“Além das Palavras”: a dificuldade de realizar um filme sobre poesia

“In this short Life that only lasts an hour
How much – how little – is within our power”
Emily Dickinson

Emily Dickinson foi uma poetisa extraordinária principalmente por sua atemporalidade – ao lermos, no século XXI, seus poemas, escritos no século XIX, não nos sentimos amarrados a um contexto literário específico nem nos surpreendemos com ideias envelhecidas. Dickinson poderia ter nascido no século XX ou mesmo ser uma millennial do século XXI, para um leitor desavisado. Suas reflexões sobre a vida, a morte, e mesmo suas brincadeiras com as palavras marcaram época quando o movimento do Modernismo a descobriu, bem depois de sua morte, especialmente porque elas representavam uma nova forma de se escrever poesia.

Sua vida, porém, não foi algo extremamente excitante ou interessante. Ela nasceu e morreu na mesma pequena cidade, Amherst, em Massachusetts, nos Estados Unidos, tendo morado na casa do pai durante toda a sua vida. Seus últimos 25 anos de vida foram passados em extrema reclusão em seu quarto. Ela era conhecida por sua reticência em sair em passeios ou em viagens, tendo contato primordialmente apenas com sua família e com correspondentes por carta.

“Além das Palavras” (A Quiet Passion), do diretor Terence Davies, foi lançado em 2016, apresentando uma biografia da vida da poetisa, de sua saída do seminário para moças em Mount Holyhoke, em 1848, até a sua morte, em 1886. Nesse período de quase 40 anos de reconstrução de sua vida, vemos suas relações com os seus familiares, com a fé, com amigos da família e com pretendentes, além de escutarmos, em diversos momentos, seus principais poemas sendo lidos pela voz de Cynthia Nixon, atriz que interpreta sua versão mais velha.

Uma grande questão para realizadores de filmes que pretendem biografar alguém é o quão longo será o recorte da vida do biografado. Ao optar por um recorte mais amplo, o diretor/roteirista pode acabar caindo no problema de ter que lidar com uma narrativa episódica (algo que já comentei na minha crítica sobre “Frida”), que sempre imagino estar dividida no roteiro como se dividem capítulos de um livro: “Seminário”, “Volta para casa”, “Volta de Austin” e assim por diante. No caso de “Frida”, essa foi a forma como os realizadores lidaram com o excesso de acontecimentos importantes em sua vida, mas neste caso, em que Emily Dickinson não teve uma vida em que muitos eventos singulares ocorreram, a escolha de retratar toda a vida adulta da escritora representa um problema. Ela muito provavelmente viveu um grande tédio e uma rotina pouco variável, então, o tipo de conflito que ocorre no filme (apesar de este adotar, pelo menos, o tom tedioso e monocromático da vida da autora) parece algo forçado, especialmente devido a diálogos que não soam nem um pouco naturais. Encarnando o que me parece o tipo de diálogo mais pesado em quantidade (e em dificuldade, diga-se de passagem) de palavras em um filme do qual eu me lembro, os atores não parecem de forma alguma estar falando num contexto casual com as pessoas da própria família. Isso não é um problema dos atores, no entanto – eles fazem o máximo com um roteiro que parece achar que, só porque o ambiente temporal é o século XIX, todas as pessoas do mundo falam entoando poesia ou ideias muito relevantes e bem construídas durante todo o tempo. Alguns momentos, podemos até nos maravilhar com a forma como as ideias, agudas e elaboradas, são trocadas, porém, na maior parte do longa, esse problema é grave o suficiente para constantemente nos tirar do filme, quebrando a suspensão da descrença.

Além disso, é difícil realizar um filme sobre poesia – a linguagem audiovisual, muitas vezes, falha em captar o sentido ou mesmo o tom de poemas escritos, pois estes contam com um suporte linguístico e gramatical que raramente consegue ser transmitido em vídeo. É possível que a produção corra o risco de tentar, também, “ambientar” os poemas com algum tipo de paisagem visual, o que nem sempre colabora para o melhor entendimento do texto, visto que pode limitá-lo. É sobretudo nesse tipo de erro que o diretor de “Além das Palavras” incorre ao inserir no longa os poemas de Dickinson: eles parecem estar ali para comentar certos eventos da sua vida, de uma maneira quase descritiva, como quando os poemas relacionados ao amor são exibidos apenas nos episódios relacionados ao amor romântico que ela pode ter tido por alguns pretendentes. Daí, o significado dos poemas, que já é universalista além do normal por vir de quem vem, é tristemente amputado pelo roteiro, que insiste em os contextualizar. É possível perceber, aqui, uma visão comum: de que eventos da vida de uma pessoa inspiram diretamente a produção de determinada arte, e são a única fonte de ideias para essas obras. Quem pensa assim tem pouquíssima noção não apenas de como funciona o processo criativo, que também depende de outras muitas variáveis além do que acontece na própria vida, mas também da amplitude de interpretações que a poesia é capaz de oferecer. Isso talvez poderia ser resolvido por uma maior inovação na linguagem cinematográfica, como fez “Paterson”, de Jim Jarmusch, ao apresentar na tela os textos escritos, por exemplo, porém “Além das Palavras” é extremamente convencional nesse aspecto. As cenas que não apresentam apenas diálogo entre os personagens (que é filmado no tradicional plano/contraplano) são repetições de convenções cinematográficas já desgastadas, como a que os personagens, jovens, se posicionam na frente do daguerreótipo para tirar retratos e envelhecem na frente das câmeras por meio de truques visuais.

Não é só de defeitos que o filme é feito, porém: e a representação dos paradoxos de sua protagonista, como “mistura de puritana e livre-pensadora” (segundo Conrad Aiken, um crítico de sua poesia) que ela era, é bem-feita e aparece no filme em diálogos com a sua irmã, como no qual ela julga de forma dura o irmão por ter traído sua esposa. Cynthia Nixon traduz bem na tela o sentimento de uma mulher que era mais uma observadora de personalidades do que alguém que deveria lidar com conflitos ela mesma, o que a faz ficar amarga com as desculpas que a humanidade cria para errar e persistir no erro. Ademais, o filme reconhece que estamos tratando de uma pessoa que foi gravemente cerceada pelos limites de seu gênero, e o grande crime, que foi o seu não reconhecimento em vida como “gênia” da poesia, é retratado da maneira correta: mais uma perda imensurável que o machismo provocou.

Exceto por mostrar sua personalidade e pelos poemas, ambos méritos da autora e não do filme, “Além das Palavras” não traz nenhuma nova perspectiva ou ideia que nos possa fazer considerá-lo um grande filme. Se é um desejo seu conhecer mais sobre Emily Dickinson, é mais interessante ir direto à sua mente, aos seus poemas, ao invés de assistir apenas ao limitado retrato de uma máscara social e familiar da autora. ■

“Além das Palavras” está disponível no Google Play, Vivo Play, iTunes e Net Now.

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