“Divinas Divas”: personalidade e intimidade

Longa-metragem de estreia da atriz Leandra Leal (“A Ostra e o Vento”, “O Homem que Copiava”, “O Lobo Atrás da Porta”), o documentário “Divinas Divas” parte não só da experiência, mas da vivência da autora do projeto junto às integrantes do precursor grupo de travestis que dá título ao filme e que se apresentava no Teatro Rival, localizado na região da Cinelândia, no Rio de Janeiro. O teatro foi fundado pelo avô de Leandra, Américo Leal, em 1966, no momento em que o Brasil já vivia o regime ditatorial pós-golpe de 64.

A narração em off de Leandra, logo no início do filme, já fornece o contexto de sua motivação para realizar o filme, uma atitude muito sincera da parte dela, deixando claro seu afeto pessoal, não só pelo local (o qual ela revitalizou e hoje administra), mas pelas personagens, as quais também se entregam à lente de Leandra em depoimentos íntimos e emotivos acerca de suas carreiras artísticas e dos preconceitos dos quais foram vítimas na família e na sociedade.

No entanto, não é um filme áspero, pois esses depoimentos são parte de um todo que tem um propósito maior de celebrar as Divinas Divas e ressaltar a importância que tiveram à época em que surgiram, pois, por meio da subversão dos padrões sociais, da beleza e do humor (não um humor jocoso, mas um humor mais puro que advém da performance delas e do estranhamento natural que provocam no espectador), elas levaram alegria aos que viviam os anos de chumbo.

O documentário adota o formato de entrevistas clássico (e até mesmo seriado, o que torna a experiência um tanto cansativa após a proposta já estar estabelecida), mas não é simplesmente um filme de cabeças falantes. Ainda que Leandra só se revele para a câmera em uma breve cena ao fim do filme, sua interação com as personagens não se esconde, pois em diversos momentos ouvimos sua voz nas entrevistas. É o que dá ao filme o tom intimista que permite a todos, diretora e entrevistadas, alcançar uma leveza mesmo nas falas mais difíceis.

Ao mesmo tempo, estamos diante de uma jovem diretora que demonstra ter preferências estéticas das mais interessantes, com planos de longa duração, como a cena inicial em que a câmera apenas paira sobre o rosto de Marquesa (a quem é feita uma dedicatória nos créditos, em razão de sua morte antes da conclusão do filme). Nos bastidores de uma apresentação, seu rosto é enquadrado à meia-luz e em meio às cores e brilhos que invadem a coxia, e a lente incorre em suaves desfoques enquanto a personagem parece meditar ou refletir. Há um outro longo plano-sequência que acompanha as Divas caminhando pelas calçadas da Cinelândia até entrarem no teatro.

Enfim, são escolhas que, feitas ao lado do diretor de fotografia David Pacheco (e do também ator e fotógrafo Júlio Andrade, não creditado), dão um ganho visual ao filme, imprimem a ele uma personalidade e que são até mesmo ousadas, se levarmos em conta que a objetividade histórica imposta ao documentário não costuma oferecer espaço para fruições imagéticas. ■


Filme visto na abertura da 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

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