"Vaga Carne", Foto: Andrea Capella

“Vaga Carne” e a voz que transcende

“Vaga Carne” fala de existências. E para isso escolhe uma personagem inusitada: uma voz que adentra diferentes corpos e que agora está no corpo de uma mulher negra. Sendo o média-metragem uma transcriação da peça homônima que mantém sua característica teatral, é inevitável a curiosidade pela sua versão para os palcos, pois logo se imagina que toda a intensidade de Grace Passô, vista e sentida pela mediação do aparato cinematográfico, deve ser ainda mais potencializada pela presença e temporalidade que só o teatro proporciona. O que não quer dizer que o filme não seja intenso. Muito pelo contrário. Ele provoca o tempo todo, fazendo com que som e imagem ora ressoem dentro de nós como um grito contido que temos e que foi libertado, ora sejam repelidos ou incomodem.

O filme começa com uma tela escura onde só se ouve a voz, não se vê nenhuma imagem. A apresentação da protagonista que não se limita à matéria não poderia ser diferente, uma vez que ela pode estar em tudo ou em nada ao mesmo tempo e o que interessa é ouvi-la. A partir do momento que ela escolhe o corpo que habitará, passamos a acompanhar, pelo lado de fora, sua trajetória nas estruturas internas da nova “moradia”. Nossa imaginação é instigada a viajar pelo que compõe biologicamente essa mulher-casa, enquanto pensamos sobre a consciência que se apoderou dela. E nisso, vemos toda a tensão entre o que é dito e a expressão do corpo, seu movimento. O físico reage ao que é impalpável e vice-versa. Às vezes isso parece um duelo, às vezes uma conversa. O poder da palavra e do corpo, juntos ou separados.

Questões íntimas se misturam a questões coletivas que afetam existências em suas mais variadas formas, como o racismo, machismo, gênero, maternidade e resistência, por exemplo. E toda uma reflexão sobre a condição social do corpo de uma mulher negra atravessa a investigação de dentro para fora dessa identidade, ao mesmo tempo em que somos convidados a pensar como nos relacionamos com ela, com outros indivíduos e com nós mesmos, considerando, ainda, a dualidade que todos carregamos da vida interior e exterior; somos, simultaneamente, solidão e convivência.



A peça teatral é um monólogo e a interação se dá com a plateia. Em sua versão para o cinema, Grace Passô e Ricardo Alves Jr., parceiros criativos que dividem a direção do média-metragem, transpõem o público para as imagens por meio da presença de pessoas negras importantes do cenário cultural mineiro, que representam, também, uma pluralidade de vozes, corpos, subjetividades, transcendências, diálogos e embates. Nomes como Zora Santos, André Novais (diretor de “Temporada”, no qual Grace interpreta a protagonista), Sabrina Rauta, Aline Vila Real, entre outros. E o quanto emociona quando uma dessas participações é da grandiosa Dona Jandira, que canta um samba à capela! Ela intensifica a força da arte que pulsa a todo instante em nossos corpos enquanto vemos o filme e que transborda para além da sessão. 

Nota:

Texto publicado originalmente em 22 de janeiro de 2019 como parte da cobertura da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Set de
Set de “Vaga Carne” – Foto: Renato Silveira/cinematório
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