Set de "Vaga Carne" - Foto: Renato Silveira/cinematório
Set de "Vaga Carne" - Foto: Renato Silveira/cinematório

Entrevista: Grace Passô e Ricardo Alves Jr., parceria artística mineira em destaque

Em dezembro, o cinematório acompanhou alguns momentos de um dia de filmagens do média-metragem “Vaga Carne”, que abre a 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes neste 18 de janeiro. O filme é uma realização da renomada artista, dramaturga, atriz e diretora Grace Passô, homenageada da Mostra, e de Ricardo Alves Jr., diretor de teatro e cineasta mineiro que dirigiu “Elon Não Acredita na Morte” (2016).

O cenário preparado era escuro e, sob o único foco de luz, estava Grace Passô, que vimos — tanto diretamente quanto pelo monitor de câmera — se transformar em sua personagem e nos prender a atenção com sua presença marcante e seu magnetismo. Mas não nos foi entregue nenhum “spoiler“. Neste breve instante que acompanhamos, apenas tivemos a curiosidade aguçada e, agora, estamos muito perto de assistir ao resultado final.

A amizade de Grace e Ricardo é fecunda e já rendeu outros trabalhos anteriores a este filme, sobre os quais ambos comentaram durante as entrevistas individuais que nos concederam no set. Um deles é a peça teatral “Sarabanda”, onde dividiram a direção do espetáculo criado a partir do último longa de Ingmar Bergman. Interessante como a interação entre artes e a fluidez criativa, especialmente nos campos do teatro e do cinema, permeiam essa bela parceria.

O média-metragem “Vaga Carne” é descrito como uma transcriação da peça teatral de mesmo nome, em linguagem cinematográfica. O espetáculo, um solo performado e escrito por Grace Passô, mostra uma mulher que vive a urgência do discurso, a urgência de renomear o mundo e nomear-se, à procura de suas identidades e de pertencimento. Estreou em 2016 e ainda hoje segue em cartaz nos circuitos de arte. Foi indicado aos prêmios BRAVO!, APTR, Prêmio Questão de Crítica, Shell RJ, Prêmio Cesgrario, Prêmio Leda Maria Martins, sendo vencedor dos cinco últimos.

“Vaga Carne”, Foto: Andrea Capella

Abaixo, você lê na íntegra a entrevista que fizemos, primeiramente, com Grace Passô e, em seguida, com Ricardo Alves Jr. Um interessantíssimo bate-papo sobre o fazer artístico, corpos em cena e corpos políticos e as diferenças e diálogos entre a linguagem teatral e a cinematográfica.

GRACE PASSÔ

Grace, em primeiro lugar, como foi receber a notícia da homenagem na Mostra de Cinema de Tiradentes, especialmente considerando que você tem uma história maior no teatro?

Grace: Primeiro eu morri de rir, no sentido de ficar muito surpresa com isso porque eu tenho poucos trabalhos de cinema. Depois eu achei muito interessante esse lugar de uma homenagem a alguém por um trabalho em Arte, não necessariamente da linguagem do cinema, entendendo que as artes se atravessam, se influenciam, se afetam profundamente. Essa reflexão eu tive depois de conseguir aceitar a homenagem (risos). Eu fiquei pensando no quanto interessante pode ser homenagear, por exemplo, um grande musicista num contexto teatral, uma grande diretora de cinema no contexto da música… Isso só faz expandir a noção de Arte. Também acho interessante esse lugar da homenagem como um farol. Ao me homenagear, eu acredito que a Mostra, de alguma forma, tenta localizar essa produção artística como algo que ainda pode crescer muito. Aponta muito mais para um futuro do que, necessariamente, para um passado. E homenagem não tem muito o que falar. Homenagem se recebe, não é? Fico muito feliz e não tenho dúvida de que me homenagear diz respeito a homenagear muitas outras pessoas também. Eu me sinto como uma janela para outras pessoas, uma porta, enfim… É isso.

A homenagem está atrelada à exibição do média-metragem “Vaga Carne”, que é baseado na peça e será exibido durante a abertura da Mostra de Tiradentes. A ideia de fazer essa transposição, transcriação, adaptação para o cinema, ela surge antes do convite ou foi uma ideia proposta junto com a Mostra e a temática?

Grace: Surgiu antes. O Ricardo também fez o “Vaga Carne” peça junto comigo e a gente sempre conversou sobre isso, sobre projetos e sobre o próprio “Vaga Carne”, como seria fazê-lo nesse lugar audiovisual. Daí, conversando sobre a homenagem com a Universo Produção, isso foi apontado como um espaço possível de criação e acabou que a empresa entrou como coprodutora. Nós consideramos uma grande oportunidade para realizar essa ideia que já vinha de muito tempo. Eu e o Ricardo já havíamos feito um trabalho no “Sarabanda”, de adaptação do filme do Ingmar Bergman para o teatro. Então, essa articulação entre roteiro, texto dramatúrgico, texto teatral etc. a gente já vinha fazendo. Tem outra coisa também, porque a Mostra tem essa temática de encontro e atravessamento das artes e linguagens, o que veio muito a calhar para o exercício que parte de uma peça de teatro. Na verdade, essa é a minha grande homenagem, poder criar um trabalho audiovisual, partindo de uma peça de teatro.

Aproveitando que você falou sobre linguagens, quais dificuldades você sente nessa transposição, nessa articulação entre uma linguagem e outra? Ou pra você é fluido, exatamente por você compreender essa conexão entre artes?

Grace: É bastante diferente. Isso porque no cinema, por exemplo, existe uma relação com a câmera  que é um outro espaço. No teatro é uma outra história. O cinema entra num outro campo do espaço imagético e tudo mais. Então, eu diria que um dos maiores esforços que a gente tem que fazer é entender a relação da atuação com a câmera. No lugar do teatro, o espaço se dá entre público e atuação. Já no cinema somos permeados por máquinas, somos mediados por máquinas. Essa mediação te faz criar uma obra através de máquinas, mas que a gente só opera com nossa extrema sensibilidade, e isso é um dos maiores trabalhos. O teatro, e especialmente a peça “Vaga Carne”, se baseia muito no encontro de corpos, na presentificação desse encontro. Você vai à noite para uma peça de teatro, você vai para uma festa, um ritual. É o contrário da mediação da máquina. Ele é muito do presente e da relação entre esses corpos. Então, esse universo de criar com essas máquinas todas através da nossa sensibilidade é o que muda radicalmente tudo.

Resgatando a temática da Mostra, “Corpos Adiante”, e associando com o que você disse sobre presença, gostaria que você falasse um pouco sobre como você percebe o seu corpo como atriz sendo afetado pelo teatro e sendo afetado no cinema. Quais as diferenças sentidas pelo corpo?

Grace: Você quer dizer enquanto eu atuo?

Sim. Enquanto trabalha mesmo, como você sente seu corpo sendo afetado por isso? No teatro tem um público assistindo, enquanto que no Cinema o público vê a projeção.

Grace: É muito diferente porque no teatro é como se você criasse uma festa toda noite. Por exemplo, quando você vai fazer uma festa, você pensa em tudo para que ela aconteça. Uma festa não acontece só numa racionalidade distante e fria. Tem uma relação entre corpos que é muito viva. Eu acho que faço teatro para me lembrar — e consequentemente isso faz com que outras pessoas se lembrem também — de que eu estou viva. Porque a ideia de ter que presentificar uma situação a cada apresentação é muito metafórica de como a gente tem que viver. O exercício de presentificar o texto, as relações etc., toda noite no teatro, é um exercício que nos exige como atriz lembrar que estamos vivos o tempo inteiro. Essa é a questão. No cinema existe um trabalho de prospecção para alguma coisa do depois. É uma outra relação com a temporalidade que o cinema tem em relação ao teatro. Mas eu te confesso que eu só falo essas coisas em entrevistas porque, normalmente, eu sou muito ligada ao desejo de fazer alguma coisa, sabe? O desafio de pensar o que seria essa peça como filme me excita, eu acho legal , eu acho inventivo e me obriga a lembrar as coisas básicas que fazem aquilo ser uma peça de teatro, o que faz ser um filme… Esse exercício me mantém mais viva artisticamente falando também. Acho que é mais esse desejo da inventividade que me guia. Mais do que querer fazer um filme. É esse desejo de entender como fazer isso e nesse processo, naturalmente, eu vou refletindo sobre tudo, sobre arte mesmo.

O que você pensa sobre o conceito de corpo político?

Grace: São os corpos que pautam as questões das suas existências na nossa sociedade. São os corpos que colocam as suas identidades, as suas características mais profundas em relação a sociedade. São corpos que estão em relação. Em relação ao Brasil, à realidade social… Enfim, nossa realidade de um modo geral. São corpos que conseguem refletir sobre as suas existências, sobre o que os oprime, o que os liberta e coloca tudo isso na sociedade. São corpos que falam. Corpos que dizem. Corpos que sabem que existem na sociedade e que refletem.

RICARDO ALVES JR.

A Grace nos contou sobre como a ideia do filme “Vaga Carne” já vem desde antes da Mostra e queríamos saber de você como surgiu essa vontade.

Ricardo: Eu e Grace temos essa interseção de trabalhar com essas duas linguagens. Quando ela começou a montar a peça, que foi feita junto de um grupo de artistas, Kenia Dias, Nádia, Ricardo Garcia, eu já pensava em como ela tinha uma potência para ser transposta em outra linguagem. Desde a ideia do livro da Grace, que é uma dramaturgia sobre o risco da linguagem, páginas em branco, a própria personagem sendo uma voz que entra nas coisas… Depois isso se transformou em uma peça de teatro e eu já imaginava transformar em filme, que no caso agora será esse média-metragem que irá abrir a Mostra de Cinema de Tiradentes. A Grace é uma grandíssima atriz que tem domínio estrondoso do que faz em todas as linguagens. Ela transita, e isso fortalece muito nossa transposição porque você está filmando uma performance de um grande potência. Somado a isso, buscamos essa forma de narrar com a linguagem cinematográfica que vai trazendo novos impulsos para essa dramaturgia.

A Grace está estreando na direção com você?

Ricardo: É o segundo trabalho que fazemos juntos. O primeiro foi “Sarabanda”, uma montagem do último filme do Bergman apresentado no Palácio das Artes. Então é a segunda codireção.

E como vocês têm trabalhado esses movimentos, primeiro no “Sarabanda”, de trazer um filme para o teatro, e agora de levar uma peça para o cinema? Como vocês pensam juntos a articulação das linguagens?

Ricardo: Eu sinto que cada trabalho apresenta novos desafios. Agora nos encontramos nesse. No “Sarabanda” era pegar um filme e levar para o teatro e daí abusar da linguagem teatral, e agora é pegar essa linguagem teatral e construí-la dentro de uma linguagem cinematográfica, sem que uma se desassocie da outra, sem perder a característica performática. O “Vaga Carne” tem aí imbuída a sua imagem mesmo no teatro, como performance, mas aí trabalhando novos elementos, como som, espacialização sonora, cortes, elipses, decupagem, enquadramentos.

Podemos esperar uma diferença bem grande em relação a “Elon Não Acredita na Morte”?

Ricardo: Acho que sim. Ou também não. Talvez certas coisas estejam ali colocadas… Não sei. (risos).

Fizemos a pergunta, mas é baseada apenas no pouco que vimos ali, sendo realizado no set.

Ricardo: O que vocês acompanharam no dia de filmagem de hoje foi um pequeno fragmento e talvez aquele fragmento nem esteja no filme. Mas acho que é diferente porque é outra matéria, é outra narrativa, é diferente por si. No “Elon” eu trabalho um passeio pela cidade, com entradas e saídas de um personagem que está perdido numa cidade escura, meio fantasma. E acho que aqui tem essa figura… Olha, não sei. Vou te falar que não sei te responder isso agora, te respondo depois. É diferente, claro, pois “Elon” tem uma dramaturgia mais concatenada, mas, ao mesmo tempo, “Elon” também tem uma narrativa que é de sensações, e em “Vaga Carne” eu também acho que vai ter essa narrativa de sensações, como já tem na própria peça. Quando você lê o livro, a dramaturgia também mostra isso.

Para finalizar, gostaria que você comentasse a respeito dessa velocidade de realizar o filme tão próximo da Mostra, com esse espaço de um mês apenas.

Ricardo: De certa maneira, é um projeto que vem de antes. Existe uma “pré” feita antes, todo um diálogo com a Grace antes, uma conversa com o fotógrafo… Aqui, na verdade, é momento de realizar. Temos quatro diárias e ponto. Conheço filmes que já foram feitos em duas diárias e são longas-metragens. A questão definitiva é que temos essas diárias e um tempo específico para a montagem e edição de som com uma equipe que está topando entrar junto numa época difícil até, por ser final de ano. Então, quem topou, está ali fazendo. Pensando de uma maneira não tão prática, esse trabalho vem desde as pesquisas de cinema que a Grace tem feito. E por ser uma equipe pequena, o entrosamento e a forma de trabalhar são muito mais hábil, a gente já se conhece…

É quase como um impulso também, né?

Ricardo: Super. Um impulso e uma loucura, não vou mentir (risos). Mas de loucura também são feitas as coisas, né? Por exemplo, quando fizemos “Sarabanda”, foram dois meses para montar. E é uma peça de teatro muito complexa. Eu acho que em relação a essa coisa do tempo, é possível.

Andrea Capella (Diretora de fotografia), Grace Passô e Ricardo Alves Jr. - Foto: Renato Silveira/cinematório
Andrea Capella (Diretora de fotografia), Grace Passô e Ricardo Alves Jr. – Foto: Renato Silveira/cinematório

Vaga Carne é uma coprodução entre Grãos da Imagem, Entre Filmes e Universo Produção. No dia seguinte à abertura, o público da Mostra Tiradentes poderá assistir a uma performance teatral também inédita: “Grão da Imagem”. Em cena, Grace descreve cenas reais e cinematográficas, sem projetá-las no espaço, mas tentando fazê-las visíveis. A atração conta com a participação do músico Barulhista. Os longas-metragens “Temporada”, do diretor André Novais de Oliveira, e “Elon não Acredita na Morte”, de Ricardo Alves Jr, completam a Mostra Homenagem a Grace Passô.

Acompanhe a cobertura completa da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes no cinematório.

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