Um tapinha não dói

Quando saí da sessão de “Sr. e Sra. Smith” hoje, a sensação foi de ter assistido a um filme muito divertido. Afinal, como não rir de Brad Pitt fazendo aquelas caras? Mas aí, eu e minha namorada fomos conversando sobre o que vimos e chegamos à conclusão de que o filme é sadomasoquista.

 

Muito se discute sobre essa maquiagem que Hollywood coloca sobre a violência, a fim de transformá-la em entretenimento. Alguns filmes tendem a fazer isso com o crime organizado, tornando cool ver grandes assaltos etc. É o caso de “Onze Homens e Um Segredo”, por exemplo, que tem uma ligação direta com “Sr. e Sra. Smith”. Além de ambos trazerem Brad Pitt interpretando praticamente o mesmo papel, os dois longas enxergam criminosos como superastros. E o curioso é que “Sr. e Sra. Smith” tenta iludir o espectador, mostrando Pitt e Angelina Jolie como espécies de espiões à la 007.

 



Mas eles não são agentes especiais. Eles são assassinos profissionais. E por mais que possam ter objetivos “justificáveis”, como matar estelionatários ou pequenos gângsteres, nunca fica claro quem são realmente seus alvos e o que eles fizeram para merecerem ser executados. O motivo não interessa. O que importa é mostrar que o casal é bom no que faz, e azar se estão certos ou errados. Culpa, ao que parece, não é algo com o quê eles estão familiarizados. Em certo momento, eles até confessam um para o outro que nunca tiveram problema de insônia – ou seja, são tão frios, que vão dormir com a mente tranqüila.

 

Porém, este não é o principal problema de “Sr. e Sra. Smith”. É bom deixar claro que não tenho objeção a filmes que estão “do outro lado da lei” (gosto muito de “Onze Homens e Um Segredo”, aliás). Desde que o filme permaneça na tela, tudo bem. O que realmente me espantou foi a violência com que Pitt e Jolie se tratam depois que descobrem a identidade um do outro.

 

Há uma sequência dentro da casa que começa com troca de tiros e depois passa para pancadaria crua, com socos, pontapés, cabeçadas, garrafadas e tudo mais. E, no ápice do confronto, eles nem estão mais realmente interessados em eliminar um ao outro. Naquele ponto, bater se tornou prazer. E o que começa com os dois caindo na porrada em um sofá (com direito a Pitt chutando sem piedade a esposa no chão), termina com sexo. Quer dizer, eles só sentem tesão depois que se esmurram. E isso porque, no começo do filme, ficamos sabendo que o casamento dos dois está em crise e que eles não transam com frequência.

 

Não vou mentir: eu me diverti vendo as armadilhas e perseguições protagonizadas pelos Smith. Justamente por isso que é uma diversão perigosa: você acaba aceitando aquilo. “E ‘Kill Bill’ não é violento e você também não aceita?” Sim, porém, o mundo de “Kill Bill” é irreal. Já o de “Sr. e Sra. Smith” não está tão longe do nosso. Podemos ir até mais adiante neste aspecto e observar que o filme se passa em Nova York e não há concessões no número e na escala das explosões (pelo visto, o trauma do 11 de Setembro já passou). Tem também a questão do fetichismo por armas, quase descontrolado aqui. Mas prefiro ficar numa questão mais delicada, que é a da violência doméstica incitada, mesmo que inconscientemente.

 

É claro que ninguém vai sair do cinema e dar um soco na cara do(a) companheiro(a). Isso é paranóia (exceto para mentes fracas). O problema, ao meu ver, é mascarar esse sadomasoquismo com a mensagem torta de que um casamento só se salva se a sinceridade prevalecer. O que pode estar subentendido nessa metáfora bacaninha é que a tal sinceridade nada mais é do que uma liberação de instintos. Não esconda quem você é; depois, não esconda o que você sente; depois, não esconda o que você quer fazer. E comece com um tapinha, por que não?


Fetichismo por armas: parece que os produtores de
“Sr. e Sra. Smith” não assistiram a “Tiros em Columbine”.

 

Texto publicado originalmente em 13 de junho de 2005.

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