Um dos talentos que eu mais admiro em Jorge Furtado é o bom humor presente em seus filmes, sempre usado com originalidade e acidez e associado a questões morais, éticas e políticas. Em “Real Beleza”, o cineasta gaúcho se distancia dessa característica e nos apresenta um drama mais "convencional", digamos.

REAL BELEZA: Em busca de inspiração

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Um dos talentos que eu mais admiro em Jorge Furtado é o bom humor presente em seus filmes, sempre usado com originalidade e acidez e associado a questões morais, éticas e políticas. Em “Real Beleza”, o cineasta gaúcho se distancia dessa característica e nos apresenta um drama mais “convencional”, digamos.

Vladimir Brichta interpreta um fotógrafo que visita diversas cidades do Rio Grande do Sul à procura de uma jovem revelação para a carreira de modelo. Após fotografar e entrevistar centenas de garotas, ele fica decidido a contratar uma adolescente de 16 anos, papel da estreante Victoria Strada. O desejo dela é realmente sair de sua cidade e conhecer o mundo. A garota tem o apoio da mãe, vivida por Adriana Esteves, mas é impedida de seguir seu sonho pelo pai, papel de Francisco Cuoco. Ele, que perdeu a visão e não sente mais que pode ser útil para sua família, quer que a filha termine os estudos primeiro.

Vamos voltar ao início do filme, antes de o protagonista encontrar sua musa. Ele passa por um momento de stress enquanto tenta dirigir uma modelo para um ensaio num museu. O trabalho acaba com um tapa na cara da moça, uma agressão que deveria enquadrar o cara na Lei Maria da Penha e render um outro filme. A cena também culmina com a destruição de uma obra de arte. Há um recado sendo dado nisso, um desabafo, parece.

Na sequência do título do filme, o fotógrafo entra na maratona de testes, uma tarefa realmente estafante, mas que Furtado transforma numa gag através da montagem de sucessivos closes com depoimentos das garotas, dizendo a cidade onde moram entre outras informações (acho que vi Leandra Leal ali, praticamente como um easter egg, se meu olhar não me engana). A série de entrevistas continua até que o fotógrafo encontra a garota. Penso se a chave do filme e a motivação que levou Furtado a fazê-lo não está nessa busca, que me fez lembrar do excelente “Na Cidade de Sylvia”. Não sei se Furtado viu o filme do espanhol José Luis Guerín, nunca lançado oficialmente no Brasil, mas isso não importa tanto, já que, a partir da fixação do fotógrafo na descoberta de sua ninfa, ele muda o foco: sai da subjetividade do conceito e parte para a dramaturgia plena.

O protagonista não precisa se esforçar muito para conseguir o que quer. O conflito principal, que seria o impedimento que o pai da menina coloca para que ela arrume as malas e siga a carreira de modelo, se resolve facilmente. Daí, outro conflito importante, que seria a relação extraconjugal que o fotógrafo tem com a mãe da garota, também tem uma solução em que o personagem principal não precisa fazer muita coisa. Ele simplesmente está lá e os fatos se desenrolam.

Talvez seja isso: ele, como fotógrafo profissional e reconhecido, sabe o que tem que fazer e sabe que vai conseguir transformar a garota em um sucesso. O que o atrai de verdade nessa procura é a beleza que ele encontra na mãe da menina, naquela paisagem escondida e até mesmo naquela relação familiar de pretensos apegos.

De todo modo, a impressão é que Furtado não está muito preocupado com a construção de uma narrativa, mas apenas em fazer um relato. Aconteceu assim e pronto. Dessa forma, ele nos propõe pouco envolvimento e acaba prejudicando a experiência que se tem com o filme, que tem um elenco muito bom, é bem filmado e tem uma atmosfera um tanto misteriosa. Justamente por isso, fica aquela sensação de coisa inacabada. Nós esperamos que algo mais aconteça, mas não: é só aquilo mesmo.

Talento não se perde, mas às vezes teima em se esconder, devido a uma infinidade de motivos que não nos cabe especular. Se Furtado precisava de um retiro para buscar novas inspirações, tanto ótimo. Nós ficamos aqui, sempre ansiosos pelo seu próximo trabalho, seja drama, comédia ou documentário. Claro, o cineasta tem todo direito de fazer o filme que bem entender, e é saudável respirar novos ares, reinventar o próprio estilo, independentemente se o resultado agrada ou não. Afinal, a real beleza, por assim dizer, certamente não se reduz a um juízo de valor. A arte está aí como prova inconteste disso. ■

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