refinamento minimalista incrível. E apesar de algumas establishing shots desnecessárias, a direção de Cameron continua consistente, com cenas de ação filmadas com calma, bem old school mesmo. Ele poderia ter só investido um pouco mais na câmera subjetiva, pois em pelo menos dois momentos (uma queda de cachoeira e a “aula de vôo” do protagonista) você praticamente sente necessidade dela. E mesmo pelo pouco que é usado, percebemos o quanto o plano em primeira pessoa funciona para a sensação de imersão do espectador. Se em 2-D funciona, imagine em 3-D.

Em relação à mitologia, Cameron pode não ter construído algo à altura de “O Exterminador do Futuro” ou “O Segredo do Abismo”, mas ainda assim criou um universo particular rico em detalhes e informações. O filme fala um “nerdês” fluente, com o ponto alto sendo a ideia de as criaturas do planeta Pandora estarem interligadas à natureza, formando uma rede, como se tudo fosse um só circuito eletrônico (o que explica a vegetação e os seres daquele mundo terem a luz como característica comum). E por falar em criaturas, fica claro, para quem viu os documentários que Cameron fez no fundo do oceano depois de “Titanic”, de onde o cineasta tirou inspiração para o excêntrico design dos bichos que povoam Pandora.

Tire o 3-D, tire os clichês, e “Avatar” ainda guarda um aspecto interpretativo, exposto no próprio título. Existem várias camadas e tipos de avatares no filme: os Na’vi criados em laboratório, claro, mas também as armaduras mecanizadas que os soldados usam em combate, funcionando como os animais que se conectam com os Na’vi – e estes, como já dito, estão conectados com o planeta. Parece haver um tipo de hierarquia de avatares, e estes nada mais são do que extensões do corpo nativo. É de onde pode-se deduzir o tema que Cameron trabalha aqui, e que é bem diferente do que vimos em “Substitutos” ou “Gamer” este ano: nós somos avatares do meio em que vivemos, somos uma extensão dele. Destruí-lo significa autodestruição. Sci-fi natureba. Mas diabos: é preciso ter talento para bolar algo assim.

nota: 7/10 — veja no cinema em 3-D

Avatar (2009, EUA/Reino Unido)
direção: James Cameron; roteiro: James Cameron; fotografia: Mauro Fiore; montagem: James Cameron, John Refoua, Stephen E. Rivkin; música: James Horner; produção: James Cameron, Jon Landau; com: Sam Worthington, Zoe Saldana, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel Moore, CCH Pounder, Wes Studi, Laz Alonso, Dileep Rao, Matt Gerald, Sean Anthony Moran; estúdio: Twentieth Century-Fox Film, Dune Entertainment, Giant Studios, Ingenious Film Partners, Lightstorm Entertainment; distribuição: 20th Century Fox. 162 min
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