"Primárias" (Primary, 1960) - Foto: Divulgação
"Primárias" (Primary, 1960) - Foto: Divulgação

Crítica: “Primárias” (1960)

Assistir, hoje, a um filme que deu início a uma nova forma de se fazer cinema é um exercício peculiar. Como é possível que você já tenha visto inúmeras produções baseadas naquele modelo original, quando se retorna à fonte ela pode parecer antiquada. Afinal, o tempo permite o aperfeiçoamento. Ao estarmos frente a um documentário como “Primárias”, é preciso encará-lo não como se fosse uma obra-prima, pois, certamente, isto ele não é. A visão que se deve ter ao assisti-lo é a de um estudante em um museu, diante de um objeto que revolucionou a História.

O valor de “Primárias” vai além de seus méritos artísticos, baseados no conceito narrativo do Cinema Verité (ou Cinema Direto, como é chamado em sua corrente documental nos EUA). Antes de mais nada, sua realização só foi possível porque, por trás de sua idéia, estava um grupo de verdadeiros inventores: Robert Drew, Richard Leacock, D.A. Pennebaker e Albert Maysles. Graças a eles, o documentário se tornou livre para sair às ruas, movimentar-se sem tantas restrições, estar em lugares onde jamais se sonhou ser possível chegar com uma câmera, captar com total naturalidade a vida e o mundo à nossa volta.

“Primárias” é considerado o divisor de águas no cinema documental por ter sido feito com uma então nova geração de câmeras leves de 16mm, que dispensavam o uso de tripé. Além disso, foi na produção deste filme que, pela primeira vez, foi possível filmar com som sincronizado com as imagens.

Como vemos no documentário, originalmente produzido para a TV, o equipamento possibilitou aos cinegrafistas (entre eles, Leacock, Maysles e Pennebaker) acompanhar os candidatos John F. Kennedy e Hubert Humphrey em suas campanhas nas ruas, durante as eleições primárias de 1960, para a escolha do candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos. Sem a câmera que desenvolveram, seria impossível, por exemplo, a realização do plano-seqüência no qual seguimos Kennedy pelo alto de sua cabeça, enquanto ele atravessa a multidão que o aguarda em um salão onde ele fará um discurso. Também seria pouco provável a filmagem de uma tomada simples como aquela que mostra os dedos inquietos de Jacqueline Kennedy no momento em que, nervosa, ela faz uma saudação em polonês ao público ansioso.

Essa mobilidade técnica é trabalhada juntamente com as regras narrativas estabelecidas pelo diretor Robert Drew. Jornalista, Drew percebeu que as reportagens televisivas careciam de algo mais do que apenas imagens ilustrando as palavras de um locutor. Assim, idealizou com seus colegas uma forma de filmar sem interferências, sem pedir que as pessoas fizessem alguma ação e, principalmente, sem narração e entrevistas. O diretor acabou infringindo algumas de suas regras (a própria narração surge brevemente em dois momentos), mas a espontaneidade é o fator imperativo em “Primárias”. Nessa tentativa de tornar a câmera “invisível”, Drew e sua equipe conseguiram capturar momentos inusitados, como o cochilo de Humphrey numa viagem de automóvel e a preparação de Kennedy para uma sessão de fotos.

Graças a esses pequenos grandes momentos obtidos com a realização de “Primárias”, o cinema (em especial, o documental) deu um passo importante que permitiu a realização de filmes notórios e de linguagem mais desenvolvida, como “Caixeiro-Viajante”, “Gimme Shelter”, e, para citar exemplos recentes e brasileiros, “Justiça” e “Entreatos”.

Se não merece ser considerado obra-prima, “Primárias” deveria, no mínimo, ser exposto em um museu ao lado de uma das câmeras com que foi filmado, para que todos pudessem ver de perto a ferramenta com que foi escrito esse capítulo essencial da História do Cinema.

Primárias (Primary, 1960, EUA). Direção de Robert Drew. Com John F. Kennedy, Hubert Humphrey.

O DVD

Sexto volume da Coleção VideoFilmes, “Primárias” é apresentado em seu formato original de tela, 1.33:1, já que foi produzido originalmente para a TV. A imagem não mostra sinais de restauração, mas está numa qualidade aceitável. O áudio em inglês é apresentado em uma única faixa Dolby Digital 2.0, com legendas em português.

Os extras incluem uma faixa de comentários com o diretor Robert Drew e o cinegrafista e fotógrafo Richard Leacock. Só o fato de ouvir o criador do cinema direto falar sobre seu primeiro filme já deveria valer a pena. Mas a faixa vai além e oferece depoimentos informativos sobre os bastidores das filmagens (por exemplo, como Drew convenceu Kennedy e Humphrey a permitirem ser seguidos o tempo inteiro, ou como Leacock conseguiu se infiltrar no quarto de Kennedy enquanto ele aguardava a apuração dos votos).

O disco ainda traz “Os Pioneiros”, documentário de 30 minutos dividido em duas partes: na primeira, vemos um depoimento dado por Drew nos anos 1960; na segunda, acompanhamos um debate sobre cinema direto, realizado em 2000, com as presenças de Drew, Leacock, D.A. Pennebaker e Albert Maysles.

O terceiro extra é um pequeno vídeo em que João Moreira Salles (diretor de “Entreatos”) fala com Maysles sobre a famosa cena das mãos de Jacqueline Kennedy.

E por falar em Moreira Salles, o DVD traz como encarte uma reprodução do texto “Sobre Senadores que Dormem – A Invenção do Cinema Direto”, escrito pelo diretor para a revista Bravo!, em abril de 2005, quando Drew visitou o Brasil.

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