"Bugonia" (2025), de Yorgos Lanthimos - Foto: Universal Pictures/Divulgação
Universal Pictures/Divulgação

“Bugonia” revisita o absurdo contemporâneo com sarcasmo, paranoia e música grandiosa

Lançado nos cinemas brasileiros no último dia 27 de novembro, “Bugonia” marca o retorno de Yorgos Lanthimos ao terreno do absurdo político e social que o consagrou em títulos como “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”. O filme é um remake do longa sul-coreano “Salve o Planeta Verde!” (2003), de Jang Joon-hwan, uma obra cult que mistura thriller paranoico, comédia sarcástica e ficção científica.

Na nova versão, o diretor recria a história de dois sequestradores que acreditam que uma executiva de sucesso, interpretada por Emma Stone, é, na verdade, uma alienígena infiltrada na Terra com planos de destruição. Jesse Plemons vive um dos raptores, um homem comum tragado pela paranoia, auxiliado por seu primo autista Don, papel de Aidan Delbis.

A premissa parece exagerada, mas encontra eco num mundo saturado de teorias conspiratórias, negacionismo científico e extremismos políticos. E é justamente nesse ponto que Lanthimos ancora sua abordagem: “tentar superar a loucura do mundo real talvez não seja tão difícil quanto parece”, ele disse em entrevista coletiva da qual o cinematório participou.

Ao lado do diretor, estava o compositor Jerskin Fendrix, parceiro criativo desde “Pobres Criaturas” (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar). Em “Bugonia”, Fendrix conduz uma trilha de proporções monumentais: 91 músicos da London Contemporary Orchestra, um desafio técnico e emocional que espelha o caos da narrativa.

A seguir, os principais trechos da conversa de Lanthimos e Fendrix com os jornalistas.

Yorgos Lanthimos no set de "Bugonia" - Foto: Atsushi Nishijima/Focus Features
Yorgos Lanthimos no set de “Bugonia” – Foto: Atsushi Nishijima/Focus Features

“É natural que nem todos gostem [dos meus filmes]. O que importa é que não sigam o rebanho.” — Yorgos Lanthimos

Perguntado sobre o fato de muitos dos seus filmes dividirem público e crítica, Lanthimos responde com a serenidade de quem abraça sua identidade artística: “É normal que pessoas gostem de certas coisas e não gostem de outras. Acho até positivo. Obras que têm aceitação absoluta não são as que mais me interessam. É saudável que o público permita a si mesmo não seguir o rebanho.”

A fala do cineasta — que já iniciou sua trajetória com o controverso “Dentes Caninos” — traduz bem o seu espírito: a contradição não é um obstáculo, mas um ponto de partida. Ele não busca consenso, mas sim reação. “Bugonia”, como grande parte de sua filmografia, quer provocar, desestabilizar e, sobretudo, convidar o espectador a pensar por conta própria.

Criando sarcasmo em um mundo já absurdo

Lanthimos também foi questionado sobre como superar, através da comédia, um mundo que parece mais absurdo do que qualquer ficção. A resposta revela seu método: “Observar a loucura do mundo é fácil. Difícil é encontrar uma estrutura narrativa que explore essa loucura. É isso que tentamos fazer em cada filme: criar situações que iluminem certos comportamentos humanos e permitir que o público tire suas próprias conclusões.”

A chave parece estar na observação e um interesse quase antropológico pelo comportamento humano. Para Lanthimos, “Bugonia” não busca ser mais extremo que a realidade, mas expor a lógica do absurdo que já existe nela.

O valor das parcerias: quando atores e equipe criam um ecossistema artístico

Uma parte importante do processo criativo de Lanthimos é a continuidade de parcerias. Emma Stone e Jesse Plemons são presenças regulares em seus filmes. O mesmo vale para colaboradores técnicos como o compositor Jerskin Fendrix.

O que Lanthimos descreve é quase uma pequena comunidade criativa: “Quando você encontra pessoas talentosas, que entendem seu trabalho e com quem você se dá bem, cria-se confiança. Isso torna tudo mais fácil: os atores se sentem seguros, a equipe trabalha com mais eficiência e todos podem correr riscos sem medo de fracassar”, pondera.

Fendrix confirma: “Construir relações dá trabalho. Se você consegue evitar começar do zero a cada novo filme, tem mais energia para se dedicar ao que importa: a obra. Quando o processo já está afinado, você pode explorar ideias mais intrincadas e avançadas.”

Yorgos Lanthimos no set de "Bugonia" - Foto: Atsushi Nishijima/Focus Features
Yorgos Lanthimos no set de “Bugonia” – Foto: Atsushi Nishijima/Focus Features

A metamorfose musical: Jerskin Fendrix e a trilha grandiosa de “Bugonia”

Fendrix, que começou como compositor de pop experimental, fala com entusiasmo juvenil sobre estar em seu terceiro filme com Lanthimos (os anteriores foram “Pobres Criaturas” e “Tipos de Gentileza”) e sobre o privilégio de trabalhar com uma grande orquestra pela primeira vez. “Sou o garoto mais sortudo do mundo”, brinca. “Os três filmes que fiz com o Yorgos são completamente diferentes entre si. Isso me obriga a reinventar o meu vocabulário musical.”

Ele descreve sua abordagem como “hiperativa”, incapaz de se fixar em um estilo: “Não tenho paciência para ficar preso a um único tipo de música. E o Yorgos parece gostar disso, porque cada filme dele exige uma linguagem completamente nova.”

Sobre o processo de composição com a London Contemporary Orchestra, Fendrix afirma: “Nunca tinha conduzido nem escrito para uma orquestra de 91 músicos. Aprender a fazer isso foi um desafio enorme, mas ouvir o resultado, com aquela intensidade toda, é um privilégio absoluto.”

Um roteiro raro: quando o filme já chega quase pronto

Pela primeira vez na carreira, Lanthimos recebeu um roteiro praticamente pronto para filmar, escrito por Will Tracy (de “O Menu”, entre outros). “Foi um presente. Normalmente passo anos desenvolvendo roteiros. Desta vez, só fiz alguns ajustes para aproximar o material da minha sensibilidade. O script estava praticamente completo e muito intrigante.”

Fendrix, porém, viveu um processo inusitado: Lanthimos proibiu que ele lesse o roteiro antes de compor. “Foi agridoce”, diz o compositor. “Eu sabia que o roteiro era brilhante, mas não podia ler. O Yorgos queria que minha música viesse de um lugar mais abstrato: de imagens soltas, como abelhas, porões e naves espaciais. E, claro, do conhecimento de que em algum momento a cabeça da Emma Stone seria raspada.”

"Bugonia" (2025), de Yorgos Lanthimos - Foto: Universal Pictures/Divulgação
Universal Pictures/Divulgação

Empatia para o caos: encontrar humanidade em personagens extremos

“Bugonia” é cheio de figuras fanáticas, paranoicas e emocionalmente distorcidas. Como encontrar empatia por personagens assim? Lanthimos explica: “Quando algo me interessa, começo pela empatia. Não importa o quão horrível a ação do personagem seja. E muito vem dos atores: a forma como encontram humanidade sem julgar. Tento sempre manter alguma plausibilidade nas motivações. Isso se transfere para o público.”

É aqui que seu cinema se distancia do grotesco gratuito: por mais erráticos ou perigosos que sejam, seus personagens acreditam verdadeiramente no que estão fazendo. E isso é o que os torna assustadores e fascinantes.

Outro exemplo de humanidade nos filmes de Lanthimos está na escalação de Aidan Delbis para viver Don. Um dos papéis centrais de “Bugonia” foi para um ator neurodivergente e estreante em cinema. Lanthimos foi firme na escolha: “Desde que li o roteiro, senti que o papel poderia ser interpretado por alguém autista, como Aidan prefere se definir. Queria alguém sem experiência prévia, alguém honesto e inteligente, que pudesse trazer outra perspectiva para o personagem.”

Essa presença redefiniu a dinâmica no set: “Quando você coloca alguém inexperiente ao lado de atores treinados, cria-se imprevisibilidade, no melhor sentido. Trabalhei com Aidan do mesmo jeito que trabalho com Emma ou Jesse: ouvindo seus instintos e suas ideias. Isso trouxe autenticidade ao filme.”

O absurdo como espelho

“Bugonia” reafirma o que Lanthimos tem feito ao longo das últimas duas décadas: usar o absurdo como lente para ampliar o comportamento humano. Seu cinema não busca responder, mas sim perturbar, convidar à reflexão e, no processo, mostrar o quanto a lógica do absurdo já está presente na vida cotidiana. E, com a trilha monumental de Jerskin Fendrix, o resultado é um filme que vibra entre o caos e a contenção, o sarcasmo e a melancolia, a fábula e a crítica social.

O longa termina ao som de “Where Have All the Flowers Gone?”, canção pacifista de Pete Seeger, na soturna interpretação de Marlene Dietrich, gravada em 1965. Mas Lanthimos quase desistiu dela quando percebeu que todos adoraram a ideia. “Quando muita gente concorda comigo, eu tendo a discordar”, brinca. “Mas, no fim, senti que a música era a escolha certa. Depois foi simples garantir os direitos.”

“Bugonia” não é apenas sobre alienígenas e teorias da conspiração. É um retrato da ansiedade contemporânea e da facilidade com que criamos narrativas para justificar o caos ao nosso redor.