“Feiúra não é documento”. Talvez a frase que Grande Otelo diz ao ser chamado de “menino feio” por seus parentes soe ironicamente contraditória ao analisarmos a personalidade dos personagens de "Macunaíma".

MACUNAÍMA

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Atenção: o texto a seguir contém spoilers.

“Feiúra não é documento”. Talvez a frase que Grande Otelo diz ao ser chamado de “menino feio” por seus parentes soe ironicamente contraditória ao analisarmos a personalidade dos personagens de “Macunaíma”.



Rodado no final dos anos 60, o filme é uma releitura da obra literária homônima escrita em 1928 por Mário de Andrade. A visão do diretor Joaquim Pedro de Andrade reflete na tela uma interpretação “atualizada” do livro e, por isso, traz elementos que representam o cenário sócio-cultural brasileiro daquela época – e também um pouco do atual, em certos aspectos.

O filme fez parte do movimento do Cinema Novo, que procurava estabelecer uma identidade autoral para a cinematografia brasileira, longe das produções de estúdio e das chanchadas fantasiosas. Curiosamente, foi com um dos maiores representantes da chanchada brasileira, Grande Otelo, que o Cinema Novo conseguiu chegar mais perto de seu objetivo: usar a câmera como instrumento de denúncia e ferramenta intelectual e ser, ao mesmo tempo, um cinema de aceitação popular.

Para conseguir isso, Andrade contou a história original com o olhar da realidade brasileira da década de 1960, quando o país vivia tempos de repressão militar e passava por um momento de crise e indefinição política, econômica, social e cultural. Como a vigência do AI-5 ditava as regras, a forma que o Cinema Novo encontrou para representar a realidade nos filmes foi a alegoria. Neste aspecto, Andrade utiliza com genialidade elementos do folclore brasileiro (as lendas de Curupira e de Iara) e diversos aspectos de nossa cultura (o candomblé, o samba), para satirizar e criticar a sociedade daquele momento de transição.

A principal alegoria percebida no filme reside no próprio protagonista. Macunaíma (na “fase negra”, interpretado por Grande Otelo) é a grande paródia proposta, a grande ironia do diretor, que o apresenta como “herói de nossa gente” no momento em que ele nasce em uma cabana no meio do mato, sendo praticamente defecado pela mãe. A descrição do personagem chama a atenção: “Dormia o dia inteiro, mas acordava para ganhar dinheiro”. Não bastasse sua inerente preguiça, Macunaíma é manhoso e chora para conseguir o quer – mas nem sempre consegue. Quando a família reparte os pedaços de uma anta durante a refeição, Macunaíma fica apenas com as tripas do animal. “Pra você tá muito bom! Come e não discute!”, respondem os irmãos e a mãe do “garoto” à sua reclamação.

Este é o nosso herói, o representante de nossa gente. Quem o governa, o despreza. Mas quando se pensa que Macunaíma se sente subjugado pelo poder, ele se transforma. Ao encontrar uma fonte mágica e se transformar em um homem branco (o também grande Paulo José), ele brada: “Fiquei branco! Fiquei lindo!”, ao passo que seu irmão negro não consegue passar pela mesma metamorfose. Como resultado, Macunaíma automaticamente torna-se o líder da família, ficando, inclusive, com a mulher do irmão negro.

Toca-se aqui no ponto cínico do racismo, que ainda faz parte da sociedade brasileira. O negro, ou o feio, além de ser socialmente menosprezado, se vê em um papel passivo frente à hegemonia branca e a idolatria ao modelo europeu. Feiúra, neste sentido, é documento, sim.

Mas o filme não cessa no racismo sua metralhadora de crítica social. Outro ponto destacado, entre as várias referências feitas pelo diretor, diz respeito ao individualismo e ao espírito capitalista que se apossava da população. Quando Macunaíma chega à cidade grande com seus irmãos, ele se envolve com uma guerrilheira (outra grande ironia, já que é símbolo de rebeldia), com quem passa a morar e dividir uma casa. Enquanto isso, ele deixa os irmãos na rua, sem moradia e comida. Mais tarde, Macunaíma e a guerrilheira têm um filho, a quem ele aconselha: “Cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro”.

Esse espírito de lucratividade reflete um (anti-) herói possessivo, cujos objetivos só tendem a beneficiar a si próprio, nunca aos outros. Assim, introduz-se outra alegoria referente ao cenário político-econômico do Brasil naquela época: o “gigante” Venceslau é a representação da iniciativa privada e extensão da abertura econômica e da internacionalização do capital nacional.

Como Andrade se baseou em uma obra do modernismo, um elemento claramente observado é a antropofagia, que pode ser encarada como um canibalismo não só cultural, mas também social. Os personagens se devoram, tratam-se com violência, e essa apropriação do outro inclui não só uma interiorização das diversas culturas que chegam até a nossa sociedade, como também de todo o seu caráter e seus problemas.

Nosso herói consegue se dar bem graças ao “jeitinho brasileiro”, mas também demonstra inocência ao ser ludibriado por um vendedor de quem compra um pato que, supostamente, bota moedas em vez de ovos. Neste tom constantemente alegórico, “Macunaíma” rasga todos os podres da sociedade e mostra como o Brasil era (e ainda é) inocente, assim como o protagonista.

Macunaíma (1969, Brasil). Direção de Joaquim Pedro de Andrade. Com Grande Otelo, Paulo José, Jardel Filho, Dina Sfat, Milton Gonçalves, Rodolfo Arena e Joana Fomm.

O DVD

“Macunaíma” é apresentado em sua versão restaurada, apresentando, assim, uma qualidade de imagem excepcional. O vídeo está em tela cheia. O áudio, também restaurado, vem em duas faixas Dolby Digital em português: 2.0 e 5.1 canais.

Dentro da embalagem, você encontra como encarte um livreto produzido especialmente para este DVD. Em suas 12 páginas, estão: a reprodução da primeira página do roteiro; uma linha do tempo do filme (que vai desde o ano em que começou a ser escrito até o relançamento da versão restaurada nos cinemas); um texto de Joaquim Pedro de Andrade publicado no press-book original de 1969; um apanhado de citações de vários veículos da imprensa na época do lançamento; um texto de Jean-Claude Bernadet sobre a realização do curta “Brasília, Contradições de uma Cidade Nova”; um texto de Leonor Souza Pinto sobre a censura imposta ao filme; e, por fim, uma minibiografia de Joaquim Pedro de Andrade e a filmografia do diretor.

O primeiro e mais valioso extra do DVD é o curta “Brasília, Contradições de uma Cidade Nova” (1967), no qual Andrade aborda o conflito estabelecido em Brasília, onde o operariado acabou ficando de fora da modernização da cidade, construída apenas para quem podia pagar para lá morar. Assim, a classe de menor poder aquisitivo ficou marginalizada. O curta, proibido na época de seu lançamento devido a seu forte teor político, foi restaurado junto com “Macunaíma”.

Outro extra interessante é o making of da restauração. Trata-se de um documentário de apenas sete minutos de duração, mas que fornece uma visão detalhada do processo de recuperação da imagem e do som originais.

Completando as atrações especiais, estão um depoimento de Heloísa Buarque de Hollanda, professora e pesquisadora que conheceu e conviveu com Joaquim Pedro de Andrade (ela fala sobre as diversas leituras que podem ser feitas do filme e as comparações com o livro), e um momento especial com o ator Paulo José, que lê e interpreta um texto que escreveu em homenagem ao longa, utilizando o estilo literário de Mário de Andrade, autor do livro.

Há também uma seleção especial de 12 cenas censuradas. E antes do filme, você pode ver uma introdução gravada pelo diretor na época do lançamento de “Macunaíma” em VHS. ■

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