Comer, transar, amar

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Na história em quadrinhos que inspirou “Azul é a Cor Mais Quente”, a personagem que no filme é interpretada por Léa Seydoux diz para a mãe da protagonista: “Se eu fosse um rapaz, ela teria se apaixonado por mim do mesmo jeito.”

A fala foi suprimida no filme, que segue estrutura narrativa diferente da adotada pela quadrinhista francesa Julie Maroh, embora se mantenha fiel à maioria dos eventos ilustrados na HQ. Mas a essência daquela frase é também a grande virtude do filme dirigido por Abdellatif Kechiche.



O romance entre as duas garotas é retratado da forma mais natural possível, como tem que ser encarada uma relação homossexual por qualquer um também fora da tela. Mas o objetivo do filme nem é passar uma mensagem nesse sentido: é estudar a personagem principal, seus sentimentos e como ela lida com eles no auge de sua transição de uma adolescente para uma adulta.

Claro, por ser sobre um casal homossexual, o filme não poderia ficar alheio à reação das pessoas ao redor das personagens. Elas são vítimas de preconceito da mesma forma como (ainda, infelizmente) acontece na vida real, mas elas também são vítimas da insegurança, do ciúme, da ansiedade, do desejo, como qualquer outra pessoa. As personagens são humanas, isso é o que importa, e não levantar uma bandeira.

Kechiche faz questão o tempo inteiro de que estejamos em contato com as emoções da protagonista, que a jovem Adèle Exarchopoulos transforma numa das personagens mais complexas vistas numa tela de cinema este ano. Numa atuação soberba, ela consegue segurar um filme de três horas de duração durante as quais a câmera passa 90% do tempo mostrando seu rosto. Nessa opção pelo close-up, o diretor tem o rosto de Adèle como sua tela particular: é em seu olhar, seu sorriso, suas expressões mais sutis que você entende o que ela está sentindo, mesmo que ela não fale. Léa Seydoux também está incrível, mas o show é de Adèle, que é por quem você torce e chora, de quem você ri e sente raiva.

E há, claro, o sexo – oh, o tão polêmico sexo! E as cenas são realmente “gráficas”, como dizem. As atrizes se entregam uma a outra na tela. Se foi feita alguma manobra ou trucagem ali, ela é imperceptível, ao menos num primeiro momento.  São três ou quatro sequências, sendo que a primeira dura vários minutos. É uma filmagem crua, nada sensualizada ou erotizada. De início, aquilo tudo pode mesmo soar gratuito, expositivo demais. No entanto, há um contexto que, mais tarde, revela a necessidade de termos testemunhado não apenas as descobertas sexuais de Adèle, mas, principalmente, a intensidade com que elas aconteceram. É mais um elemento que torna seu sofrimento passível da compreensão do espectador.

Além do mais, seria uma grande hipocrisia se Kechiche não filmasse o sexo daquela forma. Sua proposta, desde a primeira tomada, é fazer com que o público esteja junto de Adèle mesmo nos momentos mais triviais, enquanto ela dorme e baba no travesseiro ou enquanto come macarrão, por exemplo. É um filme de contato, de pele, que te leva junto de tal forma que dispensa qualquer didatismo entre as elipses temporais que fazem a história avançar.

É uma história de amor, mas muito mais sobre o amor, que é complexo, intenso, doce, doloroso, transformador e vivido por todo mundo. ■

AZUL É A COR MAIS QUENTE (La vie d’Adèle – chapitre 1 & 2, 2013, França/Bélgica/Espanha). Direção: Abdellatif Kechiche; Roteiro: Abdellatif Kechiche, Ghalia Lacroix (baseado na graphic novel de Julie Maroh); Produção: Brahim Chioua, Abdellatif Kechiche, Vincent Maraval; Fotografia: Sofian El Fani; Montagem: Sophie Brunet, Ghalia Lacroix, Albertine Lastera, Jean-Marie Lengelle, Camille Toubkis; Com: Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kechiouche, Aurélien Recoing, Catherine Salée, Benjamin Siksou, Mona Walravens, Alma Jodorowsky, Jérémie Laheurte, Anne Loiret, Benoît Pilot; Estúdios: Quat’sous Films, Wild Bunch; Distribuição: Imovision. 179 min

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