“O Passado”, de Hector Babenco, pode ser considerado uma leitura melancólica e soturna daquele antigo ditado, “águas passadas não movem o moinho”.

O Passado

“O Passado”, de Hector Babenco, pode ser considerado uma leitura melancólica e soturna daquele antigo ditado, “águas passadas não movem o moinho”.

Seu protagonista, Rímini, é interpretado por um Gael García Bernal que se alterna entre o galã desejado por inúmeras tietes e o cafajeste impulsivo e derrotado que chega a dormir em meio ao lixo. Ele vive uma história, ou melhor, tenta viver uma história, mas sempre é puxado de volta ao seu passado pela ex-mulher, Sofia (Analía Couceyro), que insiste em procurá-lo tempos após o fim de seus 12 anos de casamento. Em uma cena, ela surge e diz que Rímini parece ter visto um fantasma, dada a sua reação de espanto. E de fato deve ter sido essa a sua impressão, já que Sofia é representada quase como uma assombração, surgindo das sombras ou andando por corredores escuros em diversos momentos.



Mesmo quando Sofia não procura Rímini (ou, pelo menos, quando não deixa claro que estava atrás dele), ela aparece e o coloca novamente no círculo vicioso de sua vida afetiva, marcada por traições e um descontentamento que parece nunca ir embora. Ele vive vários romances, mas nenhum deles o estimula a dizer um “eu te amo”. Talvez por ele não acreditar no amor, ou talvez por não acreditar que possa encontrá-lo realmente.

De certa forma, “O Passado” tem uma relação próxima com um outro filme lançado este ano sobre um jovem desiludido: “Cão Sem Dono”, de Beto Brant e Renato Ciasca. No longa brasileiro, o protagonista, vivido por Júlio Andrade, também está tentando seguir um novo rumo na vida quando a mulher amada do passado (papel de Tainá Müller) reaparece repentinamente. É curioso notar ainda que os personagens de ambos os filmes trabalham com tradução. A fotografia — que se encarrega de deixar as imagens com cores pesadas como num dia de chuva — e a direção aquietada e monolítica também se assemelham nas duas produções. Porém, onde Brant e Ciasca economizam, Babenco se excede um pouco, arrastando a narrativa, principalmente no ato final. Talvez seja um problema do livro de Alan Pauls (não lido por este crítico), mas, se for, por se tratar de uma adaptação, poderia ter sido contornado.

“O Passado” não é um filme que nos motiva a torcer pelo protagonista, já que o personagem trai a confiança do espectador em dois momentos cruciais da história. Mesmo assim, Rímini é um indivíduo palpável, daqueles sobre quem você ouve por acaso num dia qualquer e fica estranhamente curioso para saber que fim ele levou.

Obs.: o longa ainda vale ser destacado pela participação mais do que especial do grande Paulo Autran, falecido em outubro. Este é, portanto, o último trabalho do ator no cinema.

nota: 7/10 — vale o ingresso

O Passado (El Pasado, 2007, Argentina/Brasil)
direção: Hector Babenco; com: Gael García Bernal, Analía Couceyro, Moro Angheleri, Ana Celentano, Paulo Autran; roteiro: Hector Babenco, Marta Góes (baseado no livro de Alan Pauls); produção: Hector Babenco; música: Iván Wvszogrod; fotografia: Ricardo Della Rosa; montagem: Gustavo Giani. 156 min

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