Cinematorioteca: Filmes brasileiros que refletem sobre o trabalho

Estreando nossa #Cinematorioteca, neste 1º de Maio, que tal nos voltarmos aos filmes brasileiros que refletem sobre o trabalho?

Vidas Secas (1963)

Obra-prima de Nelson Pereira dos Santos, baseada no clássico homônimo de Graciliano Ramos, foi indicado à Palma de Ouro do Festival de Cannes de 1964. Aborda a luta do trabalhador rural nordestino, nos anos 40, por meio da história de uma família de retirantes no sertão de Alagoas: Fabiano (Átila Iório), Sinhá Vitória (Maria Ribeiro), dois filhos pequenos e a cachorra, Baleia (participação canina inesquecível). A busca por trabalho, dignidade e sobrevivência em meio a aridez e secura da terra, a desigualdade social e um sistema que explorador. 

 

Eles Não Usam Black-Tie (1981)

De Leon Hirszman, baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri. Na narrativa, Otávio (Gianfrancesco Guarnieri) é militante sindical que organiza um movimento grevista para reivindicar direitos e resistir às práticas exploradoras da metalúrgica onde trabalha. Seu filho, Tião (Carlos Alberto Riccelli), também trabalha lá, mas a mulher com quem tem um relacionamento amoroso está grávida, o que o deixa com medo de perder o emprego. Ele acaba não aderindo à greve. Com isso, instala-se uma crise, que também afeta Romana (Fernanda Montenegro), a matriarca, que se vê dividida.

 

Garotas do ABC (2003)

Dirigido por Carlos Reichenbach, o filme ganhou os prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Ênio Gonçalves e Melhor Atriz Coadjuvante para Vera Mancini, além do Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Com foco na vida do proletariado feminino, a história é sobre um grupo de operárias do ABC paulista, entre trabalho intenso, machismos, sonhos e frustrações. Dentre elas, Aurélia (Michelle Valle), jovem negra que trabalha em uma indústria têxtil e começa a namorar um rapaz branco envolvido em um grupo fascista.

 

Peões (2004) 

Filme de Eduardo Coutinho que mergulha na história pessoal de metalúrgicos do ABC paulista que participaram do movimento grevista de 1979 e 1980. Os trabalhadores falam de suas trajetórias desde a origem do movimento, incluindo suas visões sobre Lula como líder sindical que emerge dali, até os caminhos que eles seguiram depois. O documentário é vencedor do Prêmio Candango de Melhor Filme e do Prêmio da Crítica no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

 

Que Horas Ela Volta (2015)

Escrito e dirigido por Anna Muylaert, o filme é vencedor de vários prêmios em festivais nacionais e internacionais. Na história, Regina Casé interpreta Val, mulher que deixa sua filha aos cuidados de parentes no interior de Pernambuco para buscar melhor condição de vida em São Paulo. Na capital paulista, ela mora na casa dos patrões, que são de classe média alta e há 13 anos a contrataram como babá do filho do casal, Fabinho. A filha de Val, Jéssica, resolve ir para São Paulo também, para prestar vestibular, e é recebida nesta casa. Mas sua presença desestabiliza tudo, pois ela não segue o “protocolo” esperado e aos poucos evidencia a desigualdade social, contradições e dinâmicas de poder naquele microcosmo que representa relações trabalhistas e familiares há muito tempo comuns na sociedade brasileira.

 

Arábia (2017)

De Affonso Uchôa e João Dumans, outro grande filme do cinema brasileiro contemporâneo premiado em festivais pelo mundo. Na narrativa, ao encontrar o diário de um trabalhador, numa vila operária em Ouro Preto, o jovem André (Murilo Caliari) entra em contato com a comovente trajetória de vida de Cristiano (Aristides de Sousa), em meio às mudanças sociais e políticas do Brasil nos últimos dez anos. A trilha sonora é um dos destaques, com Maria Bethânia, Renato Teixeira, Racionais MC’s, entre outros.

 

Modo de Produção (2017)

Dirigido pela pernambucana Dea Ferraz, o documentário estreou em alguns cinemas brasileiros pouco antes do fechamento das salas devido à pandemia do novo coronavírus. A narrativa faz do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Ipojuca, Canela e Nossa Senhora do Ó seu personagem central. Um lugar por onde passam, a cada dia, vários trabalhadores rurais, com suas vidas talhadas pela cana. Aposentadorias, demissões, relações de trabalho e um suposto desenvolvimento econômico-social que se avizinha como uma miragem distante ou, quem sabe, fantasma: o Porto de Suape. O filme faz refletir sobre como a Justiça brasileira media a relação capital-trabalho no caso dos trabalhadores rurais, a importância dos sindicatos e os longos impasses de mecanismos burocráticos. 

 

Estou me Guardando Para Quando o Carnaval Chegar (2019)

Este é o primeiro documentário do cineasta Marcelo Gomes, já premiado e reconhecido por filmes ficcionais como “Cinema, Aspirina e Urubus” (2005) e “Viajo Porque Preciso Volto Porque Te Amo” (2010). O longa nos apresenta à pequena cidade de Toritama, no agreste pernambucano, em que praticamente todos os moradores trabalham sem parar em fábricas caseiras (chamadas facções) de produção de jeans. O local é conhecido como a “capital do jeans”, responsável por 20% da produção nacional. Nas falas dos toritamenses, o orgulho de serem “patrões de si mesmos”, terem “liberdade” para fazer seus horários e estarem ganhando dinheiro. Mas concorrer com todos os vizinhos e ganhar por produtividade acaba fazendo com que essas pessoas se entreguem a uma lógica neoliberal e capitalista, de trabalho intenso e precário, sem garantias trabalhistas. Somente o período do Carnaval guarda um respiro.

 

Chão (2019)

O documentário de Camila Freitas teve distribuição nos cinemas adiada devido ao novo coronavírus. Do tipo observacional, acompanha o cotidiano de um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, em Goiás. Entregando uma narrativa que contribui significativamente na luta contra à iminente criminalização do movimento e suas lideranças, o longa mostra o dia-a-dia dos trabalhadores, gestos da agricultura familiar, afetos e protestos em oposição às paisagens monocromáticas do agronegócio.

 

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