WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO

WHIPLASH

“Não existem duas palavras mais nocivas na língua inglesa do que: ‘bom trabalho’.” Com esta fala, Damien Chazelle, o diretor e roteirista de “Whiplash”, define o tema de seu longa de estreia, realizado após o curta de mesmo nome, ambos premiados no Festival de Sundance.

É um conto sobre superação de limites e disciplina que também questiona a origem do talento: é um dom natural ou algo conquistado com muito esforço? As pessoas podem pensar que um grande artista simplesmente nasceu assim, e ignoram que houve muito trabalho antes de se conquistar o reconhecimento. Neyman (papel de Miles Teller) sem dúvida tem um dom, mas para transcender precisa do professor Fletcher (papel de J.K. Simmons, o típico coadjuvante veterano que rouba toda cena em que aparece, e isso não é de hoje).



O filme, por ser um conto, se utiliza do exagero quase fantasioso na representação do professor superexigente, que humilha os alunos tal qual o general Hartman faz com seus recrutas em “Nascido Para Matar”. Sua justificativa (não quer deixá-los acomodados, fazendo apenas um “bom trabalho”) se confunde com seus motivos pessoais, mas o filme não deixa dúvida de que ele é uma pessoa que acredita firmemente em sua missão de vida.

Como todo conto moral, este não escapa de passar uma lição ao espectador, mas felizmente Chazelle consegue não soar plenamente moralista, especialmente pelo ato final, que deixa uma ambiguidade no ar a respeito da relação de Neyman e Fletcher, que são ao mesmo tempo aluno e professor, rivais e cúmplices. Fica muito claro o que os levou até ali e por que estão ali, mas não sabemos o que será a partir dali.

Na direção, Chazelle faz algo interessante: a montagem parece acompanhar as batidas aparentemente descompassadas e improvisadas do jazz. Takes estranhos surgem e vão entre um corte e outro, mas aos poucos parecem entrar no ritmo. Parece um ensaio de Neyman para a apresentação final, onde essa proposta flui melhor. Fica uma sensação incômoda no entanto, como se Chazelle estivesse imitando Martin Scorsese em alguns momentos ou, com maior frequência, seguindo um estilo que os fãs de Quentin Tarantino, Darren Aronofsky e Danny Boyle conhecem muito bem. ■

Nota: 7/10 — vale o ingresso

WHIPLASH – EM BUSCA DA PERFEIÇÃO (Whiplash, 2014, EUA) — direção: Damien Chazelle; roteiro: Damien Chazelle; fotografia: Sharone Meir; montagem: Tom Cross; música: Justin Hurwitz; com Miles Teller, J.K. Simmons, Paul Reiser, Melissa Benoist, Austin Stowell, Nate Lang; distribuição: Sony Pictures. 107 min
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