Sylvester Stallone surge na tela do computador com a familiar mistura de carisma e leveza que magnetiza o público há quase cinco décadas. Aos 79 anos, o astro de “Rocky” e “Rambo” poderia facilmente repousar sobre o mito que criou, mas não é essa a imagem que se revela durante a videoconferência para jornalistas. Em vez disso, encontramos um artista inquieto, filosófico, em alguns momentos melancólico, mas sempre apaixonado pelo ofício. A terceira temporada de “Tulsa King” chega ao fim no Paramount+, e Stallone a trata não como mais um capítulo da carreira, mas como um ponto de reinvenção.
Já renovada para a quarta temporada, a série, criada por Taylor Sheridan (também responsável por “Yellowstone” e “Mayor of Kingstown” e “Landman”, entre outras), acompanha Dwight Manfredi, mafioso de Nova York que, após 25 anos preso, é enviado a Tulsa para estabelecer um novo império. Se na primeira temporada Dwight chegava à cidade como um peixe fora d’água tentando se reinventar, os novos episódios o mostram consolidado no comando de um negócio em expansão, ao mesmo tempo em que enfrenta o caos emocional de alguém que envelhece, tenta compensar décadas perdidas e construir um novo sentido de família.
Essa tensão entre passado e presente, entre o “velho mundo” e a modernidade, parece afetar tanto Dwight quanto o próprio Stallone. Ele reconhece o paralelo, e faz disso uma reflexão profunda sobre maturidade, legado e o choque entre gerações – seja no crime organizado da ficção, seja na Hollywood real.
“Eu me pergunto: quanto é o suficiente?”, diz Stallone, antes de desenvolver um raciocínio que contém uma dose de autocrítica. “Quando é que você para de tentar provar alguma coisa? Quando você diz ‘eu já consegui, não preciso dizer mais nada’? A resposta é: nunca. Porque você não tem escolha.”

É nessa busca incessante por se manter relevante – e vivo criativamente – que Stallone encontra a ponte entre Dwight e sua própria trajetória. “Se eu pudesse apenas pescar, eu iria pescar. Mas existe essa necessidade. Eu amo aprender diálogos, sei que parece loucura, mas faz o cérebro funcionar. Amo insinuações, o subtexto, isso me faz mergulhar [nos personagens].”
Se o corpo cobra o preço de décadas de ação física intensa, a mente é o músculo que ele se recusa a deixar atrofiar. “Fisicamente, você vai começar a cair aos pedaços. As costas vão… eu sou um desastre”, admite, com ironia. “Mas esse outro músculo — o cérebro, o espírito — pode continuar crescendo.”
A fala vem carregada de uma defesa surpreendente das velhas máximas, aquelas frases que hoje soam ultrapassadas, mas que carregam, segundo ele, uma sabedoria negligenciada pela juventude. “Acredito muito nos clichês. Há tanta sabedoria neles. ‘Melhor prevenir do que remediar’, essas coisas. São consideradas bobagens pela nova geração, mas não são. São sabedoria que vem sendo passada há séculos. Pensar que a história não se repete é burrice.”
Stallone diz mergulhar com frequência na filosofia clássica, citando Aristóteles, os estóicos e Marco Aurélio: “Nada mudou, exceto as roupas. As necessidades e as filosofias da vida são as mesmas.”
Nesse sentido, “Tulsa King” não deixa de ser, para ele, uma narrativa sobre a utilidade do passado — e a dificuldade de transmiti-lo a um mundo que acredita saber mais. “É importante ouvir as pessoas mais velhas”, afirma. “Eu digo às minhas filhas: ‘Todo pensamento que você já teve, eu tive cinquenta anos antes. Nada é original.’ Se não posso passar adiante o que aprendi, então eu falhei.”

Acredito muito nos clichês. Há tanta sabedoria neles. ‘Melhor prevenir do que remediar’, essas coisas. São consideradas bobagens pela nova geração, mas não são.
— Sylvester Stallone
Família é tudo
Essa visão também influenciou o modo como Stallone interpreta Dwight. O personagem, assim como seu intérprete, vive o conflito entre a tradição e a necessidade de adaptação, entre o velho código de honra e a lógica acelerada de um presente dominado por desconfiança, cinismo e imediatismo.
Mas se a primeira camada da série é o confronto entre gerações, a segunda, talvez mais pessoal, é o tema da família. Algo que não apenas move Dwight, mas toca Stallone com especial intensidade.
“Às vezes repetimos a palavra família até ela perder o significado”, admite. “Mas quando é real, é necessário. Porque deitar sozinho à noite, sem ter com quem dividir suas esperanças, medos e amor, é aterrorizante.”
Ele confessa que nem sempre viveu assim. “Eu não colocava a família em primeiro lugar. Era um workaholic. Achava que, se eu não fizesse sucesso antes dos 30, não faria nunca. Colocava o trabalho acima de tudo.” A mudança veio tarde e dolorosamente.
“Depois de tantas cirurgias na coluna, tanta dor, eu pensei: ‘Isso pode ser o fim’. Prometi a Deus que, se sobrevivesse àquela operação, eu mudaria. E mudei. Levei um susto de verdade.”
Acontece então a virada que dá ao Stallone maduro uma urgência diferente e que também ecoa no arco de Dwight.
“Desde que coloquei a família em primeiro lugar, tudo ganhou outro sentido. Passei a realmente olhar para minhas filhas, ouvir, amar. Não estarei aqui para sempre. Elas vão lembrar de mim para o resto da vida, e o que elas precisam não é de um filme, mas de um pai.”

Um brutamontes com coração
Se a vida levou Stallone a uma espécie de despertar emocional, “Tulsa King” surge como um espaço onde ele pode transformar essa maturidade em dramaturgia. Dwight Manfredi não é apenas mais um anti-herói charmoso ou um mafioso durão com um toque de humanidade: ele representa, para Stallone, uma oportunidade rara de mostrar uma faceta que Hollywood costuma evitar entregar a homens de ação: a vulnerabilidade.
“Tem atores que não querem mostrar o lado sensível. Não querem se expor”, observa. “Mas filmes de ação, quando feitos do jeito certo, são mitologia moderna. E desde que o homem saiu da caverna, contamos mitos. O que faz o público embarcar não é o cara invencível. É ver que ele sente medo, sente dor, se machuca, perde. Quando o personagem é humano, o público vai junto.”
É por isso que Stallone sempre fez questão de apanhar em cena – e não apenas fisicamente. “Gosto que meus personagens sofram. Não de verdade, mas emocionalmente. Você perde um amigo, perde um amor, desperdiça tempo… Tudo isso cria identificação.”
Essa chave humana é parte do que o atraiu ao formato seriado. Para Stallone, a TV – especialmente o streaming – permitiu algo que o cinema, em seu estado atual, não oferece mais: tempo para aprofundar personagens e criar laços afetivos com o espectador. “Achei que não havia mais esperança. Vi a indústria desabar em cinquenta anos. Implodir. Como uma casa com fundação ruim.”
O diagnóstico de Stallone sobre Hollywood é duro. “Deixamos de contar histórias identificáveis. Estamos enviando ‘mensagens’. Mas cinema não é correio. Você não vai ao cinema para receber uma lição. Vai para ser entretido, iluminado – e só depois, talvez, refletir.”

O que faz o público embarcar não é o cara invencível. É ver que ele sente medo, sente dor, se machuca, perde. Quando o personagem é humano, o público vai junto.
— Sylvester Stallone
Narrativas em reinvenção
Para Stallone, o problema não está na ideia de ter algo a dizer, mas na forma. O cinema, segundo ele, perdeu o equilíbrio entre propósito e prazer. “É incrível como, de 1985 em diante, a literatura saiu pela janela. Paramos de nos importar com personagens, com a escrita, com o que torna um filme clássico.”
Ele cita seu filme favorito como exemplo, “O Leão no Inverno” (1968), com Peter O’Toole e Katharine Hepburn. “Já vi cinquenta vezes. Diria que enlouqueço as pessoas com isso. Mas a cada vez descubro algo novo. Isso não existe mais no cinema. Hoje, quando você termina o cachorro quente, já esqueceu o filme.”
Na visão dele, o streaming devolve ao audiovisual um pouco dessa profundidade perdida. E, mais do que isso, lhe deu a chance de reescrever a própria trajetória aos olhos de uma nova geração. “Estar no streaming é um presente. Elevou minha carreira. Mais gente me vê agora do que em qualquer filme. Algo como 350 milhões de pessoas assistiram a ‘Tulsa King’. Eu achei que eram dez!”, ri, incrédulo.
Stallone não se acanha ao admitir que “Rocky” talvez seja um momento inigualável na carreira. “Eu atingi meu auge ali. Sei disso. E sou grato por ter sido naquela época. Não haverá outro como ‘Rocky’.” Ele está, inclusive, escrevendo um livro sobre como aquele filme improvável aconteceu. Mas “Tulsa King” representa algo diferente: “É uma chance de tentar mais uma vez. De corrigir erros. De se reinventar.”
Esse processo de reinvenção não é apenas profissional, mas ético. Stallone fala muito em responsabilidade criativa e em como conduz a sala de roteiro da série. Com a experiência de quem já escreveu e dirigiu filmes icônicos, ele se recusa a ser apenas um “astro” que chega para opinar e causar caos. Prefere ser colaborador, incentivador, ainda que firme quando necessário.
“Você pode destruir o ego de um roteirista. E de si mesmo. Já tive bloqueios criativos. É real e debilitante”, conta. “Ao criticar, você tem que trazer soluções. Não adianta dizer ‘Isso está ruim, conserte’. Tem que propor algo. Tem que ser parte da solução.”
Nas primeiras temporadas, Stallone mexeu muito em diálogos e exigiu ajustes. Agora, o clima é outro. “Nesta temporada, não mudei uma palavra. A máquina está fluindo. Todos confiam uns nos outros. Tenho total confiança.”

De geração em geração
A confiança de Stallone em seus colegas de série se estende também aos temas que “Tulsa King” aborda, especialmente o impacto do envelhecimento masculino em um mundo que idolatra juventude e velocidade. Dwight enfrenta algo que o próprio Stallone conhece bem: o fantasma da irrelevância.
“Dwight tinha dois caminhos: usar a raiva e se tornar um homem amargo, ou tentar criar uma família”, analisa. “E a solidão é a pior doença que existe. O isolamento é triste demais. Aos 75 anos, ou você escolhe se abrir para as pessoas ou desaparece na amargura.”
Essa percepção dá a Stallone a convicção de que Dwight é um tipo raro de personagem na televisão atual: um anti-herói com alma de mentor, um homem tentando construir pertencimento – e não o poder – em seus últimos anos. Em outras palavras, um mafioso que oferece abraços quando poderia oferecer ameaças.
Se Dwight Manfredi destoa do retrato habitual da masculinidade mafiosa, é porque Stallone enxerga nele uma chance de dizer algo que nem Rocky nem Rambo podiam expressar com tanta frontalidade. Dwight é, de certo modo, a fusão desses arquétipos: carrega a resistência de Rocky e o trauma de Rambo, mas transformados pela idade em sabedoria e ternura.
“Vi muitos atores que não queriam mostrar o coração. Acho isso uma loucura”, diz Stallone, lamentando a armadura emocional que Hollywood acostumou a vestir em seus heróis. Em sua visão, “Tulsa King” permite uma correção narrativa: mostra que força e fragilidade não apenas podem, mas devem coexistir.
O ator diz que sempre quis que seus personagens sentissem medo, fossem vulneráveis e sofressem perdas. Dwight chega para coroar essa filosofia. “Se o público vê que o personagem sente, ele embarca. Se é indestrutível, não há risco, não há emoção.”
Ao longo da entrevista, Stallone demonstra ser bastante consciente do ponto da vida em que está e do privilégio de ainda ter voz ativa para moldar sua imagem pública. Não quer ser lembrado apenas como o homem que venceu lutas impossíveis na ficção, mas como alguém que aprendeu a escutar, amar e transmitir conhecimento.

A solidão é a pior doença que existe. O isolamento é triste demais. Aos 75 anos, ou você escolhe se abrir para as pessoas ou desaparece na amargura.
— Sylvester Stallone
Sem perder o bom humor
Stallone sabe que, com Dwight, tem nas mãos um personagem que convoca discussões atuais: sobre envelhecer em um mundo que rejeita o velho, sobre afetividade masculina, sobre reconstrução após a queda.
E faz isso sem perder o humor ácido que o acompanha desde os primeiros anos de carreira. Em resposta à nossa pergunta, quando lhe propomos um exercício de imaginação – se Rocky, Rambo e Dwight entrassem no mesmo bar, quem seria o último sair? – ele não pisca antes de responder: “Rambo”. E completa, com um riso que corta qualquer solenidade: “Rocky falaria: ‘Vamos lá fora resolver isso’. Justo. Dwight diria: ‘Se você tem um problema, te encontro daqui a uma hora’. E você sabe o que irá acontecer. Mas Rambo? Ele pularia da cadeira e te atacaria no escuro. Ele te mata por trás. Não encara de frente. É um filho da mãe sorrateiro!”
O riso revela a leveza ainda presente no ator que, muitas vezes, a indústria transformou em símbolo da brutalidade. Mas hoje, essa armadura é apenas uma camada de um homem que busca ser mais presente e inteiro do que foi ontem.
Ao final da entrevista, a impressão que fica não é a de uma lenda do cinema reafirmando sua grandiosidade. É a de alguém que, tendo conhecido o auge e o abismo, compreendeu que a verdadeira consagração não está na glória, mas na capacidade de evoluir.
Stallone fala como alguém que já não constrói apenas músculos ou mitos, mas pontes entre gerações, entre pais e filhos, entre passado e futuro.
E talvez seja por isso que “Tulsa King” não seja apenas uma série sobre máfia, poder e sobrevivência. É sobre encontrar família onde antes havia apenas solidão. Sobre reconhecer o valor da experiência num mundo obcecado pelo novo. Sobre entender que envelhecer não é perder. É expurgar. ■
Onde ver "Tulsa King" no streaming:

Editor-chefe do Cinematório. Jornalista profissional, mestre em Cinema pela Escola de Belas Artes da UFMG e crítico filiado à Abraccine e à Fipresci. Também integra a equipe de Jornalismo da Rádio Inconfidência, onde apresenta semanalmente o programa Cinefonia. Votante internacional do Globo de Ouro nas edições de 2024 a 2026.

