Gran Torino

Se fôssemos classificar o cinema americano em um cardápio, provavelmente os pratos mais pedidos seriam os de fast-food, correspondentes a grande maioria dos filmes produzidos lá. Não que fast-food seja de todo ruim, mas é inegável que os pratos especiais são bem mais saborosos e nutritivos.

O cinema de Clint Eastwood é como uma bisteca grelhada bem passada e suculenta: um prato dos mais tradicionais das cozinhas estadunidenses e um dos mais saborosos. A cada filme, Eastwood oferece uma farta refeição. Ele pode errar a mão no tempero em algumas ocasiões (o gosto meio insípido de “A Troca” ainda é recente), mas não se engane quanto a “Gran Torino” – um dos melhores, senão o melhor filme dirigido por este veterano cineasta nesta fase final (se é que podemos ousar falar nisso) de sua carreira.

“Gran Torino” transpira essa tradição que Eastwood representa para o cinema, seja como diretor, seja como ator e, agora, até como cantor, já que ele se arrisca a soltar a voz rouca, arranhada e desafinada na bela canção-tema do longa. De volta à frente da câmera, retomando de certa forma o último personagem que interpretou, em “Menina de Ouro”, Eastwood vive Walt Kowalski, veterano de guerra que não se dá bem com os vizinhos e nem mesmo com os próprios filhos. Após a morte da esposa, ele parece se fechar ainda mais. Porém, quando um jovem imigrante chinês que mora logo ao lado da casa do Sr. Kowalski tenta roubar seu carro (um Gran Torino 1972 que dá título ao filme), o velho ranzinza se vê obrigado a mudar de postura. Isso porque o rapaz, Thao, foi obrigado a praticar o roubo por uma gangue da vizinhança, que passa a ameaçar sua família.

O Sr. Kowalski pode ser visto como uma versão aposentada do policial durão Harry Callahan, da série de filmes “Dirty Harry”, que ao lado do “homem sem nome” que Eastwood viveu nos faroestes é um ícone da macheza personificada por ele ao longo dos anos 60, 70 e 80. É esse homem amargo, sempre de sobrancelhas cerradas, que cospe no chão em sinal de desprezo por quem o incomoda. Porém, por baixo de toda essa aspereza, Eastwood encontra em Walt uma camada de humanidade exemplar.

Ele pode demonstrar ser racista, xenófobo, mal educado, grosso e arrogante na maior parte do tempo (o que não impede que sua intemperança seja divertida para o espectador, graças às inspiradas falas escritas pelo roteirista novato Nick Schenk). Mas em uma coisa aquele senhor está certo: não há nada que compre a virtude de ser íntegro com seus valores. E são justamente esses valores tradicionais que Eastwood resgata e transforma na redenção de seu protagonista.

“Gran Torino” contrapõe gerações e culturas e, através de Walt Kowalski, exalta-se diante da perdição que tomou conta de princípios básicos do convívio em sociedade, como respeito, honra, cavalheirismo, cordialidade – ou, simplesmente, bons modos. Eastwood olha para a instituição da família e, como tantos outros diretores têm feito desde o fim dos anos 90, aponta o dedo para a figura paterna. Seu recado é bem direto: cuidem direito de seus garotos, pois eles estão virando marginais ou “pussies” (leia-se: covardes de baixa auto-estima sem rumo na vida). E nisso ele está falando também com o Sr. Kowalski, já que os filhos e netos que o incomodam são também resultado de sua ausência.

É magnífica a transformação pela qual Walt e Thao passam e acompanhá-la é um exercício gratificante de observação cinematográfica. A tradição de Eastwood está principalmente em sua direção, que segue uma cartilha muito básica. Lembro-me de ter visto um show dos Rolling Stones na TV certa vez, e um comentarista destacava a maneira eficaz com que o baterista Charlie Watts conseguia trabalhar, mesmo utilizando um equipamento tão simples. Pode-se dizer o mesmo de Eastwood: aqui ele mostra que sabe exatamente onde posicionar a câmera, como e quando movimentá-la, sem firulas.

Pegue como um exemplo a cena do bolo de aniversário. Após um plano geral que contextualiza a cena, temos basicamente três tomadas principais que se alternam com o ponto de vista de Walt: a primeira enquadra Eastwood, a segunda mostra o filho à sua esquerda e a terceira tem a nora à direita. Note como a câmera se aproxima lentamente do rosto de Eastwood ao longo da sequência, na medida em que os cortes ganham velocidade enquanto o filho e a nora o pressionam a respeito da casa de repouso para onde querem mandá-lo. Na última tomada, a câmera se impulsiona um pouco mais rápido em direção a Walt e garante o ótimo “efeito Hulk” (“You wouldn’t like me when I’m angry!”), no qual ele externa sua raiva. Corta, então, para fora da casa e o filho e a nora saem indignados. Não precisamos ver Walt xingar e expulsar os dois para entendermos que foi isto o que aconteceu. Básico, simples, tradicional.

Outro bom exemplo, agora de composição de uma cena: Walt chega da rua e encontra na entrada de sua casa Thao, sua mãe e sua irmã, Sue. Walt se aproxima e se posiciona de forma a ficar alinhado no quadro, na mesma proporção de Sue – afinal, ela foi a primeira a falar de igual para igual com ele, e por quem ele passa a nutrir simpatia. A mãe, que não fala inglês, está no degrau mais alto. É ela a figura que se impõe na cena. E Thao, que está ali só para ouvir, permanece cabisbaixo e passivo no gramado, abaixo de todos. Aliás, é a partir desta cena que Thao começa a crescer no filme, a partir do momento em que começa a trabalhar para Walt e a se aproximar dele. Se até então seu posicionamento nos quadros era periférico, daí em diante ele ganha cada vez mais lugar, até dividir 50-50 com Walt o espaço de tela.

É protegendo o garoto que tentou roubá-lo, agindo praticamente como um novo pai para ele, que Walt aprende talvez a mais valiosa lição: a da tolerância. Em meio às ditas fábulas modernas que têm chegado às telas, é o “Gran Torino” de Eastwood que vai mais fundo como um conto de moralidade e como um cinema vitorioso pela tradição que supera a pirotecnia.

nota: 10/10 — veja no cinema e compre o DVD

Gran Torino (2008, EUA/Austrália)
direção: Clint Eastwood; roteiro: Nick Schenk; fotografia: Tom Stern; montagem: Joel Cox, Gary Roach; música: Kyle Eastwood, Michael Stevens; produção: Clint Eastwood, Bill Gerber, Robert Lorenz; com: Clint Eastwood, Christopher Carley, Bee Vang, Ahney Her, Brian Haley, Geraldine Hughes, Dreama Walker, Brian Howe, John Carroll Lynch, Chee Thao, Brooke Chia Thao, Choua Kue; estúdio: Warner Bros., Village Roadshow Pictures, Double Nickel Entertainment, Malpaso Productions; distribuição: Warner Bros. 116 min
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