Sarah Maldoror - Foto: BJ Nikolaisen
Sarah Maldoror - Foto: BJ Nikolaisen

CCBB realiza a maior retrospectiva de Sarah Maldoror já realizada no Brasil

O nome de Sarah Maldoror ainda é pouco conhecido do grande público brasileiro — e é exatamente isso que uma mostra no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em São Paulo pretende mudar. Aberta até 22 de março, com entrada gratuita, a retrospectiva “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror” apresenta 34 obras: 19 dirigidas pela própria cineasta e 15 assinadas por outros realizadores que orbitaram sua trajetória.

Nascida em 1929 no interior da França, filha de pai guadalupense, Maldoror faleceu em 2020 e é mais conhecida por seu longa-metragem “Sambizanga” (1972), sobre a guerra em Angola entre 1961 e 1974. Sua trajetória, no entanto, vai muito além de um título: com mais de quarenta filmes na carreira, sua obra acompanha de perto os grandes movimentos intelectuais e políticos do século XX: a Negritude, o pan-africanismo, o feminismo e o comunismo.

A mostra no CCBB SP começou em 21 de fevereiro, com a exibição da versão restaurada de “Sambizanga”. A restauração foi conduzida pela Cineteca di Bologna e pela Film Foundation. Após a sessão, Henda Ducados — economista, socióloga e filha caçula de Maldoror — participou de um bate-papo com o público. A primogênita da cineasta, Annouchka de Andrade, fundadora da associação “The Friends of Sarah Maldoror and Mario de Andrade”, também esteve presente no CCBB: ela participou de uma conferência sobre “Sambizanga” no dia 26 de fevereiro.

A programação inclui filmes em que Maldoror atuou como assistente, entre eles “A Batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, e “Elas”, do argelino Ahmed Lallem. Há ainda obras de Chris Marker — “Sem Sol” (1982) e um episódio da série “A Herança da Coruja” (1989) — que contêm imagens filmadas por Maldoror. A mostra também estabelece um diálogo com o cinema negro contemporâneo da América Latina: a cineasta baiana Safira Moreira dirige a leitura dramática de “As Garotinhas e a Morte”, um dos mais de quarenta projetos inacabados de Maldoror. Da própria Safira, o evento exibe o longa “Cais” e quatro curtas.

A curadoria, assinada por Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon, é resultado de uma década de planejamento. “Faz dez anos que planejamos uma retrospectiva da obra de Sarah Maldoror em São Paulo. Os filmes dela falam da luta contra o colonialismo, o racismo, o preconceito”, afirma Monteiro. Para Melo, o evento integra um movimento mais amplo: “Esta mostra faz parte de uma movimentação que nos últimos anos tem reposicionado a figura e a produção de Sarah Maldoror na história do cinema.”

No ano passado, o MoMA realizou uma retrospectiva completa de sua obra — a primeira desse porte na América do Norte. Agora é a vez do Brasil. A mostra acontece também no CCBB Rio de Janeiro, até 16 de março, e em Salvador, de 5 a 24 de março. A programação completa está disponível em bb.com.br/cultura.