"Rasga Coração" (2018) - Foto: Casa de Cinema de Porto Alegre/Divulgação
"Rasga Coração" (2018) - Foto: Casa de Cinema de Porto Alegre/Divulgação

“Rasga Coração”: Como nossos filhos

“Rasga Coração” é um texto sobre conflito de gerações. Sobre as falhas de comunicação entre um pai e um filho de tempos diferentes, ideais diferentes, rebeldias diferentes, utopias diferentes. Por isso, não é de se espantar que a adaptação para o cinema sofra de uma certa falta de foco entre esses dois pontos de vista.

No fim das contas, porém, o diretor Jorge Furtado não esconde sua idade – e sua geração – e acaba privilegiando o ponto de vista do pai. E isso faz de “Rasga Coração” um filme sobre resistência e revolução para os seus pais – para um público mais velho, que talvez já teve ideais um dia, mas hoje se renderam às engrenagens do sistema. Um longa que se pretende revolucionário, mas é conservador e um tanto careta em sua realização – que tenta entender o mundo e a juventude de hoje lá fora, mas permanece preso no palco e nas palavras da peça de Oduvaldo Vianna Filho.

A trama segue Custódio (Marco Ricca), ou “Manguari Pistolão”, veterano militante de esquerda na ditadura que vive hoje uma pacata existência classe média como servidor público, casado com Nena (Drica Moraes). Enquanto recorda seus atos de resistência nos anos de chumbo (quando é vivido por João Pedro Zappa), ele tenta enxergar seu espírito revolucionário no filho Luca (Chay Suede). E quando o garoto e a namorada Milena (Luísa Arraes) são impedidos de entrar na escola por usarem roupas dos gêneros opostos, o pai tenta ajudá-los a organizar uma resposta, mas acaba se chocando com as ideias do casal.

Furtado atualiza o texto original, escrito nos anos 70, levando a militância de Custódio para a ditadura e o conflito de Luca para a luta atual por liberdade e fluidez de gênero. O problema é que o cineasta nunca parece disposto a mergulhar seu filme de verdade no progressismo sexual dessa geração.

Luca e Milena são dois jovens brancos, héteros e cis, cujos atos mais rebeldes são o veganismo, as unhas pintadas ou as roupas trocadas. Não há personagens LGBTQ, e os negros são periféricos na história, o que acaba tornando a tentativa de atualizar a peça uma oportunidade um tanto perdida. A superficialidade da luta do casal é, possivelmente, proposital e um olhar de Furtado sobre a juventude atual. Mas ela enfraquece o embate entre pai e filho que explode no ato final – com um argumento soando muito mais forte que o outro.

Os flashbacks na ditadura, por outro lado, são bem mais desenvolvidos. O diretor faz um bom uso da edição de som para mostrar como as memórias de Custódio o perseguem ainda hoje. Mas o recurso, e as sequências no passado, acabam sendo usados em exagero e se tornando um tanto cansativas. O maior sintoma disso é Bundinha (George Sauma), amigo do protagonista cujo humor soa fora do tom do filme no início, e insuportavelmente chato no final. Furtado ainda faz uma escolha estranha de uma trilha de bandinha de exército meio cômica em um confronto com os militares, mas as cenas da tortura (mesmo teatrais) são impactantes – especialmente no cenário atual.

Esse aspecto teatral, por sinal, nunca foge de “Rasga Coração”. Com exceção dos flashbacks, o longa quase não sai do apartamento da família em Copacabana – e esse é o sintoma mais claro de como o filme está mais interessado no texto original do que em realmente abraçar o mundo de hoje.

Essa dramaturgia, no entanto, também reforça como Furtado continua um dos melhores diretores de ator do cinema nacional. Drica Moraes e Marco Ricca estão excelentes. O último especialmente, carrega em seu corpo tenso e seu rosto cansado quase todo o conflito de gerações do longa, como um homem preso entre o medo de se tornar o pai e a incompreensão das ações do filho – sua performance na explosão final de Custódio é catártica e impecável.

O porém é que a soma de tudo isso às muitas deixas musicais pouco sutis acaba reincidindo na tendência recente dos longas de Furtado de parecer bem mais TV que cinema. Ainda mais levando em conta seu tema, “Rasga Coração” parece contido, quando precisava ser arriscado; conservador, quando precisava ser ousado; mais preocupado com o passado, quando é necessário dialogar com o presente. Mas talvez isso tudo seja a essência de sua própria premissa. ■

Texto escrito como parte da cobertura da 42ª Mostra de Cinema de São Paulo. O crítico viajou a convite da Mostra.

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