Arraste-me Para o Inferno

Em tempos em que “filme de terror” virou sinônimo de “filme violento”, graças ao sucesso da franquia “Jogos Mortais” e à ascenção da chamada “torture-porn”, ver o horror à moda antiga que Sam Raimi promove em “Arraste-me Para o Inferno” é, no minímo, reconfortante. Na verdade, dizer “à moda antiga” é até certo exagero (ou uma justificativa para meus primeiros fios de cabelo branco). O que Raimi faz é apenas voltar às origens do cinema que o influenciou nos anos 70 e que ele praticava nos anos 80, quando se lançou como cineasta com o já clássico “Evil Dead – A Morte do Demônio”, de 1981.

Como tudo naquela época relacionado ao cinema de entretenimento, o terror era um gênero extravagante, que abusava da fantasia e do sobrenatural em tramas que foram filmadas por David Cronenberg, Wes Craven, John Carpenter, Joe Dante, Tobe Hooper, Tom Holland, além do próprio Raimi, entre outros – sem falar nos efeitos especiais e de maquiagem engenhosos que resultaram em imagens inesquecíveis nas mãos de talentos como Stan Winston, Tom Savini, Rick Baker, Chris Walas e Dick Smith. E já que a proposta é fazer esse resgate, um dos aspectos de “Arraste-me Para o Inferno” em que Raimi poderia ter investido mais é justamente o uso dos efeitos práticos, realizados no set com maquiagem, bonecos animatrônicos e tudo mais.



Percebe-se que muito do que está em cena é real, mas certas sequências não escapam da aparência fake que a computação gráfica quase sempre deixa transparecer. Os efeitos de antigamente (essa palavra de novo) certamente também não pareciam verdadeiros, mas só o fato de você saber que os atores interagiram de verdade com bonecos ou cenários torna a coisa toda mais bem mais verossímil do que qualquer truque de CGI. Veja por exemplo a cena em que a bruxa ataca a personagem de Alison Lohman em uma despensa. Raimi faz tudo certo com a câmera, mas se os efeitos visuais tivessem sido feitos no set, provavelmente a cena pareceria melhor, ainda que você percebesse a presença do latex sobre a pele das atrizes.

Felizmente, Raimi só recorre à computação nas cenas mais “complexas”, já que, na maior parte do filme, as gosmas e o sangue falso são fluidos como devem ser. E que maravilha é o banho de lama que Lohman toma em certo ponto. Raimi sabe a boa atriz que tem na frente da câmera e não hesita em valorizar suas expressões faciais em tomadas fixas no rosto da moça. E Lohman demonstra estar se divertindo à beça: grita, xinga, faz caretas, mergulha de cabeça no espírito da brincadeira e ri do cinismo de sua personagem – uma jovem funcionária de banco que, para ganhar uma promoção, nega uma extensão de empréstimo para uma velhinha que está para ser despejada.

Em época de crise financeira, existe a leitura de que Raimi faz uma sátira social (e bem-vinda, por que não?). Mas isso é só subtexto. Na verdade, o que temos aqui é um cineasta que parece estar cansado de filmar o Homem-Aranha e resolve abrir o baú para relembrar os velhos tempos. Faz bem, e também o faz a Universal Pictures, que acredita no projeto e permite-se brincar, utilizando seu clássico logotipo de abertura dos anos 80, assim como aquela “placa” que surgia após os créditos para convidar o espectador a visitar o parque-temático do estúdio na Califórnia.

Ao mesmo tempo em que faz vários de seus planos-assinatura, Raimi claramente presta uma homenagem a cineastas que o inspiraram, como Dario Argento, Roman Polanski e William Friedkin, não só esteticamente, mas também na forma metade sarcástica, metade nevrálgica com que trata assuntos hoje pouco usados em filmes de horror, como bruxaria, magia negra, possessões e exorcismos.

Por sinal, a trilha sonora traz o tema não utilizado de “O Exorcista”, composto por Lalo Schifrin, além de trechos de composições obscuras de Ennio Morricone misturadas ao score original de Christopher Young. E não se pode esquecer ainda do ótimo trabalho sonoro do filme que, junto com a precisão da montagem, prega aqueles famosos sustos na platéia a cada carta na manga que o bem amarrado roteiro guarda.

Para quem é fã de verdade de terror, “Arraste-me Para o Inferno” é um passeio obrigatório e infalível.

nota: 8/10 — veja no cinema e compre o DVD

Arraste-me Para o Inferno (Drag Me to Hell, 2009, EUA)
direção: Sam Raimi; roteiro: Sam Raimi, Ivan Raimi; fotografia: Peter Deming; montagem: Bob Murawski; música: Christopher Young; produção: Grant Curtis, Sam Raimi, Robert G. Tapert; com: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, David Paymer, Adriana Barraza, Chelcie Ross, Reggie Lee, Molly Cheek; estúdio: Buckaroo Entertainment, Ghost House Pictures, Mandate Pictures, Tippett Studio; distribuição: Universal Pictures. 99 min
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