O Fantástico Sr. Raposo

Se “Três é Demais” e “Os Excêntricos Tenenbaums”, os primeiros filmes de destaque na carreira de Wes Anderson, foram grandes sucessos de crítica, o mesmo não se pode dizer de “A Vida Marinha de Steve Zissou” e “Viagem à Darjeeling”, os dois posteriores. E mesmo sendo elogiados ou não os trabalhos de Anderson nunca foram daqueles que agradam de forma unânime e arrastam multidões aos cinemas. “O Fantástico Sr. Raposo”, entretanto, é a obra do cineasta que tem melhores chances de deixar um maior número de espectadores satisfeitos. Justamente por ser uma animação.

É possível teorizar sobre a eventual rejeição de uma parcela do público ao trabalho de Anderson e porque esta postura pode ser diferente em “Sr. Raposo”: a queda para o absurdo presente em seus filmes. Como já vimos outras vezes, nem sempre o público engole bem essa escolha quando ela não é claramente abraçada na produção. É possível que você se lembre, por exemplo, das reações dos espectadores ao assistirem a “O Tigre e o Dragão”, de Ang Lee. Risos nervosos de pessoas claramente incomodadas explodiam nas salas de cinema quando Michelle Yeoh, Chow Yun-Fat ou Zhang Ziyi levantam vôo no meio do filme. As mesmas gargalhadas nervosas também eram ouvidas em “Kill Bill”, de Tarantino, quando Uma Thurman decepava partes do corpo de dezenas de pessoas em poucos minutos e litros de sangue espirravam da vítima. Provavelmente, se Ang Lee tivesse feito de seus personagens super-hérois óbvios com capas, uniformes e poderes, ou Tarantino tivesse concebido a saga da Noiva como uma animação no estilo japonês, o incômodo seria bem menor ou quase nulo. Afinal, ficaria claro que seriam produções que não tinham alguma ligação com a realidade. É uma limitação do público que, apesar de estar sumindo, infelizmente ainda existe. Alguns momentos ou personagens da obra de Anderson são como os vôos de Chow Yun-Fat ou o sangue das vítimas de Uma Thurman. São parcelas de “surrealismo” em produções que não abraçam de uma forma clara e óbvia a postura absurda. Os personagens de Anderson estão sempre nesse limite do absurdo e o diretor tem uma forma toda particular de tratar seus temas.



Por isso “Sr. Raposo” pode ser o trabalho mais unânime da carreira de Anderson . Afinal, trata-se de uma animação com raposas e outros animais que falam, têm sentimentos e conversam sobre hipotecas. Porém, não se engane. Apesar de ser baseado em mais um mundo fantástico de Roald Dahl (criador de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “James e o Pêssego Gigante”), “Sr. Raposo” tem muito de Wes Anderson em seu desenvolvimento. Os personagens peculiares e honestos, o humor não convencional, a trilha sonora, a figura paterna meio irresponsável e negligente estão lá. No longa, George Clooney dá voz ao Sr. Raposo, um antigo ladrão de galinhas que prometeu à mulher grávida que nunca mais voltaria para o crime. “Anos de raposa” depois, ele, um colunista de jornal insatisfeito e pai de família, fica tentado a voltar aos velhos tempos ao se mudar para uma árvore localizada em frente às grandes propriedades de três fazendeiros. A partir dessa sinopse, Anderson coloca sua assinatura na produção e a transforma na melhor animação do ano. Ele cria um mundo surreal, com personagens de atitudes absurdas, mas que, orquestradas pelo cineasta, resultam em um cinema que parece bem simples. Mas não é. Sem a mão do grande artista que é Anderson, dificilmente “Sr. Raposo” resultaria no grande filme que é.

Esse é outro dos pontos positivos de “Sr. Raposo”. Anderson, mais uma vez com a parceria de Noah Baumbach no roteiro, leva a trama de uma forma tão bem feita que é impossível deixar de se envolver com a história um minuto sequer. Eu, às vezes, fico um pouco incomodado com vozes famosas dublando personagens. É aquela sensação de ver a dublagem de Whoopi Goldberg em uma “Sessão da Tarde” e reconhecer a mesma voz em um desenho animado. Em alguns momentos, as vozes famosas demais me impedem de entrar de cabeça na história por saber que elas têm um rosto. Em “Sr. Raposo”, mal lembrei que os dubladores eram Meryl Streep ou Clooney. Os personagens são tão bem construídos que tudo combina.

Portanto, se você tem algum tipo de aversão ao absurdo com que Anderson costuma regar seus filmes, comece a assistir sua obra por “O Fantástico Sr. Raposo”. Mesmo sendo uma animação, reúne as características do cineasta em sua melhor forma. Mas depois dê uma chance para o resto de sua filmografia. Daí você saberá o que é um cinema de autor, com “A” maiúsculo.

nota: 9/10 — veja no cinema e compre o DVD

O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox, 2009, EUA/Reino Unido)
direção: Wes Anderson; roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach (baseado no livro de Roald Dahl); fotografia: Tristan Oliver; montagem: Andrew Weisblum; música: Alexandre Desplat; produção: Allison Abbate, Wes Anderson, Jeremy Dawson, Scott Rudin; com as vozes de: George Clooney, Meryl Streep, Jason Schwartzman, Bill Murray, Wallace Wolodarsky, Eric Chase Anderson, Michael Gambon, Willem Dafoe, Owen Wilson, Jarvis Cocker, Wes Anderson; estúdio: Twentieth Century Fox, Indian Paintbrush, Regency Enterprises, American Empirical Pictures; distribuição: 20th Century Fox. 87 min
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