Tudo Pode Dar Certo

Nota do editor: o texto a seguir não é de forma alguma uma resposta ao texto de Vitor Drumond – que deve ser lido. Trata-se apenas de uma segunda visão deste blog sobre o mesmo filme.

O título do mais recente filme de Woody Allen a chegar aos cinemas brasileiros é “Tudo Pode Dar Certo”. Mas será que pode mesmo?

Allen é conhecido como cineasta incansável, que como poucos hoje em dia – talvez só como o português Manoel de Oliveira – tem um filme em produção ao mesmo tempo em que outro entra em cartaz. Essa superatividade pode ser vista com suspeita, mesmo quando se fala de um mestre como Allen. Entre uma obra-prima e outra, ele realiza um filme mediano. E “Tudo Pode Dar Certo” é este filme mediano, feito na cola do elogiadíssimo e já consagrado “Vicky Cristina Barcelona“, que o próprio diretor considera ser um de seus melhores filmes.



Mas é aquela velha história: um filme mediano de Woody Allen pode muito bem ser melhor do que o mais elogiado blockbuster de Hollywood. E “Tudo Pode Dar Certo” tem boas sacadas. De volta à sua cidade-natal, Allen novamente desconstrói o estereótipo da sociedade americana ilustrado no mosaico microcósmico novaiorquino. O protagonista é o comediante Larry David, criador de séries premiadas como “Seinfeld” e “Curb Your Enthusiasm”. David mescla as neuras já conhecidas das comédias de Allen à sua própria personalidade, tornando seu personagem um ser maior, que sem nenhum rodeio se dirige à câmera e conversa diretamente com o público, num recurso metalinguístico que não é inédito, mas que exatamente por isso apenas mestres como Allen conseguem usar com inteligência.

O sarcasmo, o pessimismo e a misantropia (isto é, a descrença total no ser humano) são características recorrentes de personagens criados por David e Allen, e não poderia ser diferente aqui. As falas escritas para e ditas em “Tudo Pode Dar Certo” se tornam elementos cômicos que garantem as risadas da plateia, que pode estar rindo de si mesma, talvez até sem saber.

É nisso que Woody Allen é Larry David são realmente o que eles mesmos chamam de “gênios”. Problemas, no entanto, surgem quando o próprio filme não parece suportar a convivência com o protagonista e passa a se apoiar nos personagens coadjuvantes para falar do acaso, dos revezes da vida, do caos em que estamos jogados sem poder fazer muita coisa. Enfim, “tudo pode dar certo” numa combinação de coincidências que nos levam a estarmos aqui, diante uns dos outros, fazendo o que estamos fazendo. E por incrível que pareça, isso tudo acaba sendo visto sob uma luz muito otimista por Allen, que no fim só quer nos dizer que não adianta nos preocuparmos em não sofrer.

A título de comparação, os também muito produtivos irmãos Coen conseguem tratar exatamente o mesmo tema com mais sutileza e perspicácia em “Um Homem Sério”, filme que chegou às telas ao mesmo tempo em que “Tudo Pode Dar Certo”.

Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works, 2009, EUA/França)
direção: Woody Allen; roteiro: Woody Allen; fotografia: Harris Savides; montagem: Alisa Lepselter; produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum; com: Larry David, Evan Rachel Wood, Patricia Clarkson, Henry Cavill, Ed Begley Jr., Carolyn McCormick, Olek Krupa, Christopher Evan Welch, John Gallagher Jr.; estúdio: Sony Pictures Classics, Wild Bunch, Gravier Productions, Perdido Productions; distribuição: Califórnia Filmes. 92 min

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