A Origem

Geralmente quando lemos um livro muito interessante, imaginamos que ele poderia virar um grande filme. Mas com “A Origem” foi a primeira vez que eu tive a reação inversa: eu queria ver a história na forma de um livro ou de uma revista em quadrinhos. Isto porque a trama é tão complexa – ou detalhada, como queiram – que talvez fosse bem mais proveitoso acompanhá-la num tipo de mídia que dá mais tempo para você raciocinar e assimilar uma ideia antes de outra ser apresentada. Ou então, que assinasse a direção do filme um cineasta que soubesse condensar mais o texto ao transformá-lo em imagens. E como existem muitos diálogos, a coisa fica ainda mais complicada para quem necessita acompanhar as rápidas legendas. Ver o filme dublado nesse caso se torna uma opção a ser considerada, pelo menos uma vez.

O Chirstopher Nolan que dirige “A Origem” é menos o de “Batman Begins” e “O Cavaleiro das Trevas” e mais o de “O Grande Truque”, “Amnésia” e “Following” (seu longa de estreia, ainda inédito no Brasil). É o Nolan que gosta de fazer mágica, fascinado pelo poder de iludir a platéia. É como se, ao quebrar a linearidade narrativa, ele embaralhasse as cenas desses filmes tal qual as cartas de um baralho e pedisse ao espectador para escolher uma – justamente aquela que voltará a aparecer no final do truque somente para deixar a pessoa atônita com o ato.



Até aí tudo bem: a origem (sem trocadilho) do cinema está muito ligada à mágica. Um filme é uma ilusão. O problema é que Nolan está mais para Mister M do que para Houdini, já que ele não resiste a dar um jeito de “explicar o truque” para o público, usando aquelas conhecidas sequências de flashback com voice-over que mostram como tudo aconteceu. Assim, Nolan difere de, por exemplo, David Lynch (que graças a “Estrada Perdida”, “Cidade dos Sonhos” e “Império dos Sonhos” é o cineasta que vem de imediato à mente quando se vê “A Origem” – e isso não é um spoiler). Ele nega ao público o prazer da dúvida, como se temesse deixar o espectador sair do cinema se sentindo um burro.

Essa maneira um tanto quanto didática que Nolan encontra para encerrar seus filmes muito provavelmente se deve ao fato de eles serem direcionados a um público mais amplo. Pelo menos o cineasta sempre entrega uma tomada final marcante e de certa forma enigmática (até mesmo nos “Batman”) que sustenta o filme por mais algum tempo após a sessão. Esse já é um mérito em tanto por se tratar de um diretor de blockbusters, e talvez seja o maior feito de Nolan aqui, pois, se por um lado ele vem com um texto e ideias brilhantes, por outro falha ao colocá-las na tela.

Ora, para um cineasta o primordial é criar imagens, não apenas filmar um texto, seja ele um roteiro original ou adaptado de outra fonte. Em “A Origem”, cuja trama envolve o universo onírico, os efeitos especiais (desejo de consumo de todo freqüentador de multiplex) têm seu lugar por excelência. Apesar das afetações da super câmera lenta, o trabalho feito em computação gráfica e também com efeitos mecânicos é eficiente e deslumbrante, apesar de as cenas bacanas estarem quase todas no trailer. Só que quando não se dedica a essas tomadas, Nolan passa a maior parte do tempo colocando a câmera no rosto dos atores para que eles nos expliquem o que diabo está se passando na nossa frente (ou como está muito bem colocado neste texto, via Jim Emerson, “é muito tutorial e pouco jogo”). Sintoma claro e manifesto do quanto o filme é mais palavra do que imagem. Problema de concepção ou de execução?

No papel, “A Origem” parece funcionar muito bem. O conceito da invasão dos sonhos aplicado à trama policial é bem sacado e se alimenta bem da influência da ficção-científica – lembra “Matrix” em diversos pontos, até mesmo na forma como os dois filmes incorporam em suas mitologias fenômenos psíquicos que todos nós já vivenciamos. Troque o déjà vu pela sensação de queda enquanto dormimos. A própria análise do sonho como a ilusão quintessencial da mente é assunto para frutíferas discussões. Da mesma forma como em “O Grande Truque”, “Amnésia” e “Following”, o roteiro é cuidadosamente arquitetado (coincidência ou não, dois dos personagens principais são considerados “arquitetos”). Talvez até por ter elaborado em excesso a premissa é que Nolan encontrou dificuldades em se desprender do texto no set. Por isso eu penso que “A Origem” poderia ser um livro ou uma HQ melhor do que o filme que está aí. Não que Nolan seja um mau cineasta. Ele só precisa usar mais a imaginação para nos surpreender visualmente. A magia do cinema está nisso.

A Origem (Inception, 2010, EUA/Reino Unido)
direção: Christopher Nolan; roteiro: Christopher Nolan; fotografia: Wally Pfister; montagem: Lee Smith; música: Hans Zimmer; produção: Christopher Nolan, Emma Thomas; com: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Marion Cotillard, Pete Postlethwaite, Michael Caine, Lukas Haas; estúdio: Warner Bros. Pictures, Legendary Pictures, Syncopy; distribuição: Warner Bros. Pictures. 148 min

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