"Sorry, Baby" (2025), de Eva Victor - Foto: PASTEL/Divulgação
"Sorry, Baby" (2025), de Eva Victor - Foto: PASTEL/Divulgação

Eva Victor detalha o processo de cura e a estrutura narrativa de “Sorry, Baby”

O cenário do cinema independente norte-americano recebeu este ano uma nova obra que propõe uma abordagem distinta sobre o trauma e a recuperação. Trata-se de “Sorry, Baby”, filme que marca a estreia de Eva Victor em três frentes: ela assina o roteiro, a direção e atua como protagonista. A produção carrega o selo da Pastel, produtora liderada por Barry Jenkins, Adele Romanski e Mark Ceryak, equipe responsável por sucessos de crítica como “Moonlight” e “Aftersun”.

Lançado nos cinemas brasileiros no último dia 11 de dezembro, o longa-metragem iniciou sua trajetória no Festival de Sundance de 2025, conquistando o Prêmio de Roteiro Waldo Salt. Em seguida, foi selecionado para a prestigiada Quinzena dos Realizadores no Festival de Cannes. E agora, o filme trilha seu caminho na temporada de premiações, sendo indicado ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Filme de Drama e em quatro categorias do Independent Spirit Awards: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Atriz Coadjuvante, para Naomi Ackie. A produção também aparece entre as apostas para o Oscar 2026.

A trama de “Sorry, Baby” acompanha Agnes, uma jovem professora inteligente e espirituosa que vive em uma pitoresca cidade universitária na Nova Inglaterra, nos EUA, mesmo local onde realizou sua pós-graduação. O filme se afasta das fórmulas tradicionais de dramas sobre violência sexual para explorar o que acontece depois que o chão desaparece sob os pés de alguém que passa por esse trauma. Após se tornar uma inesperada vítima de abuso, Agnes opta por permanecer na cidade, mesmo enquanto seus amigos partem para novas vidas. O enredo se desenrola como uma comédia dramática, navegando pelos absurdos, prazeres e confusões de uma vida que está apenas começando, sem ignorar a marca deixada pelo passado recente de Agnes.

Em entrevista coletiva da qual o cinematório participou, Eva Victor detalhou o processo criativo por trás de “Sorry, Baby”, explicando as decisões narrativas que a levaram a focar na reconstrução da identidade da protagonista em vez do ato de violência em si.

"Sorry, Baby" (2025), de Eva Victor - Foto: PASTEL/Divulgação
“Sorry, Baby” (2025), de Eva Victor – Foto: PASTEL/Divulgação

A gênese do projeto e os “anos perdidos”

Um dos pontos centrais abordados pela diretora foi a motivação inicial para contar a história de Agnes. O objetivo não era retratar o incidente explicitamente, mas sim investigar o período nebuloso que se segue a uma experiência de violência sexual. Eva descreve esse intervalo de tempo como uma fase de estagnação, onde a vida parece parar enquanto o mundo ao redor continua a girar.

Ao ser questionada sobre a origem do projeto, ela explicou que seu interesse residia na jornada de cura e na importância das amizades que sustentam a vida nesses momentos.

“Eu estava muito interessada em fazer um filme que tratasse de violência sexual, mas que não a mostrasse, e deliberadamente me afastasse da violência como estrutura da história, fazendo com que a narrativa fosse sobre a jornada de cura”, disse a cineasta. “E eu meio que tinha esses anos na minha cabeça, esses anos logo depois que algo assim acontece. E na minha cabeça eles eram chamados de ‘anos perdidos’. Esses anos em que todos os outros desviam o olhar e você está presa, meio que se movendo em um ritmo glacial, tentando fazer sentido do mundo novamente.”

Eva enfatizou que o filme funciona como um registro desse período de “calmaria estranha” e da sensação de estar presa. A estrutura de capítulos adotada no roteiro foi a ferramenta encontrada para organizar essa experiência e reforçar que a narrativa se baseia na tentativa de curar, e não na violência sofrida.

A reação de congelamento e as escolhas de direção

Uma das escolhas estéticas mais discutidas sobre “Sorry, Baby” é a forma como a cena do ataque sexual é filmada. A câmera permanece do lado de fora da porta, uma decisão que Eva Victor afirma ter sido tomada tanto por razões narrativas quanto emocionais. A intenção era manter o público alinhado com o estado psicológico de Agnes, evitando que o espectador tivesse informações privilegiadas sobre o que estava acontecendo antes que a própria personagem processasse o evento.

Eva abordou a reação fisiológica conhecida como “freezing” (congelamento), muitas vezes esquecida em discussões sobre respostas ao trauma, que geralmente focam apenas em “lutar ou fugir”.

“Ficar do lado de fora nos permite vivenciar o que, para mim, é na verdade emocionalmente mais semelhante à experiência de congelar como uma resposta ao trauma”, explicou a diretora. “Acho que falamos sobre lutar ou fugir, mas raramente falamos sobre congelar, que é uma resposta muito comum a algo traumatizante acontecendo. E quando ela diz na banheira: ‘e então eu o beijei porque pensei que assim ele tiraria a mão de mim’, na verdade é como um mecanismo de sobrevivência.”

Eva ressalta que, naquele momento, a personagem não possui a clareza ou a capacidade de escolha para simplesmente levantar e sair. O corpo reage buscando a sobrevivência imediata. A cineasta detalhou que a ação de Agnes beijar o agressor não nasce do desejo, mas da esperança de evitar uma violência maior.

“Para mim, é na verdade uma coisa meio trágica que… E eu não tenho nenhum julgamento em relação a Agnes por fazer isso. É o que ela está fazendo para sobreviver, e eu a amo por isso”, afirmou Eva. “Mas este é um filme entre muitos outros sobre este tema. E a nuance daquele momento me pareceu verdadeira. E foi por isso que eu o incluí.”

"Sorry, Baby" (2025), de Eva Victor - Foto: PASTEL/Divulgação
“Sorry, Baby” (2025), de Eva Victor – Foto: PASTEL/Divulgação

O papel do gato e a comunicação não-verbal

O pôster do filme destaca a presença de um gato, que desempenha um papel significativo na vida doméstica de Agnes. Durante a entrevista, Eva Victor revelou que a inclusão do animal tem raízes autobiográficas e serve como um paralelo para as discussões sobre consentimento e limites que permeiam o filme. A relação com o animal oferece um contraponto às violações de limites que a protagonista sofre nas interações humanas.

Eva observou que a comunicação com animais envolve uma leitura imediata de limites físicos, algo que se torna relevante no contexto da narrativa.

“A ideia de que não falamos a mesma língua que nossos animais de estimação, mas entendemos completamente seus limites, eu acho que é muito interessante em uma conversa sobre consentimento verbal”, disse ela. “E, tipo, com um gato, se você está tocando nele e ele não quer que você o toque, você percebe isso muito rápido! Então, por alguma razão ligada a isso eu achei que conversar sobre consentimento e limites era adequado para este filme.”

Além da metáfora sobre consentimento, o gato funciona como uma presença salvadora para Agnes, oferecendo companhia sem a exigência de interação verbal complexa. Eva descreveu a relação com o felino como ter um “colega de quarto que você tem que respeitar como um adulto”.

A montagem e a subjetividade do tempo

“Sorry, Baby” utiliza uma narrativa não linear, com saltos temporais que refletem a percepção subjetiva de Agnes sobre a passagem do tempo durante seu processo de recuperação. Eva Victor explicou que a montagem do filme foi guiada pela necessidade de transmitir como certos momentos se arrastam enquanto anos inteiros podem parecer passar em um piscar de olhos.

Ela mencionou especificamente uma cena envolvendo um júri e como ela contrasta com a rapidez de outros eventos na vida da protagonista.

“Eu sinto que aquela cena parece que dura uma hora. E são apenas 10 minutos. Mas é para parecer que ela está realmente presa lá e não consegue sair. E que aquele dia para ela dura um ano”, detalhou a cineasta. “E então o ano seguinte é tipo, Lydie fica noiva. Ela consegue um novo emprego… E tudo isso acontece em, tipo, 10 minutos. Tipo, aquele ano passa assim.”

O processo de montagem também envolveu sacrifícios criativos. Eva revelou que precisou cortar cenas que adorava, incluindo interlúdios de estranhos comendo sanduíches, porque, embora funcionassem isoladamente, diluíam a tensão dramática necessária para o funcionamento do filme como um todo. Ela descreveu o corte dessas cenas como “devastador”, mas necessário para respeitar a “consciência própria” que o filme adquiriu durante a montagem.

"Sorry, Baby" (2025), de Eva Victor - Foto: PASTEL/Divulgação
“Sorry, Baby” (2025), de Eva Victor – Foto: PASTEL/Divulgação

Influências cinematográficas e o olhar masculino

Ao discutir as referências para o longa, Eva Victor citou obras que focam na dor e na sobrevivência de maneira honesta, em vez de filmes que priorizam a representação gráfica da violência. Entre as influências citadas estão “Certas Mulheres”, de Kelly Reichardt, “Álbum de Família”, de John Wells, “45 Anos”, de Andrew Haigh, e “Moonlight”, de Barry Jenkins. Ela também mencionou o filme “Para Minha Irmã”, de Catherine Breillat, como uma referência importante, apesar de seu final devastador.

Sobre a recepção do público masculino a “Sorry, Baby”, Victor rejeita a ideia de que o filme seja restrito a um gênero específico. Ao responder a nossa pergunta, ela relatou que, durante o processo de criação e exibição, percebeu que homens também se conectavam com a história, seja por experiências próprias ou por empatia com pessoas amadas.

“Eu nunca senti que houvesse falta de compreensão por parte dos homens em relação ao roteiro. Eu me lembro que nas conversas mais focadas no lançamento do filme, havia discussões sobre quem era o nosso público-alvo. Mas eu acredito que todas as pessoas no mundo têm alguma relação com traumas sexuais, seja diretamente ou através de alguém que amam muito. Então, eu meio que sempre senti que a divisão entre as pessoas que vão entender este filme não é o gênero. É provavelmente mais uma vontade de se envolver com o assunto”, pontuou a cineasta. “Mas tem sido bom sentir que os homens estão indo assistir ao filme e saindo com perguntas sobre como o mundo funciona. Alguns homens, eu acho, entendem completamente. E alguns homens ficam com dúvidas. Então, eu sou muito grata por isso.”

A importância da autonomia no set

Eva Victor - Divulgação
Eva Victor – Divulgação

Por fim, Eva Victor refletiu sobre o desafio e o significado de acumular as funções de roteirista, diretora e atriz. Embora tenha hesitado inicialmente sobre assumir a direção, ela concluiu que a experiência foi fundamental, especialmente considerando a temática da obra. Dirigir a si mesma se tornou um ato de reivindicação de autonomia sobre o próprio corpo, espelhando a jornada de Agnes.

“Para este filme, não consigo imaginar não ter me dado essa oportunidade de me dirigir. Há algo que foi tão significativo apenas no dia a dia, ser a diretora que escolheu para onde eu, como atriz, fui, para onde meu corpo foi”, disse Eva ao cinematório. “Porque o filme é sobre um trauma onde alguém escolhe para onde seu corpo vai sem a sua permissão. E isso é tão louco e alucinante, e poder apenas diariamente dizer ‘a personagem fica aqui’… Havia algo de metalinguístico muito significativo sobre eu ser a única no comando de mim mesma. E também, como atriz, o seu trabalho é se soltar e estar presente, e tudo o que tiver que acontecer, acontecerá. Então, sentir-me segura o suficiente para me soltar no set também foi muito significativo.”

“Sorry, Baby” chega aos cinemas trazendo essa perspectiva singular sobre o controle da própria narrativa, apresentando Eva Victor como uma nova voz no cinema autoral contemporâneo e uma artista que, com certeza, queremos acompanhar daqui em diante. ■

 

Onde ver "Sorry, Baby" no streaming: