Comentários rápidos

Lisbela e o Prisioneiro (2003, Brasil – Fox) E não é que “Lisbela e o Prisioneiro” é divertido? Imaginava que o filme seria mais sem graça, talvez por eu ter assistido recentemente a “Cristina Quer Casar”, uma comédia romântica brasileira, com a Denise Fraga, muito piegas. Ainda bem que me enganei. A nova investida do Guel Arraes na tela grande rende boas risadas, apesar de, em alguns momentos, parecer que ele se inspirou em piadas que todo mundo já está careca de saber (os “tipos de cornos”, por exemplo, quem nunca recebeu uma lista dessas por e-mail?).

Quanto à linguagem usada, misturando cinema com a experiência do diretor na televisão, funciona em algumas partes. O artifício de usar sons para criar um efeito cômico é bem vindo, assim como a identificação de personagens pela trilha. O matador vivido por Marco Nanini sempre aparece com uma espécie de vinheta meio macabra ao fundo. Pode parecer um recurso bobo, mas fica engraçado. O que incomoda um pouco é a montagem de algumas seqüências em que Arraes parece querer recriar um ato da peça em que o filme é inspirado. Quando Leléu está encenando a crucifixação de Cristo, por exemplo, ele diz algumas falas para as pessoas que assistem ao seu teatro e, em seguida, complementa com outra frase endereçada ao público do filme. Entendi o que o diretor quis fazer, mas na tela não ficou tão bem quanto ficaria no palco, onde o personagem poderia virar para a platéia e dizer as falas complementares.



Arraes se redime, entretanto, com seqüências em que a edição das cenas é excelente, como naquelas em que se intercalam a ação do filme a que Lisbela assiste e o que Leléu vive lá fora. Uma cena que gostei muito também é aquela em que o casal discute dentro do cinema e, ao fundo, os protagonistas do filme em exibição parecem interagir com movimentos dos dois. nota: 6/10 — vale o ingresso

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra (Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, 2003, EUA – Disney) “Johnny Depp é o cara”, diria um amigo meu se assistisse a “Piratas do Caribe”. E tenho que concordar. Depp está em um de seus mais excêntricos e divertidos papéis. Como o pirata Jack Sparrow, o ator mostra toda a sua versatilidade. São poucos, de que me lembro, que conseguiram variar tanto de papéis em suas carreiras. Depp já foi traficante, diretor de filme B, Don Juan… O Sparrow só perde mesmo para o Edward Mãos de Tesoura no quesito “bizarrice”. Ele rouba o filme, é o centro das atenções. Talvez, sem sua presença, “Piratas do Caribe” fosse um pouco mais chato.

O roteiro é muito bom, cheio de reviravoltas que levam de uma situação a outra sem deixar a narrativa ficar cansativa. Tanto é que, depois da primeira hora de filme, os acontecimentos se tornam cada vez mais interessantes e o filme acaba mais rápido do que parece (são 2h20 de duração). A primeira metade é que poderia ser um pouco mais ágil, ou melhor, poderia ser mais curta.

Dentre todos os blockbusters que invadiram os cinemas este ano, “Piratas” foi um dos melhores, com certeza. E quanto a Depp, mal posso esperar para vê-lo como Willy Wonka na nova versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolates” (que será dirigida pelo Tim Burton, ainda por cima). nota: 8/10 — vale o ingresso

Tratamento de Choque (Anger Management, 2003, EUA – Columbia) O que esperar de uma comédia com Adam Sandler? O ator não tem graça, mas algumas piadas podem até valer a pena. Só que em “Tratamento de Choque” Sandler se deu ao luxo de contracenar com Jack Nicholson, o que certamente chama muito mais a atenção para o filme. Apesar de haver pouca química entre os dois, Nicholson protagoniza as melhores cenas. Dono de um rosto de expressões marcantes (é impressionante como o psicopata das machadas de “O Iluminado” se transforma no senhor de face cansada de “As Confissões de Schmidt”), Nicholson faz o que pode para criar comédia física e arrancar risadas do público nos poucos momentos criativos do roteiro.

É no script que residem as falhas de “Tratamento de Choque”, ao tentar colocar Sandler em situações embaraçosas para que seu personagem se “liberte” e supere seus traumas. Aliás, os métodos do Dr. Buddy Rydell são pouco convincentes: ele controla a raiva de seus pacientes incitando-os a serem agressivos com que propósito? Isso não é explicado e o desfecho do filme soou para mim mais como uma grande desculpa para justificar as atitudes do “Doutor B”.

Há um subtexto no filme – mal explorado por sinal – que é mostrar a neurose norte-americana com essas coisas de agressão e assédio. Às vezes acho que um dia será necessário uma câmera de segurança para que um simples aperto de mão não seja mal interpretado.

O diretor Peter Segal faz o que pode, mas não consegue criar uma cena sequer que mereça destaque por seu trabalho (aliás, é vendo Sandler nas mãos de um cineasta mais talentoso, como P.T. Anderson em “Embriagado de Amor”, que se nota como o trabalho de direção de atores transforma uma pessoa). O que se pode elogiar em “Tratamento de Choque” é mesmo apenas a atuação de Nicholson, além das participações de John C. Reilly, Luis Guzmán e Woody Harrelson, os três em papéis, no mínimo, curiosos em suas carreiras. nota: 5/10 — veja sem pressa

%d blogueiros gostam disto: