A Falta que me Faz e Acácio

A estreia simultânea dos dois documentários da diretora mineira Marília Rocha, “Acácio” e “A Falta que me Faz”, possibilita ao público a curiosa e saudável experiência de ter contato com a obra de uma cineasta que não é mais promessa: já são fato o seu talento e a sua sensibilidade na escolha e no trato dos temas e personagens de seus filmes.
Ambos os docs entram no circuito comercial agora, depois de rodarem festivais no mundo todo por um bom tempo. “Acácio”, por exemplo, teve sua primeira exibição em 2008. “A Falta que me Faz” é de 2009. A passagem do tempo, aliás, é um tema trabalhado por Marília.
Em “Acácio”, ela remonta a trajetória de uma vida inteira do casal de portugueses Acácio Videira e Maria da Conceição. Vivendo no Brasil, eles relembram o período que estiveram em Angola, refrescando a memória através de fotografias e filmagens próprias. O esforço da busca dessas lembranças recebe a ajuda da diretora, que visita os três países num exercício reflexivo muito mais que pessoal. Ao mesmo tempo em que promove o reencontro dos personagens com o passado, ela contempla as relações históricas entre as três nações que fizeram parte da vida do casal.
Também existe em “Acácio” uma aproximação etnográfica que é recorrente na obra de Marília Rocha. Percebe-se essa abordagem em seu primeiro documentário, “Aboio”, de 2005, e em “A Falta que me Faz”. Neste mais recente trabalho, a cineasta acompanha o dia-a-dia de um grupo de garotas que vive em uma comunidade em meio à Serra do Espinhaço, no Vale do Jequitinhonha. Elas falam sobre namoro, casamento, sonhos, incertezas, futuro. São pessoas que provavelmente já passaram por nós num passeio turístico, talvez foram vistas por nós como parte daquela paisagem. O que o filme faz é nos apresentar àquelas pessoas. Depois dele, nós não apenas sabemos da existência delas, nós as conhecemos.
Pela reação das jovens à presença da câmera e da equipe de Marília, percebe-se que a diretora criou um vínculo com as personagens fundamental para que a naturalidade delas fosse captada. Há a intervenção clara da direção nas cenas, mas não há manipulação. Existe a opção estética pelo enquadramento, pela iluminação. No entanto, é na distância que Marília toma que percebemos sua sensibilidade. Ela não se torna uma intrusa. Por mais que aconteça o estranhamento das garotas por estarem sendo filmadas, a cumplicidade obtida pela cineasta faz com que a câmera se torne invisível ou, na pior das hipóteses, não incomode.
E como é magnífico o momento em que uma das garotas fala sobre trabalho em um diálogo com a equipe fora do quadro. Ela coloca o documentário contra a parede na simples ingenuidade em que confunde o “som do filme” com o aparato físico da projeção. Ali, “A Falta que me Faz” se abre em duas vias, já que a garota também está nos conhecendo. Nossos trabalhos e nossos hábitos urbanos lhe soam tão desconhecidos quanto as vidas dela e de suas amigas nos parecem. O grande talento de Marília Rocha é não encarar o outro apenas como curiosidade, mas com interesse genuíno. É um cinema intensamente humano.
A Falta que me Faz (2009, Brasil)
direção: Marília Rocha; fotografia: Alexandre Baxter, Ivo Lopes Araújo; montagem: Francisco Moreira, Marília Rocha; música: Arthur H.; produção: Luana Melgaço; estúdio: Teia; distribuição: Cia do Filme, Teia. 85 min
Acácio (2008, Brasil)
direção: Marília Rocha; fotografia: Clarissa Campolina, Marília Rocha;
montagem: Clarissa Campolina; música: O Grivo; produção: Diana Gebrim Costa, Glaura Cardoso Vale; estúdio: Teia; distribuição: Cia do Filme, Teia. 80 min
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