“Trágicas”, de Aída Marques - Foto: Divulgação
“Trágicas”, de Aída Marques - Foto: Divulgação

“Trágicas”: Ressignificar a tragédia

“Trágicas” é parte documentário, parte ficção. Mas não no sentido híbrido de muitas obras que costumam ser exibidas em Tiradentes. Na montagem, a diretora Aída Marques não deixa dúvidas quanto à separação das encenações teatrais – que remontam textos de tragédias gregas – dos depoimentos de mulheres que perderam familiares, foram exiladas ou se tornaram vítimas de violência doméstica ou violência do Estado.

O filme é dividido em três atos, cada qual nomeado a partir de uma personagem da mitologia grega: Antígona, a que foi morta, é ligada aos casos de mulheres que tiveram parentes (filhos, irmãos) mortos pelo regime militar, muitos dos quais nunca foram encontrados; Electra, a que manda matar, representa o drama de mães que buscam a Justiça, mas não a encontram face à violência policial justificada como “legítima defesa”; por fim, Medeia, a que mata, simboliza mulheres que se casaram à força e passaram boa parte da vida em relacionamentos abusivos.

Com a premissa de que desde a Grécia Antiga até hoje as questões permanecem as mesmas, Marques propõe ressignificar a tragédia, porém, a ligação direta feita entre o teatro e o documentário não parece orgânica. As cenas de cada natureza se alternam no modo como a cineasta as organiza, para que se relacionem na narrativa proposta, mas o resultado é outro: na verdade, uma esfera acaba interpondo a outra, principalmente nos dois últimos blocos.

Mesmo que a performance da talentosa atriz Gisela de Castro no papel das três personagens mitológicas seja executada com a intensidade que elas requerem, suas cenas perdem força diante dos depoimentos das mulheres entrevistadas por Marques, em especial no ato de Electra. Depoimentos que, nas vozes de outras vítimas da violência policial (e cujas histórias são igualmente relevantes e dolorosas), renderam um documentário bem mais centrado e pungente no ano passado, o vencedor do É Tudo Verdade “Auto de Resistência”, de Natasha Neri e Lula Carvalho.

Entende-se que a ideia de experimentar tal colagem surge de uma percepção pertinente sobre os limites da interpretação e da representação em linguagens tão diferentes uma da outra quanto o teatro e o cinema. Porém, “Trágicas” não consegue se aprofundar nesse intento. A parte teatral funciona sozinha assim, como teatro (filmado). E a parte documental, com as entrevistas, aciona outra chave, que acaba por criar uma certa confusão sobre se haveria alguma intenção de adentrar em questões da encenação como as tão bem colocadas por Eduardo Coutinho em “Jogo de Cena”, divisor de águas no documentário brasileiro.

A despeito desse ruído na comunicação interna, “Trágicas” não diminui a relevância dos temas que levanta, tampouco a necessidade de dar voz às personagens das tragédias lamentavelmente contemporâneas e cotidianas deste país que insiste em apagar sua história. Como uma das mulheres afirma, e ela poderia estar falando em nome de todas as outras, “é um sofrimento que nunca acaba”. 

Filme visto na Mostra Olhos Livres, da 22ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

 

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