127 Horas

Existe uma razão para o homem viver em sociedade. Por mais que ele tenha a capacidade de se adaptar aos ambientes mais diversos, se ele precisar de ajuda, de nada adiantará sua força ou seu raciocínio. “127 Horas” começa com imagens de multidões: gente rezando, correndo em uma maratona, vibrando em um estádio, se amontoando para pegar o metrô. Não estamos vendo isso gratuitamente.

Logo depois daquelas imagens, conhecemos o personagem de James Franco, o alpinista Aron Ralston, que pega o carro e segue rumo aos canyons do deserto norte-americano. “Só eu, a música e a noite!”, ele grita entusiasmado enquanto dirige. Ficar sozinho de vez em quando faz bem, principalmente quando é preciso colocar as ideias em ordem. Mas viver sozinho? Está aí algo que não é fácil, por mais que alguém negue a necessidade de ter os outros por perto.



A aventura solitária de Aron, como você já deve saber a essa altura, leva o rapaz a ficar preso em uma fenda, com o braço espremido entre uma rocha e parade de um canyon. Quase todo o filme se passa dentro do buraco onde o protagonista se vê isolado e sem socorro. Lá dentro, ele relembra os momentos em que esteve com amigos e com a família, tanto os momentos em que foi feliz com essa companhia quanto aqueles que deixou passar. É nessa estrutura de flashbacks que o diretor Danny Boyle apoia o filme apenas para dizer que “nenhum homem é uma ilha”.

“127 Horas” é um filme de mensagem pronta, que segue de perto a fórmula que Boyle usou em “Quem Quer Ser um Milionário”. Nos dois filmes, os flashbacks surgem quando pequenas coisas levam o personagem a buscar na memória momentos que estão ligados àquilo que ele está vivendo no presente da narrativa. A diferença é que, em “127 Horas”, Boyle não força tanto a barra para interligar as lembranças, embora um filme não seja menos manipulativo do que o outro.

Aliás, um problema que surge é justamente a angústia, não por vermos a situação do protagonista, o que já bastaria, mas pela expectativa construída no público em torno do fato, construído ou não, de que algumas pessoas desmaiaram ao assistir ao filme. Isso gera a espera por uma cena mais forte, e enquanto a tal cena não surge, você quer que ela chegue logo, o que acaba desviando a atenção do que realmente importaria, que é o drama do personagem.

Boyle poderia perfeitamente ter apenas sugerido o que Aron fez para se soltar da pedra, sem que o ato fosse ignorado ou minimizado. Mas Boyle é conhecido por seus excessos. Ele nunca perderia a oportunidade de mostrar o máximo, inclusive o que ele não consegue filmar sem o uso de artifícios (há câmeras em tudo: câmera-Aron, câmera-bike, câmera-garrafa de água, câmera-canudo, câmera-braço e até mesmo câmera-dentro-da-câmera), apenas para fazer o público reagir.

Ainda que forçosamente, Boyle faz de “127 Horas” um filme-físico, um filme-experiência, em que a própria textura das imagens incorpora ruídos de vídeo, dentro da lógica atual de que tudo é imagem, no isolamento do “faça você mesmo” (note como algumas cenas parecem vídeos do YouTube). Há mérito nisso, mas um mérito técnico. É claro que colabora para o envolvimento emocional do espectador, mas faz com que isso seja, não uma possibilidade, e, sim, uma imposição.

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