Zumbilândia

“Zumbilândia” é o filme de zumbis de 2009 (ano em que estreou nos Estados Unidos). Este é um subgênero que, desde quando foi reinventado por Romero no fim dos anos 60, volta e meia surge com uma produção bacana. E é este o caso do longa em questão. Apesar de algumas cenas sangrentas, não se trata de um terror. É uma comédia e das mais engraçadas. Os roteiristas Rhett Reese e Paul Wernick combinaram alguns ingredientes que estão (ou sempre estiveram) em alta no entretenimento americano e escreveram um filme divertido e esperto no qual o diretor estreante Ruben Fleischer deu o toque de frescor e modernidade.

Primeiro, escolheram um protagonista geek. Não é de hoje que a cultura geek se tornou a menina dos olhos de Hollywood. E em “Zumbilândia” ela mostra a sua força, já que os próprios roteiristas parecem ser experts no tema. A questão aqui não é mostrar um herói destemido, cheio de músculos e explodindo a cabeça dos zumbis e, sim, um jovem precavido com uma lista de regras para se proteger dos monstros que dominaram o mundo (e que por isso, agora, ele é denominado “Zumbilândia”).

Muitas das regras nada mais são do que uma brincadeira com os clichês do gênero zumbi ou, na verdade, de qualquer outro filme no qual existe um serial killer em atividade. Uma das regras é sempre dar um segundo tiro. “Um zumbi estar nocauteado não é motivo para não dar um tiro em sua cabeça”. Glenn Close já nos ensinou em “Atração Fatal”: um assassino não morre de primeira, ele sempre dá seu último suspiro. Outra regra é: sempre olhe o banco de trás. Se a personagem de Allison Lohman tivesse este tipo de cuidado, provavelmente ela não participaria de uma das melhores lutas do cinema do ano passado em “Arrasta-me Para o Inferno“. Reese e Wernick parecem ter assistido a muitos filmes, conhecem os clichês típicos e foram bem-sucedidos em como tratá-los. Eles os assumiram e os utilizaram como parte essencial da narrativa, de forma bem-humorada.

Para acompanhar o protagonista nerd na jornada, Reese e Wernick criaram mais três personagens. O principal deles é o  badass americano, tipo de personagem que tornou Samuel L. Jackson, por exemplo, em uma figura cultuada – está aí outro elemento de sucesso da cultura pop americana em “Zumbilândia”. Os outros dois personagens são duas irmãs trambiqueiras que querem se dar bem a qualquer custo.

São personagens totalmente diferentes e, com isso, os roteiristas usam mais um ingrediente de forma bem-sucedida. É um tema recorrente, mas quando é bem escrito, é praticamente imbatível: pessoas que nada têm a ver uma com as outras mas, por alguma circunstância, têm que aprender a conviver juntas. Já vimos exemplos de sucesso do tema em “Up – Altas Aventuras” (o velho ranzinza que detesta ter que conviver com o garotinho hiperativo em sua casa voadora) ou em “O Visitante” (o americano triste que se surpreende com a presença de imigrantes que sabem viver a vida, em seu apartamento) entre outros.

Em “Zumbilândia”, o geek (Jesse Eisenberg), o machão (Woody Harrelson) e as irmãs (Emma Stone e Abigail Breslin), que não se conhecem pelos nomes, apenas pela cidade onde nasceram (para evitar alguma intimidade, já que qualquer um pode morrer a qualquer hora), são completamente diferentes. Têm objetivos diferentes, passados diferentes, temperamentos diferentes, têm cada um a sua forma de lidar com a situação do mundo atacado por zumbis. Isso provoca brigas e estranhamentos que acabam sendo um dos grandes motivos da graça do filme.

Junte tudo o que foi dito com muita referência à cultura pop (outro ingrediente), alguns flashbacks bacanas (mais um) e uma participação hilária de Bill Murray e temos um filme vencedor. Todos parecem se divertir muito com o que fizeram. Tanto os roteiristas quanto o diretor e atores mostram estar em sintonia, o que transforma o filme em uma hora e meia de grande prazer.

“Zumbilândia” não é perfeito e algumas de suas qualidades, quando não são muito bem dosadas, acabam se tranformando em defeitos. Reese e Wernick parecem achar suas referências tão engraçadas que às vezes eles pesam a mão e as incluem em alguns momentos de forma desnecessária. E no fim das contas, os zumbis acabam sendo o menor dos atrativos do filme. Tanto que o desfecho, mesmo sendo bom, acaba não sendo tão bacana como o resto do longa. Mas, mesmo assim, “Zumbilândia” é um ótimo filme e uma excelente receita para quem não aguenta algumas produções pretensiosas que aparecem nessa época de Oscar. Vida longa aos zumbis.

nota: 8/10 — vale o ingresso

Zumbilândia (Zombieland, 2009, EUA)
direção: Ruben Fleischer; roteiro: Rhett Reese, Paul Wernick; fotografia: Michael Bonvillain; montagem: Alan Baumgarten; música: David Sardy; produção: Gavin Polone; com: Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone, Abigail Breslin, Amber Heard, Bill Murray, Derek Graf; estúdio: Columbia Pictures, Relativity Media, Pariah; distribuição: Columbia Pictures. 88 min
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