"Somos Tão Jovens" (2013) - Distribuição: Imagem Filmes
"Somos Tão Jovens" (2013) - Distribuição: Imagem Filmes

“Somos Tão Jovens”: Três acordes, três atos

Aproveitando um termo que o próprio Renato Russo usava, “Somos Tão Jovens” é um filme com “aura”, que pode ser sentida por uns e por outros não. Desde a sua concepção até seu lançamento, o filme dirigido por Antônio Carlos da Fontoura esteve envolto de muita expectativa. Algumas pessoas irão assisti-lo e considerá-lo indigno de carregar o título de primeira cinebiografia de um dos mais talentosos e complexos ídolos da música nacional, por vários motivos. Posso até concordar com alguns dos argumentos que inevitavelmente surgirão, pois o filme está longe de ser perfeito. Mas por que esperar por um filme perfeito?

O melhor de termos a história da Legião Urbana e de seu líder contada nas telonas é embarcar numa viagem até o passado e ficar mais próximo (quem sabe até se sentir amigo) do maior poeta que o rock brasileiro já viu. Foi esta a sensação que “Somos Tão Jovens” me trouxe e acredito que este seja o principal objetivo desta obra. Quem conhece Legião Urbana sabe: perfeição não era o caminho. A essência de tudo eram os sentimentos compartilhados entre banda e público. Com o filme sinto que não seja diferente.

No início, me fez falta ter um pouco mais da introspecção do Renato em seu quarto, após o diagnóstico de epifisiólise, que o obrigou a ficar meses acamado, mas que ele transformou em oportunidade para alimentar a mente e a alma com toda a música e toda a literatura relevantes que pudessem ser absorvidas. Isso se passa muito rápido no filme, sendo que em sua vida foi um tempo crucial. Também senti certo estranhamento ao identificar versos das músicas sendo utilizados como diálogos. A naturalidade da cena é quebrada porque você já conhece aquilo que é falado.

Mas esses problemas não afetaram a alma do filme. Thiago Mendonça, apesar de mais gordinho do que seu personagem realmente era, consegue convencer como um Renato Russo jovem, rebelde, pensante e amante do rock. E um tanto prepotente. Certo do que discursa e do que espera do futuro, mas nem por isso menos errante. Ponto muito positivo para o filme que humanizou o mito e mostrou que até nossos maiores ídolos têm uma vida parecida com a nossa, com todas as suas fases, inclusive a dos 20 e poucos anos. Todos nós temos conflitos, anseios e realizações. Uma vida em turma e outra solitária.

Para as pessoas que, como eu, cresceram ouvindo todos os álbuns da Legião Urbana e decoraram todas as letras (e arranhões dos velhos vinis), a emoção é inevitável. Principalmente quando vemos o surgimento de músicas tão amadas, acontecendo em qualquer lugar, a qualquer momento, num encontro entre amigos, numa mesa de bar, num acesso de raiva ou de paixão. O processo de criação do Renato, tanto sozinho quanto junto com as bandas não foi tão explorado, mas isso foi compensado pelas ótimas performances ao vivo. Era o velho (e imperfeito) punk gritando no nosso ouvido ou o Trovador Solitário nos contando histórias e sentimentos profundos. O que pode ser aproveitado não só pelos fãs, mas por todos que curtem um rock de garagem, sem refinamento e com letras que surpreendem e impressionam.

Além da história do melhor rock nacional nascendo em Brasília, com as bandas Aborto Elétrico e Plebe Rude, ainda temos as amizades e os amores transbordando no cotidiano daquela turma. Renato e Aninha (vivida com doçura pela Laila Zaid) formam uma dupla que de tão carismática, domina o filme. É deles a cena que considero a mais emocionante, tanto pela escolha perfeita da música, como pelo contexto. Já foi divulgado que Aninha é uma personagem fictícia, que condensa as amigas mais íntimas do Renato. E para a narrativa, essa decisão foi acertada, pois ela se tornou a pessoa em quem o Renato mais confiava e através dela pudemos descobrir mais de seu mundo.

Assistir à performance, mesmo que na ficção, do Renato Russo cantando “Ainda é Cedo” pela primeira vez, como um pedido de desculpas sincero e apaixonado, é de uma beleza poética tão grande, que a primeira coisa que pensei foi: “preciso ouvir essa música bem alta”. Aliás, um conselho da Legião Urbana em todos os seus discos era justamente esse, ouvir no volume máximo. Com esse filme, nos é dada a oportunidade de também ver. E por que não entrar na dança e curtir? Somos tão jovens e não devemos nos embrutecer. O filme, o punk e a vida têm em comum a efervescência da imperfeição e, afinal, isso é o que nos move. ■

Nota:

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