Pelé Eterno

Não saiu do empate

O gol de placa que o documentário tem que reconstituir. Ninguém filmou isso?

Fui assistir ao documentário “Pelé Eterno” hoje, já desconfiado de que o filme fosse uma homenagem, e não um trabalho investigativo sobre o Rei do Futebol. O próprio título já indicava. E é isso mesmo.

Quem curte futebol vai gostar de ver lances memoráveis do craque na telona. Aqueles que cresceram vendo Pelé jogar vão relembrar bons momentos torcendo pela Seleção. Os que só conhecem a carreira do camisa 10 por meio de especiais de televisão vão poder ver jogadas pouco conhecidas e descobrir curiosidades relegadas a almanaques e à memória de torcedores santistas.



O material é bem aproveitado. Mas… Tem umas coisas que atrapalham a experiência. Primeiro, tendo o próprio Pelé como narrador de grande parte do documentário, a impressão que tive é que aquilo não passava de uma autobiografia. Aliás, não passava de auto-glorificação. Sim, porque o Pelé não iria falar mal dele mesmo. Nem digo que o objetivo do documentário teria que ser levantar os podres dele. Mas seria muito mais interessante desconstruir o mito, e não reforçá-lo (porque isso seus inúmeros troféus e condecorações já fazem).

Outro ponto que incomoda é que o diretor Anibal Massaini insiste em construir situações – manipulação, para ser mais exato. Tudo bem que a reconstituição de algumas jogadas foram uma boa saída, como no início, mostrando Pelé ainda garoto. Só fiquei sem entender direito porque o chamado “gol de placa” teve que ser encenado. Ninguém registrou isso, assim como o gol que foi recriado em computação gráfica? Que azar… Logo os dois gols que dizem ser os mais bonitos.

A gota d’água vem quando Massaini coloca Pelé, a esposa e os filhos para assistirem a depoimentos de antigos parceiros de bola dele no Santos. Um momento que deveria ser espontâneo – e por ser um documentário, o filme devia se aproveitar disso – acaba prejudicado por ser obviamente produzido. Pelé desaba em lágrimas, que até acredito serem sinceras, mas, neste instante, a seqüência já não possui qualquer caráter documental e a emoção do ex-jogador não soa completamente genuína.

Por apenas esbarrar e passar direto por temas mais polêmicos da vida de seu protagonista, “Pelé Eterno” acaba soando mais como um trabalhado curriculum vitae do que uma biografia definitiva, como vem sendo dito. É uma produção bem acabada, mas nada que um canal de esportes não consiga fazer.

nota: 5/10 — veja sem pressa
Pelé Eterno (2004, Brasil)
direção: Anibal Massaini; roteiro: José Roberto Torero, Armando Nogueira; montagem: Luiz Elias; música: Vicente Sálvia; produção: Anibal Massaini; estúdio: Universal Pictures do Brasil, Cinearte Filmes, Anima Produções Audiovisuais; distribuição: Universal Pictures. 120 min

Enquanto isso, na fila da bilheteria:

Mulher: Ué, a gente vai ver esse? Você não queria ver “Pelé”?
Homem (gritando): Eu quero ver, mas vou ver outro dia! Você acha que vou trazer mulher para ver filme de futebol?

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