"Deslembro" (2018) - Foto: Imovision/Divulgação
"Deslembro" (2018) - Foto: Imovision/Divulgação

“Deslembro”: Memórias roubadas

No poema que dá título a “Deslembro”, Fernando Pessoa escreve que “meu passado / não sei quem o viveu. Se eu mesmo fui, / está confusamente deslembrado / e logo em mim enclausurado fui”. E essa confusão é o grande ato de crueldade no centro do segundo longa-metragem, e primeiro de ficção, da diretora Flávia Castro (“Diário de uma Busca”).

Mais do que um filme sobre memória, ele é a história de uma menina que tem suas memórias roubadas. Que, ao passar por um trauma que nenhuma criança seria capaz de entender, tem sua relação e suas lembranças com o pai distorcidas e estraçalhadas. E, ao confrontar o fato de que ele foi desaparecido pela ditadura sem maiores explicações, perde um pedaço de sua história, ficando um vazio onde ele devia estar – algo que o regime militar fez com milhares de famílias no Brasil. (E, num ato de violência indescritível, até o direito a essa memória está sendo ameaçado, apagado e reescrito na atual eleição).

E é por não querer encarar todo esse horror que Joana (a revelação Jeanne Boudier), compreensivelmente, não quer retornar ao Brasil. Ela é uma adolescente vivendo no exílio em Paris com a mãe (Sara Antunes), os dois meio-irmãos e o padrasto Luís (Julián Marras), em 1979. Quando a anistia é decretada, a família decide retornar para o Rio, mas a jovem não quer voltar para um país onde “torturam e matam pessoas” – leia-se, onde seu pai foi torturado e morto.

Joana perde a queda de braço, obviamente. E como toda adolescente em crise, resiste ao novo lar, insistindo insolentemente em conversar em francês e isolando-se em seus livros. Eventualmente com a ajuda da avó Lucia (Eliane Giardini, ótima), porém, ela vai encontrar a coragem para encarar as lembranças que o país lhe desperta – e aceitar sua história, o lugar que ocupa nela, e o lugar que ela ocupa dentro de si mesma.

E da belíssima fotografia de Heloísa Passos (“Construindo Pontes”) à edição de som de Edson Secco, “Deslembro” é um filme sobre essa memória, e como ela se manifesta. Os planos fechados, e nem sempre discerníveis, são muitas vezes pedaços de imagens (como o rosto nunca visto do pai). Os diálogos se sobrepõem a planos que vêm antes ou depois deles, nem sempre sincronizados, mais como uma lembrança do que uma cena em si. E o significado que nossos sentidos conferem a um cheiro, uma foto, ou uma música – pouco mais de 1 ano depois de “Arábia”, “Três Apitos” vai te fazer chorar de novo numa das cenas mais bonitas do filme – é fundamental.

Para que isso tudo funcione com tamanha sensibilidade, porém, Flávia conta com a descoberta que é Jeanne Boudier. Alternando sem hesitação entre o francês e o português, nunca escondendo a arrogância imatura e adolescente de Joana, e carregando no olhar todas as dúvidas e o turbilhão interior da protagonista, a atriz estreante está em quase todas as sequências do filme, com uma presença de cena e uma naturalidade impressionantes.

“Deslembro” é, em grande medida, também sobre o peso que recai sobre as famílias de quem decide militar politicamente. Com isso, a mãe de Joana é, intencionalmente, uma grande ausência na história, procurando emprego ou preocupando-se com o envolvimento do marido com os sandinistas. E a protagonista é obrigada a crescer antes da hora, cuidar dos irmãos, entender a complexidade política de um mundo autoritário, e que algumas perguntas simplesmente não têm resposta. Isso é demais para qualquer adolescente, e a impossibilidade desse fardo desaba em uma cena no final, em que Boudier vai partir seu coração em mil pedaços.

Essa relação truncada e distante com a mãe é representativa ainda de outro grande argumento do filme: sobre como temos dificuldade no Brasil de falar, e assumir, que tivemos uma ditadura. Que pessoas foram torturadas, mortas, desaparecidas. Que famílias foram destruídas, e mães nunca enterraram seus filhos. E o resultado desse silêncio é o momento político que estamos vivendo agora. Com “Diário de uma Busca”, e agora “Deslembro” – uma gema sensível, pungente e delicada, como os melhores exemplares do cinema latino do gênero – Flávia Castro quer acabar com esse apagamento. E quebrar de vez esse tabu. Porque nossas memórias são quem nós somos. ■

Texto escrito como parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo. O crítico viajou a convite da Mostra.

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