Anticristo

“Anticristo” não é apenas um filme. É um escândalo. Se desde o início da carreira, com o alegórico policial “O Elemento do Crime” (1982), Lars von Trier demonstra uma tendência para lançar desafios aos bons costumes – sociais, morais e cinematográficos – ele encontra no gênero horror a tela perfeita para expor suas ideias. Ou talvez seja apenas a vitrine mais iluminada onde o cineasta se coloca em exposição.

 

“Ambíguo” possivelmente é o termo mais apropriado para definir “Anticristo”. Se durante toda a projeção os personagens de Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg lidam com dualidades como o bem e o mal, a culpa e o prazer, a morte e a vida, o carinho e a violência, o cristianismo e o paganismo, o resultado de cada um desses embates não fica claro e o espectador pode sair do cinema com mais dúvidas do que certezas.



 

O que é bom por um lado, pois torna “Anticristo” um daqueles filmes que vão para casa com você e instigam o pensamento e o debate. Por outro, a ambiguidade deixa no ar as reais intenções de von Trier, que hora parece estar assinando um atestado de misoginia que atribui à mulher a desgraça do homem. O psicanalista despe progressivamente a esposa de seus traumas até chegar ao verdadeiro eu da parceira, demoníaco e maligno – ela é o anticristo, que leva o homem ao pecado original; ela o atrai para transar sob a “árvore do conhecimento”. É algo que o diretor sinaliza na própria grafia do título, que exibe o símbolo de Vênus no lugar do “T” (o que, vindo de von Trier, não pode não ser visto como provocação). Cabe ainda ressaltar o paralelo temático com o mito de Medéia, assassina dos próprios filhos na versão de Eurípedes, que o próprio von Trier filmou, em 1988, com diálogos que parecem ter sido adaptados diretamente para este mais recente trabalho.

 

Mas, ao mesmo tempo, o cineasta dá a entender que o longa não passa de um conto carregado de simbolismos e papo psicológico sobre a abnegação do ser humano à irracionalidade da natureza. Por exemplo, as várias tomadas que destacam tragédias com que convivem a vegetação (o zoom no vaso de plantas no quarto do hospital) e os animais (o filhote de pássaro devorado por formigas e depois canibalizado por outro da mesma espécie). A floresta, o Éden, seria o ambiente onde a lógica não tem vez e o caos reina. E ao levar a esposa a se fundir com essa natureza, habitada por outras mães de crias mortas, o marido se torna o responsável por libertar a crueldade inerente ao homem (já dizia Hobbes).

 

Existem elementos de sobra na tela que corroboram para todo tipo de leitura, cabendo a cada espectador encontrar sua própria interpretação). Mas se há de ser feita uma análise do filme do ponto de vista estético, o que tenho a dizer é que von Trier se sai muito bem na criação de genuínas imagens de cinema – que é a busca mais sincera que se percebe em todos os seus filmes. Desde o uso da câmera lenta e do preto-e-branco no suntuoso prólogo (narrado em evidente tom sarcástico) até a composição de cenas que parecem mais próprias da pintura, este é provavelmente um dos trabalhos plásticos mais bonitos do cineasta dinamarquês (me lembrou “Europa”, 1991, em alguns momentos).

 

Tal beleza entra em conflito direto com a repulsa que ele causa ao inserir sequências de extrema violência entre o casal protagonista. É onde “Anticristo” decepciona como filme de horror, pois a angústia que von Trier provoca corre pela via do choque, e não por aquela que procura instigar o medo – sentimento este que fica reservado aos personagens e, ao que parece, ao obscuro íntimo do diretor.

nota: 6/10 — vale o ingresso
Anticristo (Antichrist, 2009, Dinamarca/Alemanha/França/Suécia/Itália/ Polônia)
direção: Lars von Trier; roteiro: Lars von Trier; fotografia: Anthony Dod Mantle; montagem: Anders Refn, Åsa Mossberg; produção: Meta Louise Foldager; com: Willem Dafoe, Charlotte Gainsbourg; estúdio: Zentropa Entertainments, arte France Cinéma, ZDF/Arte; distribuição: Califórnia Filmes. 109 min
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