Em “Elon Não Acredita na Morte”, o assombro da ausência

Filme de abertura da 10ª edição da CineBH, “Elon Não Acredita na Morte” teve origem na própria mostra, em 2013, quando foi um dos projetos vencedores do Brasil Cinemundi, iniciativa da Universo Produção para incentivar a coprodução cinematográfica em rodadas de negócios que ocorrem durante a própria mostra. O filme dirigido pelo mineiro Ricardo Alves Jr. é o seu primeiro longa-metragem e teve como base o curta “Tremor”, realizado pelo cineasta em 2013 (assista aqui).

“Tremor” foi premiado no Festival de Brasília naquele ano (com os Candangos de Direção, Fotografia e Montagem) e, em 2016, “Elon Não Acredita na Morte” saiu da capital federal com outro prêmio, o de Melhor Ator para Rômulo Braga — que interpreta o personagem real, protagonista do curta.

Utilizando uma filmagem de ponto de vista, em que a câmera vai literalmente atrás do personagem principal durante quase todo o filme — recurso que pode ser identificado como influência do cinema dos irmãos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne (vencedores da Palma de Ouro por “Rosetta” e “A Criança”) –, Alves Jr. constrói o retrato do desespero de um homem que não sabe o paradeiro de sua companheira.

O verbo “construir” parece adequado ao filme, uma vez que é um cinema de arquitetura, com forte influência dos cenários, locações e ambientações sobre a psicologia do personagem em sua jornada. Filmado em grande parte em Belo Horizonte, o longa se aproveita de lugares há muito abandonados na capital mineira (como o prédio em que funcionava o curso de Engenharia da UFMG) e os constantes canteiros de obra que há anos formam a paisagem inóspita de certa porção da região central da cidade.

As locações não apenas fazem parte da construção narrativa como condizem com o estado de espírito de Elon, um homem que, quando parece se aproximar de alguma resposta, na verdade ganha duas vezes mais questionamentos. Dúvidas que deixam de ser apenas sobre o destino da mulher e ganham sentidos assustadoramente mais íntimos, como se, a cada passo, Elon afundasse em seus temores e perdesse a razão. As noções do que é real ou devaneio se misturam na escuridão de sua alma perturbada.

O potente desenho de som de Pablo Lamar em conjunto harmonioso com a fotografia de Matheus Rocha e a direção de arte de Diogo Hayashi envolvem o espectador no labirinto de medo e delírio ao qual a câmera de Alves Jr. nos conduz e de onde não há saída aparente. Por isso a negação de Elon se torna o único lugar ao qual ele ainda pode se agarrar. No fim trágico de um relacionamento, talvez seja como nós nos sentiríamos também. ■


Nota: resenha escrita durante a cobertura da Mostra CineBH e publicada originalmente em 22/10/2016. O filme também participou da 20ª Mostra de Tiradentes.

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