O feminino e o horror nos curtas de Juliana Rojas

Além da presença constante da temática da morte, a maternidade e as relações de trabalho são outras recorrências na obra de Juliana Rojas, cineasta brasileira premiada pelo musical “Sinfonia da Necrópole” (2014) – baseado na versão reduzida para a TV, “A Ópera do Cemitério” (2013) – e pelos longas realizados com o parceiro recorrente Marco Dutra, “Trabalhar Cansa” (2011) e “As Boas Maneiras” (2017).

Três Planos, Nove Planos (1999)¹ é um exercício inicial de divisão de cenas na carreira cinematográfica da diretora, e já apresentava um flerte com o bizarro — experiência que pode inclusive ser relacionada à estreia de David Lynch no também repetitivo “Six Men Getting Sick (1966). No mesmo ano, ela desenvolveu o monocromático “Dancing Queen (1999)², inspirado por texto de Nietzsche. Seu estilo ficaria melhor delimitado em “Notívago(2003)³, que mantém o tom sério, sem espaço para momentos de alívio cômico, ao observar uma mulher que enfrenta o silêncio na casa vazia após o suicídio do irmão.

No curta de 2004, “O Lençol Branco“², Rojas entende a relação da mãe com o filho de forma diferente da convencional, colocando a maternidade como uma condição aterrorizante para a mulher. O desfecho esbarra no grotesco quando a protagonista rouba para si a mão do filho morto ainda bebê, interferindo no pequeno corpo pela última vez.

Apesar das ocorrências sinistras, há muito humor irônico em “Nenhuma Carta para o Senhor Fernando (2005), em que o personagem-título encontra um corpo morto em lugar de seu apartamento. No também surreal “Um Ramo (2007)², por sua vez, a protagonista Clarisse (Helena Albergaria) nota que uma folha está crescendo em seu braço, primeiro passo para “virar árvore”, como nos poemas de Manoel de Barros, evento trágico-poético e mutação definitiva da mulher que ela costumava ser. No menos estilizado, “Vestida (2008), Cláudio retorna para a casa de sua família, no campo, para acompanhar o enterro de sua mãe.

EmPra Eu Dormir Tranquilo (2011) – que novamente pode ser comparado ao trabalho de Lynch em “A Avó“(1970) – uma babá reúne características de vampiros e zumbis, fundidas em sua identidade estável. O vampiro, ou melhor, a vampira, criatura monstruosa por não se tratar de um ser humano completo, já tinha sido abordada por Rojas em “A Criada da Condessa (2006), e a dinâmica patroa-doméstica é novamente trabalhada no kitschDesculpa, Dona Madama (2013) – com Gilda Nomacce e Helena Ignez, lenda viva do cinema nacional – perturbador na trilha sonora, sonoplastia e textura das imagens, ora saturadas, ora envelhecidas. No premiado “O Duplo (2012), a protagonista Silvia (Sabrina Greve) sofre alterações em sua personalidade depois da aparição de seu doppelgänger no colégio onde leciona, gerando um horror mais puro e visceral do que nos outros filmes.

Um triângulo amoroso é formado por um casal e a psiquiatra da esposa doente, que se perde pela floresta à noite no gótico “As Sombras (2009)². Outro casal foge para o espaço em “Nascemos Hoje, Quando o Céu Estava Carregado de Ferro e Veneno (2013) – um dos seguimentos de “Desassossego – Filme das Maravilhas” (2010), que não recomendo! – mistura de ficção científica, romance e musical. Até mesmo “Marcia Barbosa em A Origem da Inspiração (2013), único documentário de Rojas, encontra espaço para um breve e improvável toque de terror, quando uma luz falha e o laboratório do colégio se torna escuro.

O obra de Juliana Rojas se insere entre o horror e a representação do feminino com maestria, proporcionando experiências estéticas pouco usuais no nosso cinema e uma nova roupagem para o gênero, que tantas vezes já se mostrou misógino, punitivo e conservador.

Veja o vídeo em que comentamos os curtas da cineasta:

Ouça também o Podcast do Feito por Elas sobre Juliana Rojas.


¹ Codirigido com Carla Adili e Marco Dutra.

² Codirigido com Marco Dutra.

³ Codirigido com Daniel Turini e Marco Dutra.

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