Germaine Dulac - Foto: Divulgação

Olhares Clássicos: Três vezes Germaine Dulac

Na mostra Olhares Clássicos do Olhar de Cinema, são exibidos filmes que deixaram sua marca na História. Diretores e diretoras de diferentes localidades e épocas integram essa seleção, que sempre gera muito interesse do público e da crítica por apresentar títulos consagrados, raridades e obras menos conhecidas que merecem destaque para que mais pessoas tenham acesso. Esse é o caso da cineasta francesa Germaine Dulac (1882-1942), que teve três filmes exibidos no festival com cópias restauradas, sendo essa a sessão com os filmes mais antigos de toda a programação do evento.
Germaine Dulac - Foto: Divulgação
Germaine Dulac – Foto: Divulgação

Dulac realizou trabalhos na passagem entre o cinema mudo e o sonoro, estando na vanguarda dos anos 1920 e tendo sido pioneira na forma como trabalhou a linguagem cinematográfica, ainda em seus primórdios, em experimentações visuais e narrativas sofisticadas. Além disso, foi uma importante jornalista, critica e teórica de Cinema, contribuindo de forma significativa para o pensamento da arte. Ela defendia a ideia de, nas palavras dela, um cinema “puro” ou “integral”, voltado principalmente para as impressões e sensações, potencializadas pela fusão bem articulada de conteúdo e forma. E também reivindicava o conceito de autoria em filmes.

O resgate histórico da obra de Dulac no 8º Olhar de Cinema, ainda que com poucos filmes, é importante e necessário, pois, apesar dela ter sido essa artista e pensadora fundamental, a historiografia oficial do cinema acabou por invisibilizá-la, como fez com tantas outras profissionais. Hoje, ela tem sido estudada, inclusive, como precursora do surrealismo cinematográfico. Em seu filme “A Concha e o Clérigo”, de 1926, além das características impressionistas, ela também trabalha com elementos surrealistas, antecedendo em dois anos algumas das propostas presentes em “O Cão Andaluz”, de Luis Buñuel.

 

O festival exibiu o média-metragem “O Cigarro”, de 1919, que está completando seu centenário, e os curtas “Aqueles Que Se Fazem” e “Danças Espanholas”, ambos de 1928. Em todos eles, há o protagonismo feminino como base para desenvolver o interesse de Dulac pela liberdade, autonomia, subjetividade, presença e independência da mulher. Interessava-lhe ainda discutir a masculinidade e os papéis de gênero.
Em “O Cigarro”, a história é sobre um marido que desconfia da traição de sua mulher, que é muito mais jovem do que ele e tem personalidade espirituosa, com muita vontade de viver e aprender coisas novas. A narrativa é divertida e prende a atenção pelo desenrolar dos acontecimentos do início ao fim. Ao mesmo tempo, é possível perceber o comentário sobre o quanto uma mulher livre e espontânea pode perturbar um homem, que sente sua masculinidade ameaçada. A técnica e o estilo de Dulac também se destacam e se mostram bastante elaboradas para a época. Há uma atuação mais próxima do natural, alternâncias entre locações e cenários, montagem associativa, tom lúdico, flashbacks, entre outras estratégias que demonstram o domínio da diretora.
Germaine Dulac - Foto: Divulgação
Germaine Dulac – Foto: Divulgação
Em “Aqueles Que Se Fazem”, há experimentalismo e sensibilidade no modo como Dulac filma uma mulher pelos espaços da cidade. Acompanhamos a personagem que vagueia, passa por rápidos encontros, parece estar à deriva. Somos guiados por suas expressões, seu olhar e caminhar. Nada é muito explicado, mas o que fica é o retrato de uma subjetividade feminina indecifrável e que transmite um sentimento profundo de solidão e incerteza.
Germaine Dulac - Foto: Divulgação
Germaine Dulac – Foto: Divulgação
Em “Danças Espanholas”, vemos uma dançarina de flamenco performando duas danças. Dulac, com enquadramentos interessantes e criativos, faz um estudo de movimento, observando o volume, o gesto, detalhes, e, mais uma vez, a liberdade e força feminina agora pelo viés do corpo, da dança e da expressão física. Observa a lógica das formas e do fluxo pela dança — e o filme inclusive pode ser visto em diálogo com outra grande cineasta, de outra época, Maya Deren (1917-1961).
Germaine Dulac - Foto: Divulgação
Germaine Dulac – Foto: Divulgação
Para saber mais sobre a obra de Germaine Dulac, ouça o nosso podcast Em Foco dedicado à diretora.
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