Foto: Divulgação

FESTIVAL DO RIO 2017: “Alguma Coisa Assim”, “Prevenge”, “A Festa”, “Em Pedaços”, “Milla”, “Zama” e mais

A 19ª edição do Festival do Rio chegou oficialmente ao fim no último dia 15, mas suas atividades serão encerradas em sua totalidade somente hoje, dia 18, com o fim da repescagem, também conhecida como “última chance”. A cobertura pelo cinematório foi feita por Laura Batitucci e Leandro Luz. Foram 36 filmes assistidos (32 longas e 4 curtas) oriundos de diversos países, dentre os quais 17 são brasileiros (incluindo coproduções) e 16 foram dirigidos por mulheres.

Abaixo estão os últimos nove longas-metragens comentados. Confira todos os textos escritos ao longo da cobertura aqui.



Alguma Coisa Assim | dir.: Esmir Filho e Mariana Bastos

Foto: Divulgação

O século XXI e a pós-modernidade no geral vêm derrubando diversos estereótipos e borrando vários limites que sempre impusemos a nós mesmos, e um dos dilemas do ser humano contemporâneo é ter em si esses limites, mas buscar rompê-los; é saber que tudo é fluido, mas ainda se prender a preconceitos simplesmente porque estes foram cultivados em nós desde sempre. No que se trata de relações humanas, já evoluímos muito, mas ainda reforçamos, mesmo que adaptadas, definições daquilo que vivemos com outros seres humanos, tentando colocar essas experiências em caixinhas tão rígidas que se tornam até mesmo instituições, como o casamento. “Alguma Coisa Assim”, de Esmir Filho e Mariana Bastos, é sobre a evolução de uma relação que não se encaixa em estereótipos de “amor”, “paixão” ou “amizade” aos quais estamos acostumados. O longa se utiliza de cenas de um curta de mesmo nome produzido em 2006, que mostrava Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes) ainda jovens adultos se divertindo em uma noite em São Paulo. Esses personagens são explorados mais a fundo aqui no longa, em que os diretores adicionam cenas em 2013 e 2016 para compor o amadurecimento dessa relação juntamente com o amadurecimento dos protagonistas. Se poderíamos comparar esse filme à trilogia romântica de Linklater, que se inicia com “Antes do Amanhecer” (1995), as semelhanças acabam na ideia de demonstrar uma relação em diferentes pontos no tempo. A ligação entre Caio e Mari não é necessariamente romântica – e são os limites entre o que é amizade e o que poderia ser considerado um romance, além de todas as implicações sociais disso tudo, a serem explorados em “Alguma Coisa Assim”. Para isso, a montagem pula entre as três épocas de forma fluida, criando rimas com os diálogos e trazendo dinâmica ao filme, que seria extremamente monótono caso focasse em apenas um momento da vida desses personagens. Outro mérito é a fotografia, bem diferente nos três períodos da trama, o que funciona para sabermos em que época estamos mas também é uma ótima experiência de diferenciação daqueles momentos que muitos insistem em colocar sob o guarda-chuva estético do “século XXI”. Os movimentos de câmera são precisos e nunca exagerados, e, como exemplo, vale ressaltar a cena em que Mari tem um ataque de pânico em sua cama redonda, filmada com um travelling em 360 que para assim que ela é ajudada por Caio – demonstrando a sensação de tontura e confusão que esse tipo de situação mental costuma trazer, mas também o conforto e a estabilidade que a ajuda externa pode fornecer. Abordando temas difíceis com a complexidade que eles merecem, como a questão do aborto, “Alguma Coisa Assim” demonstra a competência do estudo de personagem que alguns anos de reflexão trouxeram a seus realizadores. (Laura Batitucci)

Prevenge | dir.: Alice Lowe

Foto: Divulgação

“As crianças nos dias de hoje estão muito mimadas: mamãe, eu quero um Playstation, mamãe, eu quero que você mate aquele homem”. Alice Lowe escreve, dirige e protagoniza esta que é uma das comédias mais diretas, sangrentas e satíricas do último ano. Ao emprestar parte de sua biografia para a personagem – a gravidez avançada e o fato de não conseguir outros papéis na indústria por conta de sua condição atual – Lowe concebe uma trama divertida e repleta de comentários sociais: Ruth está grávida (claro) e conversa com a criança em sua barriga; o fato de ser mãe solo talvez seja o motivo para que a criança insista em introduzir na mãe pensamentos homicidas. A primeira cena de já estabelece toda a estrutura do filme ao mostrar Ruth matando o vendedor de uma loja de animais. A serenidade de sua voz é contrastada pelos métodos sempre grotescos e irreverentes de cometer seus assassinatos (sempre com armas brancas, evidentemente, seguindo a tradição dos slasher movies). Com um bom elenco de apoio – destaque para Gemma Whelan e Kate Dickie, mais conhecidas por seus papéis na série “Game of Thrones” – o longa-metragem discute questões atuais muito importantes como a romantização da maternidade e a perda de identidade durante a gravidez. O gênero horror serve muito bem a essas reflexões, e não é à toa que a diretora opta por sempre mostrar a violência da forma mais crua possível, por mais que nunca deixe de lado o humor. O filme se mostra problemático lá pelo final do segundo ato, na medida em que o roteiro insiste em amarrar toda a trama e justificar o injustificável, atribuindo aspectos de drama e investindo em flashbacks (as memórias da morte do falecido marido) pouco inspirados. Como comentário social “Prevenge” funciona muito bem, e o fato da diretora assumir os elementos ao mesmo tempo grotescos e inusitados na concepção de sua narrativa (a voz fina do bebê na cabeça de Ruth, claramente dublada por um adulto, é tão cômica que chega a ser aterrorizante) fazem desta pérola do Cinema inglês independente um excelente exemplar dos gêneros comédia e horror, permitindo diversas leituras e estudos de caso sobre uma personagem complexa e assustadoramente contemporânea. (Leandro Luz)

A Festa | The Party dir.: Sally Potter

Foto: Divulgação

Ao apontar uma arma para a tela, Janet (Kristin Scott Thomas) olha o espectador nos olhos e o convida para sua festa. É desta forma que entramos no universo do tragicômico novo longa-metragem escrito e dirigido por Sally Potter. O texto afiado e a performance impagável de Timothy Spall como Bill, marido de Janet, logo se sobressaem. Todo o elenco, na realidade, funciona bem em conjunto – caso contrário, o filme seria insuportável. Além do casal de anfitriões, um por um seus convidados entram em cena, e as figuras de medalhões como Bruno Ganz e Patricia Clarkson se unem a Cherry Jones, Emily Mortimer e Cillian Murphy numa profusão de acontecimentos e revelações que transformam física e psicologicamente o ambiente que os cerca. Por mais que sempre demonstre leveza e dinamismo, “A Festa” não propõe nada de novo e nem parece chegar a lugar algum, nem se preocupa em preencher os 70 minutos de sua duração com algo além de piadas ora sarcásticas e engraçadas, ora batidas e enfadonhas. A locação única fotografada em preto e branco por Aleksei Rodionov – responsável pelas obras-primas “A Despedida” e “Vá e Veja”, ambas dirigidas por Elem Klimov na década de 1980 – transforma a obra num deleite visual, mas o tom calculista e irônico do roteiro não contribui para o seu sucesso. Aqui há ecos de “Deus da Carnificina”, mas sem a consistência e a ousadia de um Roman Polanski. Em “A Festa”, as ações de seus personagens nunca são levadas às últimas consequências. Pelo contrário, me parece que as tensões criadas são apenas faíscas que jamais explodem. Tudo muito controlado e imaculado. Uma pena, pois o potencial daquela arma apontada para a nossa cabeça logo na primeira cena nos dando boas-vindas certamente parecia anunciar um estrago muito maior do que acabamos efetivamente vislumbrando ao final. (Leandro Luz)

Em Pedaços | Aus dem Nichts dir.: Fatih Akin

Foto: Divulgação

Vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes deste ano, Diane Kruger demonstra competência e força neste último longa-metragem dirigido por Fatih Akin ao interpretar Katja Sekerci, uma alemã casada com um ex-traficante curdo. “Em Pedaços” carrega em sua própria premissa um apelo que o permitirá circular por diversos países do mundo com facilidade e relativo interesse: a protagonista é assolada pela dor ao tomar ciência da morte de seu marido e filho num atentado terrorista. A polícia investiga o caso e conclui que o incidente fora de fato um assassinato, não sem antes interrogar diversas vezes Katja e tentar tirar dela qualquer informação que leve à criminalização do marido para que seja mais fácil identificar seus inimigos e, portanto, os autores do crime. A combinação entre tema relevante e fatos reais é o suficiente para chamar a atenção do grande público, mas não faz do filme algo além de um drama clichê que se apoia no sofrimento de sua protagonista para mover a trama adiante. Dividido em três capítulos (nomeados “em família”, “justiça” e “o mar”), o longa consegue ser entediante no início, burocrático na maior parte do tempo e ensaia alguma vibração no terço final, mas infelizmente retorna ao tédio antes de seu término. Akin se vale de elementos óbvios na construção de sua narrativa, como fica bem evidente na utilização de uma câmera documental que registra momentos de afeto da família de Katja, e nas cenas escritas com o único propósito de chocar o espectador e conferir mais densidade ao drama vivido pela protagonista. Chama a atenção, por exemplo, a péssima sequência envolvendo uma tentativa de suicídio, estilizada ao máximo e sem que as consequências do ato sejam sentidas em nenhum momento pelo personagem. Particularmente adoro filmes de tribunal, e “Em Pedaços” se torna um deles no segundo ato. Uma pena que o faz de forma absolutamente burocrática, à exceção de dois planos inspirados – um que utiliza bem a técnica do split focus, mantendo sempre o rosto da protagonista em primeiro plano ao mesmo tempo em que deixa todo o fundo igualmente em foco; outro que utiliza o dolly zoom, a famosa técnica imortalizada por Hitchcock em “Um Corpo Que Cai”, para imprimir um sentimento de urgência num momento-chave do filme. O tribunal se transforma em purgatório, e quem o frequenta é Katja, e não os neonazistas responsáveis pelo atentado à sua família. Uma vez que a justiça não cumpre seu objetivo, o filme conduz a protagonista numa jornada de vingança que poderia até remeter a uma boa sessão do Supercine (saudades, Charles Bronson!), mas a obsessão de Akin pelo estado psicológico de sua personagem não o permite nem ao menos divertir-se. O final se arrasta por uma obviedade sem tamanho e o diretor ainda arruma tempo para ensinar aos espectadores como se faz uma bomba caseira (sim, isso realmente acontece). A palavra/explosão final fica por conta de Katja, e a fumaça que preenche a tela no último plano do filme só poderia mesmo nos conduzir a uma reflexão cinza e deteriorada de tudo o que acabamos de testemunhar. (Leandro Luz)

Eu Não Sou uma Feiticeira | I Am Not a Witch dir.: Rungano Nyoni

Foto: Divulgação

Quando combinamos sátira com tristeza e dor no Cinema uma espécie de melancolia e sensação de desconforto tomam conta das imagens. “Eu Não Sou uma Feiticeira” está interessado justamente neste entre-lugar: a fantasia dos gestos combinada com a dureza da geografia local; os diálogos inventados e a composição satírica de seus atores – com exceção da protagonista, interpretada por Maggie Mulubwa, que parece a todo instante trabalhar com o palpável, sempre com o pé na realidade bruta onde se encontra. Uma comunidade convive com bruxas que são caçadas, aprisionadas e realizam alguns trabalhos para o governo. Uma garotinha de oito anos é também acusada de bruxaria. “Ela não tem parentes”, aponta uma mulher, sendo este e o fato da criança jamais negar ou confirmar a acusação um dos poucos argumentos que apresenta para incriminá-la. Num rápido julgamento, Shula é condenada e forçada a conviver no acampamento com as outras bruxas. Logo na primeira cena do filme observamos um grupo de turistas tirarem fotos e interagirem com as mulheres-bruxas que estão sentadas no chão dentro de um cercado. Imediatamente alguém pergunta se elas podem voar. A resposta é “sim, elas poderiam voar até a Inglaterra se quisessem, e matam quando voam”. Ao notar os rostos assustados dos turistas o guia logo os tranquiliza, dizendo que a fita branca presa em suas costas a tornam inofensivas e não as deixam fugir dali. Essa espécie de fita é também amarrada nas costas de Shula, que é presa num casebre e instruída a tomar a grande decisão de sua vida: ou assume sua natureza de bruxa ou corta a fita em suas costas, o que a transformará imediatamente numa cabra. Sem muita escolha, a garota aceita seu próprio destino. No diálogo com as outras mulheres ali aprisionadas e com o oficial que a submete a diversas situações insólitas, acompanhamos a trajetória de Shula sem saber muito bem quais as analogias exatas pretendidas pela roteirista e diretora Rungano Nyoni, que acerta ao dar mais espaço à contemplação e ao lirismo no terceiro ato, mas peca na construção geral do ritmo de seu filme, deixando algumas cenas mais monótonas do que intrigantes. A última sequência, entretanto, é poderosa e encerra o filme de maneira tocante ao trazer a chuva (constantemente citada ao longo de toda a trama, porém jamais materializada até então) como elemento libertador e apocalíptico para as suas personagens. (Leandro Luz)

Milla | dir.: Valérie Massadian

Foto: Divulgação

O primeiro plano de “Milla” já é o prenúncio do que veríamos até o fim: a câmera fixa registra um casal que dorme dentro de um carro velho; o quadro é bonito e bem composto – o vidro está embaçado e a imagem do casal é levemente borrada, sugerindo aconchego e doçura. O grande revés do filme é que seus planos subsequentes não ostentam a mesma beleza/função narrativa e são tão ou mais longos do que este, numa tentativa de conferir peso ao cotidiano de uma protagonista que por mais que tenha muito tempo de tela pouco expressa suas angústias. Valérie Massadian dialoga com um universo indie meio batido já, e à exceção de quando tenta fugir do óbvio, sua narrativa vagarosa e rígida mais afasta do que nos transporta para o universo da trama – a cena musical envolvendo um duo de guitarra e voz num quarto de hotel é particularmente interessante, mas é uma pena que momentos como este são raros nas duas horas e oito minutos de projeção. Milla tem dezessete anos e vive com seu namorado sem muito se preocupar com as expectativas que a sociedade impõe a jovens como ela. As responsabilidades e preocupações, contudo, surgem a cabo de alguns acontecimentos que jamais ganham grandes dimensões. Morte e vida são encaradas por Massadian assim como o trabalho e as obrigações sociais. Nada é maior do que deveria, e o estado de torpor da protagonista se intensifica até o terceiro ato do filme, quando a inclusão de um novo personagem muda a perspectiva das coisas e garante alguns momentos que mesmo contemplativos soam divertidos e efêmeros. Milla é interpretada com sutileza por Severine Jonckeere, que aparentemente empresta muito de sua persona para a composição da personagem – seria uma tarefa quase impossível fazer com que a criança que entra em cena no terço final do longa se comportasse da mesma maneira caso estivesse contracenando com outra pessoa que não sua própria mãe – fato que fica ainda mais evidente quando, ao ser questionada sobre o pai, a criança responde que ele está no céu (sim, o pai da criança morre no filme – e muito provavelmente também na vida real); existe a possibilidade dessa história não conter aspectos biográficos de sua atriz principal? “Eu não trabalho com atores, eu trabalho com pessoas”, revela Massadian em entrevista a Matt Turner, deixando bem claro o que já havíamos sacado pela própria obra. “Milla” não à toa carrega o nome de sua personagem principal, que no último plano termina com um pequeno e sutil sorriso no rosto trazendo de volta a ternura do primeiro plano, mas que não anula boa parte do marasmo registrado e mantido pelo corte final. (Leandro Luz)

Lobisomem | Werewolf dir.: Ashley McKenzie

Foto: Divulgação

A diretora canadense Ashley McKenzie demonstra muita personalidade em seu primeiro longa-metragem. “Lobisomem” tem belíssimos planos que ganham força e significados múltiplos e poderosos ao serem interpretados: a escolha por trabalhar frequentemente com closes e planos detalhe permite que fiquemos mais conectados aos personagens, ao passo que jamais conseguimos compreender seus sentimentos com precisão, justamente por sempre enxerga-los apenas em parte, física e psicologicamente. Os enquadramentos inusitados dão conta desse objetivo, e constantemente somos expostos aos corpos dos protagonistas por partes (as pernas de um, o tronco de outro; as cabeças cortadas e os braços que parecem flutuar no espaço vazio). Fica bem claro que a câmera de McKenzie é obcecada por aqueles corpos brancos e esguios, e também por suas ações e reações um perante o outro. “Pode ser muito ameaçador quando a pessoa muda”, diz um médico para um deles. Essa frase dá conta de um dos maiores dilemas do filme: até que ponto estamos preparados, como seres humanos, para lidarmos uns com os outros e até onde vai a nossa capacidade de amar e ser amado sem que nos machuquemos? As respostas não nos são dadas, mas algo ainda melhor e mais amplo nos é oferecido: o cotidiano desse casal viciado na própria cura. Dependentes de metadona, narcótico utilizado no tratamento dos toxicodependentes de heroína e de propriedades semelhantes às da morfina, Nessa (Bhreagh MacNeil) e Blaise (Andrew Gillis) precisam diariamente bater de porta em porta oferecendo serviços de jardinagem com um cortador de grama velho para pagar as despesas médicas e sustentar o próprio vício. Obviamente as doses controladas e medicinais da substância não os saciam, e logo a necessidade de conseguir cada vez mais os leva a cometer atos duvidosos e as consequências não são nada favoráveis. A montagem da é também assinada por McKenzie numa aparente tentativa de garantir um controle absoluto para que a trama não se transforme num filme convencional sobre o uso de drogas, e por mais que o ritmo do filme seja prejudicado no processo, seu objetivo é alcançado. Alguns excessos narrativos destoam do aspecto geral e soam deslocados, como as imagens de um jogo de videogame que em determinado momento preenchem a tela, mas nada que apague a consistência da obra. “Lobisomem”, no final das contas, é tão enigmático quanto seu próprio título, e suas imagens mais potentes – um cortador de grama em primeiro plano que separa o casal em dois extremos do quadro sendo a mais marcante delas – resguardam a melancolia e a força de uma fábula traduzida no cru e documental estilo de sua realizadora. (Leandro Luz)

Last Flag Flying | dir.: Richard Linklater

Foto: Divulgação

Linklater sabe como ninguém escrever seus personagens e filmar um diálogo simples entre eles. No caso de “Last Flag Flying”, seu longa-metragem mais recente, somos atravessados pelas personalidades distintas de três ex-combatents que serviram juntos na Guerra do Vietnã e se reúnem depois de 30 anos para enterrar o filho de um deles, morto na Guerra do Iraque. A trama se passa em 2003 e carrega consigo, mesmo que tangencialmente, diversos questionamentos envolvendo as figuras de George W. Bush e Saddam Hussein e todas as contradições da guerra travada entre Estados Unidos e Iraque – e é desconfortável constatarmos que ao final do filme Linklater economiza nas críticas e suaviza bem mais a questão do que deveria. Steve Carrell é o simpático e sossegado Larry ‘Doc’ Sheperd que busca o reencontro com o infame Sal Nealon, interpretado por um hilário Bryan Cranston, que deita e rola nas piadas de seu personagem, e Richard Mueller, pastor vivido por Laurence Fishburne, hábil ao construir um personagem com um passado tão grosseiro que seria impossível acreditarmos em sua transformação caso não fosse vivido por um ator tão talentoso. À contragosto de Mueller, os três embarcam numa jornada que poderia soar apenas piegas e cafona, mas que ganha tons verdadeiramente sensíveis graças à competência de Linklater ao construir cenas visualmente elegantes e de timing perfeito – como é o caso do divertidíssimo diálogo envolvendo a compra de um aparelho celular (ainda novidade no início daquela década) nas ruas de Pittsburgh. Se em “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes” Linklater propôs uma continuação espiritual de seu clássico de 1993, aqui ele embarca numa proposta parecida, mas desta vez toma como ponto de partida o filme de outro realizador. “A Última Missão”, de Hal Ashby, foi a obra que serviu de inspiração para a confecção do roteiro de “Last Flag Flying”, e se naquele havia toda uma subversão de linguagem e comportamento (o ano era 1973 e a Guerra do Vietnã só terminaria em dois anos), neste presenciamos um exercício muito mais leve e emotivo, mas que também traz suas reflexões e provocações perante à sociedade estadunidense e sua hegemonia perante o mundo. (Leandro Luz)

Zama | dir.: Lucrecia Martel

Foto: Divulgação

O realismo fantástico de época dá o tom de “Zama”, novo filme de Lucrecia Martel após nove anos desde o lançamento de seu último longa, “A Mulher Sem Cabeça”. Seguimos de perto o cotidiano e a vida de Don Diego de Zama, um fidalgo da Coroa espanhola que se encontra em Assunção, aguardando sua possível transferência para Buenos Aires. Zama é um homem deslocado em seu lugar, e o encontramos diretamente na praia, sozinho, sem nenhuma informação prévia sobre sua origem ou o lugar o qual estamos observando. A partir daí, segue-se não uma série de batalhas épicas ou caças emocionantes (como talvez esperaríamos de um filme de época hollywoodiano), mas as impressões de Zama sobre aquilo que o cerca e a representação de uma certa atmosfera mágica e traiçoeira que paira sobre o lugar. A fotografia e a direção de arte se combinam para nos mostrar um século XVIII em que a natureza parecia invadir o espaço do homem colonizador e impedi-lo de cumprir seu pretenso destino. Nisso, o uso de cores se torna essencial, principalmente no terceiro ato, onde temos contrastes muito fortes entre o vermelho e o verde que, além de úteis para entendermos os momentos de ação, representam a interação entre o homem e o espaço em que habita (ou tenta habitar, à força). Martel transmite essas sensações também por meio de um design de som que se preocupa não com sincronias ou com a descrição exata do som ambiente de uma cena, mas principalmente com as impressões psicológicas de Zama em um determinado momento: somos a todo o tempo levados junto a ele nas suas vertigens com o aumento descomunal de algum som ambiente na faixa sonora do filme. O longa me lembra um pouco outra produção brasileira de época deste ano, “Joaquim”, de Marcelo Gomes, especialmente pela forma de aproximação da narrativa do homem histórico: sem glamour, sem uma romantização excessiva, interessados em um novo olhar sobre nosso passado. A diferença principal neste de Martel é a presença de elementos de realismo fantástico aqui e ali, seja na figura do filho do Oriental, que nos introduz à personalidade de Zama com um discurso impossível para um garoto de sua idade; seja no personagem de Matheus Nachtergaele, que surge apenas ao final do filme circundado por mistérios sobre sua real personalidade. O ritmo do filme, em alguns momentos, pode parecer lento demais, mas acompanha o tempo de um mundo em que os fatos também demoravam a acontecer, com intervalos de um tédio enlouquecedor entre eles. Se há um tema discutido aqui, é esta lenta decadência de um homem que não consegue o que ele quer no mundo hostil e incapacitante que o cerca. (Laura Batitucci)

%d blogueiros gostam disto: