Bravura Indômita

“Um quarto de século é muito tempo”, diz Mattie Ross em certo momento de “Bravura Indômita”. Meio século, então, nem se fala. Pouco mais de 40 anos separam a primeira adaptação do livro de Charles Portis pela lente de Henry Hathaway desta nova versão, filmada pelos irmãos Joel e Ethan Coen. No intervalo entre um filme e outro, o western entrou em declínio e ressurgiu, incorporou outros gêneros, se modernizou, mas nunca deixou de estar presente na cinematografia mundial. Intimamente ligado à história, especialmente a americana, e à própria história do cinema, o western tem para o público mais jovem um aspecto de filme antigo, de coisa que só nossos pais e avós gostam. Pois neste novo “Bravura Indômita”, esse público tem a oportunidade perfeita para descobrir que faroestes não precisam ser repaginados para parecerem novos e só assim serem apreciados.

Os irmãos Coen fazem ao mesmo tempo uma homenagem ao western clássico, histórico, e uma revigorante revisão do filme de 1969. Desde a primeira cena, a dupla de diretores demonstra ter uma admiração pelo gênero que beira a devoção. Contando com a fotografia de Roger Deakins e a música de Carter Burwell, ambos colaboradores de longa data dos Coen, tanto as imagens quanto a trilha sonora evocam o espírito dos bons e velhos faroestes, sem que o filme pareça datado. Diferente do que fizeram em alguns de seus mais consagrados trabalhos, como “Gosto de Sangue” e “Onde os Fracos Não Têm Vez”, neo-westerns à moda Coen, aqui Joel e Ethan lançam um olhar cheio de respeito, solene, às suas influências, mas sem serem submissos a elas.



Os cineastas não deixam de ser autênticos, colocando no filme sua própria escrita. Estão lá o humor negro (embora a conta-gotas), a violência crua e a elegância formal, tradições na obra deles. Não se pode nem dizer que fizeram uma refilmagem, mas, sim, uma nova adaptação, mais fiel ao livro. Algumas cenas, especialmente às de ação, são bem parecidas com as que também estão no filme de Henry Hathaway. Não há como saber se Hathaway não faria um filme melhor hoje, já que os Coen se beneficiam da evolução da linguagem cinematográfica. O importante, no entanto, é que eles tiram total proveito dessa vantagem, tornando o filme ainda melhor do que a primeira versão que, verdade seja dita, se destaca mais pela atuação de John Wayne.

E em Jeff Bridges, os Coen encontram o intérprete perfeito para o beberrão e durão agente federal Rooster Cogburn, ainda mais eloquente do que na versão de Wayne. O polivalente Matt Damon também está à vontade como o “Texas Ranger” LaBoeuf, enquanto Josh Brolin e Barry Pepper impõem presença em cena, mesmo em papéis com menor tempo de tela. Mas o filme é mesmo da estreante Hailee Steinfeld, que aos 13 anos de idade tem a segurança de uma veterana. É ela a protagonista e é principalmente em sua personagem que os Coen depositam as grandes questões do filme: a vingança que surge do básico anseio por justiça, a bravura escondida na mais frágil das coisas, a lealdade não como virtude, mas como parte inquestionável do bem comum.

Não é difícil lembrar do “Rio Bravo” de Howard Hawks (outro clássico com John Wayne), onde as questões humanas também são trabalhadas no plano segundo da aventura, da ação, da grandiosidade do velho-oeste. Não é difícil porque os Coen sabem que é disso que é feito o bom western – logo, o bom cinema.

Bravura Indômita (True Grit, 2010, EUA)
direção: Ethan Coen, Joel Coen; roteiro: Ethan Coen, Joel Coen (baseado no livro de Charles Portis); fotografia: Roger Deakins; montagem: Roderick Jaynes (aka Ethan Coen e Joel Coen); música: Carter Burwell; produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin; com: Hailee Steinfeld, Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin, Barry Pepper, Dakin Matthews, Jarlath Conroy, Paul Rae, Domhnall Gleeson, Elizabeth Marvel, Roy Lee Jones, Ed Corbin, Leon Russom, Bruce Green, Peter Leung; estúdio: Paramount Pictures, Skydance Productions, Scott Rudin Productions, Mike Zoss Productions; distribuição: Paramount Pictures. 110 min

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