"Meu Pai" (The Father, 2020), de Florian Zeller - Divulgação

“Meu Pai”: o tempo como desafio ao humano

A história da humanidade é uma história sobre controle. No percurso evolutivo do ser humano é inegável sua sede de domínio sobre o espaço, sobre o tempo, sobre seus semelhantes e sobre si. No entanto, de Nietszche e seu super-homem dominante e metafísico a Machado de Assis e seu alienista vacilante entre a normalidade e loucura, ninguém consegue explicar a força de interpretação de Anthony Hopkins, transparecendo pura vulnerabilidade ao se desmontar em lágrimas no colo de uma enfermeira em uma casa de repouso.

Renomado pelo papel do frio assassino Hannibal Lecter em “O Silêncio dos Inocentes” (1991), de Jonathan Demme, Anthony Hopkins tem no filme “Meu Pai”(2020) a prova absoluta de sua metamorfose interpretativa ao compor aspectos da fragilidade humana quanto ao controle de suas próprias referências de realidade durante o infortúnio do Alzheimer ou outros tipo de demência.

O longa-metragem é baseado na peça teatral de criação do próprio diretor, o também dramaturgo, Florian Zeller. O roteiro foi escrito por ele em parceria com Christopher Hampton. Na história, o personagem-título, Anthony (Hopkins), é um homem de 80 anos que, apesar  das dificuldades em decorrência da idade avançada, é resoluto quanto a sua independência para cuidar de si. Sua filha Anne (Olivia Colman), no entanto, percebe as necessidades e, além de ajudar o pai constantemente, contrata enfermeiras para acompanhá-lo em casa. Anthony, porém, recusa todas, tornando a vida da filha cada vez mais difícil.

A narrativa é toda contada pela perspectiva do próprio Anthony que mistura seus momentos de lucidez e confusão mental, acontecimentos do presente e do passado. O roteiro e a montagem são primorosos, conectando profundamente o espectador e a espectadora às cenas, de modo que a descoberta sobre a demência de Anthony seja progressiva. O filme é tão imersivo que é possível sentir na pele a aflição da personagem principal em não conseguir entender o que está realmente acontecendo. O descontrole sobre o discernimento entre a realidade presente e pretérita associado à mistura de lugares e pessoas é angustiante.

O roteiro também acerta ao sugerir que todas as lembranças presentes nas confusões mentais de Anthony aconteceram em algum momento da realidade, nenhuma delas contém pessoas ou fatos que decorrem de invenções fantasiosas. Há um verdadeiro embaraço na fita magnética de sua lembrança que dificulta a orientação temporal e espacial. Por exemplo, Anthony sempre comenta como sua outra filha Laura (Imogen Poots) é especial, mas não entende porque há tanto tempo ela não o visita. Com algumas pistas, subentende-se que a garota faleceu, mas Anthony, apesar de não vê-la, lembra-se dela como se fosse viva e como se estivesse apenas distante (possivelmente devido ao trauma da perda); ele também projeta a imagem da filha falecida em uma de suas cuidadoras, dizendo sempre que elas se parecem muito.

Outra situação marcante para a personagem é a mudança de país da filha Anne. Talvez um ponto mais difícil de decifrar na narrativa, pois não se compreende se Anne realmente mudará para a França, se mudou em outro momento, ou se até mesmo já está na França. Esse assunto abala tanto Anthony que ele não se esquece da mudança de país, e, inclusive, sempre repete a mesma piada sobre os franceses não falarem inglês. Fica evidente, assim, sua preocupação com uma possível ausência de Anne, a pessoa com quem ele tem maior vínculo afetivo.

“Meu Pai” (The Father, 2020), de Florian Zeller – Divulgação

Aliás, o contexto da filha Anne está em segundo plano na história, porém traz um debate moral bastante importante que envolve a necessidade de cuidar do pai em estado de Alzheimer versus a vontade de viver a própria vida, após tanto tempo cuidando dele, que não aceita ser tutelado por enfermeiros ou mudar-se de casa. E ainda, percebe-se que cada dia mais sua condição de demência se agrava.

“Meu Pai” é uma obra comovente que de forma dolorosa aponta como somos seres frágeis, nos lembrando da possibilidade de ficarmos aquém do domínio de nossa própria sanidade quando nos aproximamos do fim da existência. O próprio filme faz um paralelo metafórico com a ideia de tempo, pois Anthony nunca se lembra de onde colocou seu relógio e se mantém apegado ao objeto, querendo tê-lo sempre consigo. A ironia de querer saber as horas, mas esquecer-se delas inconscientemente.

Entre os rompantes de retomada de sua persona viril, saudável, no controle de tudo, quase super-humano, com o seu relógio no pulso, e a contraposição dos momentos de lucidez sobre a própria demência, notando que está mesmo confuso e que dia após dia não sabe qual a verdade sobre o seu próprio tempo, é construida a complexidade dessa vivência. Atônito em uma casa de repouso, enclausurado como o Alienista, mas um personagem machadiano que se encolhe na solidão e no choro copioso enquanto perde as folhagens da vida.

É um filme feito para que tenhamos uma experiência real de desorientação e de uma realidade vivenciada por muitos idosos e suas famílias, seja em grandes apartamentos, casas simples ou quartos de asilos. Além disso, nos faz refletir e sentir sobre as impermanências da vida e a falta de domínio sobre o próprio corpo e a própria mente. Como seres humanos, somos finitos e dependentes de algumas incontroláveis mudanças da natureza à qual estamos ligados.

Nota: