"Assunto de Família" (Shoplifters/Manbiki kazoku, 2018) - Foto: Divulgação
"Assunto de Família" (Shoplifters/Manbiki kazoku, 2018) - Foto: Divulgação

“Assunto de Família”: Amar é…

“Assunto de Família” é um filme sobre o que constitui uma família. Fala-se muito, especialmente hoje em dia, sobre “valores familiares”. Mas quais são eles? Que sentimentos ou preceitos morais conectam um grupo de pessoas e permitem identificá-lo como uma “família”?

Num dos gestos mais artisticamente ousados e inesperadamente subversivos de 2018, Hirokazu Koreeda (“Depois da Tempestade”) se atreve a dizer – no que talvez seja seu melhor trabalho – que a resposta é uma só: amor. E o que pode parecer uma proposta absolutamente clichê ou baranga se torna, diante do cinismo e do ódio que dominam o mundo hoje, um dos longas mais moralmente complexos e provocadores do ano.

Porque o (merecido) vencedor da Palma de Ouro em Cannes conta, na verdade, duas histórias. Uma que é encenada pelo cineasta japonês na 1h30 inicial. E que é narrada de novo, de um ponto de vista institucional, na meia hora final. O poder do filme é que nenhuma delas está errada. E a crise de consciência que atormenta o espectador entre qual das duas escolher diz muito de como o mundo (e o Brasil) hoje se divide entre quem opta amar ou odiar.

O longa acompanha a família de vigaristas formada pela matriarca Hatsue (Kirin Kiki, veterana parceira do cineasta, falecida em 2018), o casal Osamu (Lily Franky) e Nobuyo (Sakura Andô), o garoto Shota (Jyo Kairi) e a jovem Aki (Mayu Matsuoka). Eles vivem de pequenos golpes – roubos, mentiras, contravenções – e a trama começa quando o grupo encontra a pequena e adorável Yuri (Miyu Sasaki), negligenciada pelos pais, e decide “adotá-la”. Leia-se, acolhê-la em sua caótica casa.

Até o ato final, Koreeda nunca deixa muito claro se o laço que liga todas aquelas pessoas é exatamente sanguíneo. Porque não é isso que interessa a ele. E sim, mostrar como aquelas pessoas realmente amam umas às outras. Como o afeto entre elas é autêntico e palpável, e como as rixas e desavenças são as mesmas de qualquer outra família.

Os personagens adultos não são pessoas estritamente boas, ou corretas. Eles mentem, enganam, roubam – e ensinam as crianças a fazer o mesmo. Mas da fotografia de Ryûto Kondô, que filma os rostos e corpos dos personagens com uma proximidade que permite quase tocar a pele deles; à belíssima trilha de Haruomi Hosono, calorosa e singela, o cineasta constrói um universo narrativo tão coeso e convincente em torno daquele núcleo familiar, que o público só consegue enxergá-los como seres humanos imperfeitos, cujas falhas morais e legais são infinitamente redimidas pelo carinho e afeto irresistíveis que sentem umas pelas outras.

É uma condução narrativa manipuladora, auxiliada pelo elenco impecável – das atuações naturalistas e encantadoras das duas crianças ao calor maternal de Sakura Andô. E Koreeda está totalmente consciente dessa manipulação, inserindo o espectador nessa bolha amoral ou a-legal com maestria. E estourando essa bolha no ato final, trazendo seus personagens e suas fábulas de volta para o mundo real com enquadramentos duros e cortes secos e frios.

É quando você vai rever a mesma história como ela seria contada na TV ou nos jornais. Os integrantes da família deixam de ser pessoas para se tornarem rótulos – “bandido”, “ladrão”, “assassino”, “vítima”, “pobre”, “sequestrador” – com a humanidade sendo totalmente extirpada deles para que se adequem a uma narrativa legal. O problema disso é que ninguém é uma coisa só: só um bandido, só um ladrão, só um pobre, só uma vítima. E o nosso ódio é tamanho que, para alimentá-lo, nós paramos nessa primeira camada – permanecendo dentro da nossa bolha e recusando-nos a mergulhar na complexidade da existência humana.

“Assunto de Família” é tão potente porque seu convite a dar esse mergulho é tão narrativamente incontornável. E ao optar por amar, ao invés de odiar, o espectador é tomado por uma complexidade moral tão grande, que a tentativa de encontrar uma resposta vai permanecer com ele por dias, semanas e meses após a sessão. Porque o mundo não é preto e branco. E bandido bom não é bandido morto. É o bandido que talvez ame mais do que você odeia.

Texto escrito como parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo. O crítico viajou a convite da Mostra.

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